Pânico em Paris: os turistas asiáticos sumiram

Não só os atentados de um ano atrás afugentam turistas da França: crimese perseguição contra os lucrativos visitantes orientais também contribuem

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2016 | 17h00

Alarme! Os estrangeiros não gostam mais da França! Não adianta sorrir: eles nem ligam. Mesmo Paris, uma das cidades mais fascinantes do mundo, está perdendo seus apaixonados.

Do início do ano para cá, a taxa de ocupação dos hotéis parisienses caiu 9,4%. A frota Long Courier da Air France transportou em setembro 15.500 passageiros menos que há um ano. Os famosos bares de Montparnasse, que fervilhavam de pintores espanhóis e poetas americanos na Belle Époque, entre as duas guerras, estão em queda livre. Neste verão, seu faturamento caiu pela metade.

As causas desse desamor são claras. A série de atentados – do massacre no jornal Charlie Hebdo, em 7 de janeiro de 2014, ao banho de sangue de novembro de 2015 – deixou os estrangeiros com a sensação de que Paris estava em guerra. Logo em seguida, também o tempo ficou mal-humorado. A primavera parisiense foi sombria, e isso contaminou o verão. É bom morrer em Paris, mas não com chuva...

Há outras razões, menos conhecidas. Os turistas chineses e japoneses que todo ano, em formações cerradas e sob a direção de guias sisudos, tomavam de assalto a Torre Eiffel ou se fotografavam aos casais, de smoking e longo, nas sombras acolhedoras do Campo de Marte, foram neste ano bem menos numerosos: apenas 160 mil chineses, para 220 mil em 2015.

E por quê? Por causa dos atentados, sem dúvida, e das chuvas parisienses que encharcaram os belos vestidos de tule e renda. Mas também por uma outra razão, esta, inédita.

Em fins de setembro, um turista de Taiwan caiu nos trilhos do metrô após ser atacado por um bando de desordeiros. Um mês antes, cerca de 30 chineses haviam sido atacados e roubados por uma quadrilha de marginais (não foi um incidente isolado: houve outros três do gênero na temporada).

Mesmo a polícia francesa não divulgando tais ocorrências, as redes sociais se encarregam disso. E o resultado é o imediato cancelamento de reservas nos hotéis.

Para a indústria e o comércio, essa fuga de asiáticos sai cara. Um chinês em férias por aqui gasta em média 3.400 euros, (US$ 3.700), dos quais 32% em passagens aéreas internacionais, 30% em compras de luxo e 15% em hospedagem.

A ausência de japoneses e chineses pôs em pânico os franceses, que entraram em formação de guerra: Paris não iria permitir que o fluxo de asiáticos secasse sem reagir. Tratava-se de enfrentar uma catástrofe do tipo tsunami, ciclone, inundação, tempestade de neve.

No Fórum Internacional de Turismo de Macau, em 15 de setembro, o ministro de Relações Exteriores francês chegou acompanhado de 80 especialistas do setor. A missão da delegação era mostrar aos asiáticos que a França é um paraíso cheio de lagos, montanhas, planícies; que as francesas são as mulheres mais bonitas do mundo; que os homens são sorridentes, afáveis, educados, modestos, engraçados, prestativos.

A polícia adotou providências especiais voltadas para os asiáticos. Delegacias e postos policiais passaram a receber queixas em 16 línguas. Grupos de turistas ganharam todo tipo de assistência, incluindo listas de precauções escritas em chinês.

Apesar de todos os problemas, os hotéis, principalmente os de grande luxo, mantêm o moral elevado e prometem contra-atacar. “O ano de 2017 será o da reconquista”, afirma o gerente do Plaza Athénée – fazendo figa, apenas por precaução. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Um ano depois dos atentados terroristas que mataram 130 pessoas em Paris, a cidade estima perda de 2 milhões de visitantes e 1 bilhão de

euros, só em 2016. O Museu do Louvre,

o mais

frequentado do mundo, teve queda de 20% no número

de visitantes.

NOVEMBRO

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