Papai Noel morreu

Ator encarnava o bom velhinho nos comerciais da Coca-Cola

Guilherme Faria, O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2014 | 16h00

John Moore era a pessoa ideal para representar Papai Noel. Tinha o cabelo branco como a neve da Lapônia, barba densa que cobria boa parte do rosto e chegava ao tórax e era querido pela maioria dos habitantes de sua cidade. O senhor rechonchudo distribuía presentes e sorrisos em eventos de caridade na cidadezinha inglesa de Burgess Hill vestindo o uniforme natalino. Morreu aos 86 anos, na semana retrasada, fato que repercutiu muito além das fronteiras do condado de West Sussex.

A aparição de John em comerciais de Natal da Coca-Cola o fez ficar bem mais conhecido que seus companheiros de profissão. Ele era o ator por trás da computação gráfica do bom velhinho e encarnava o visual da empresa que criou a imagem do Santa Claus contemporâneo. O principal personagem das festas de fim de ano é inspirado em São Nicolau, que viveu no século 4º e ficou conhecido por ajudar pobres e crianças. Atualmente, milhões de pessoas no planeta imaginam o santo como a figura de Moore vestido com as cores do refrigerante.

A multinacional enviou condolências aos familiares de Moore e à comunidade de Burgess Hill e salientou, em nota enviada ao Aliás, que o britânico de fato incorporava o Papai-Noel modelo da empresa. Antes de aparecer nos anúncios da bebida, John havia estrelado, no mesmo papel, um comercial da cadeia de supermercados Morrisons.

Viúvo há dez anos, não deixou herdeiros. Mas, apesar de ninguém ser filho de Papai-Noel em Burgess Hill, Mr. Moore assumia o papel de avô de boa parte da população de 28 mil habitantes. Além de pedir que as crianças se comportassem bem durante todo o ano, "Santa Moore" aconselhava até quem já tem idade para saber que ele não desceria pela chaminé em dezembro. A atriz Sandra Sellars conta, no Facebook, que o protagonista de comerciais veiculados em vários países lhe deu preciosas dicas para alavancar sua carreira.

Já que nem sempre é Natal, John tinha de buscar alternativas de sobrevivência fora das artes cênicas e da entrega de presentes. Quando não trajava o conjunto vermelho, as botas e o cinto que marcava a barriga avantajada, dirigia um táxi da empresa Census durante o dia e à noite trabalhava como barman no King's Head Pub.

A vida noturna de Moore, mesmo na casa dos 80, era ativa. O "Santa" bon vivant era visto frequentemente empunhando uma caneca no bar British Legion e saboreando seus pratos preferidos no restaurante Woolpack. Mesmo à paisana, não recusava agir como Papai-Noel, inclusive entre janeiro e outubro. Posava para fotos, garantia que ajudaria a pôr na linha os filhos de seus companheiros de mesa e conversava com os meninos que sentavam a seu lado. E sempre respeitava a legislação britânica que proíbe crianças de sentarem no colo dos Papais-Noéis.

Toda sua experiência no ofício de representar o bom velhinho era compartilhada em cursos, workshops e recrutamento de interessados em realizar a função. Moore considerava que é fundamental construir uma ligação mágica com as crianças e dizia que os aspirantes a Papai-Noel deveriam ser a "personificação do amor e de tudo que há de melhor na natureza humana".

Em suas palestras, reclamava que o momento em que entrava em sintonia com as crianças sofria bastante com intervenções dos pais, que pediam para que os garotos se dedicassem mais à escola ou comessem mais verdura.

Na década de 1930, a Coca-Cola contratou o ilustrador norte-americano Haddon Sundblom para repaginar a figura de Santa Claus. O novo personagem passou a usar a cor que evoca claramente a Coca-Cola e protagonizar anúncios da empresa em todo o planeta - o que leva muitos críticos a condenar o "aspecto mercantil" que a festa teria adquirido.

A figura de Papai-Noel causa ojeriza no músico Mao, ex-vocalista da banda de punk Garotos Podres. O roqueiro é compositor de Papai-Noel, Velho Batuta, canção que ganhou controversa fama nacional por apontar o bom velhinho como "porco capitalista" que o autor quer "sequestrar" e "exterminar".

"Sinto pelo falecimento de John, mas de forma alguma sentiria pesar se o personagem tivesse morrido", afirma o músico, que também dá aulas de história. Ele ainda considera o Natal uma festa "hipócrita" e com tradições ditadas por "empresas monopolistas".

Mao sugere uma inversão: que outros países adotem no Natal um personagem brasileiro. "Fico imaginando como seria se as pessoas do resto do mundo festejassem o Dollynho", referindo-se ao boneco do refrigerante, que tem o verde da árvore de Natal e sorriso mais alegre que qualquer penduricalho dos pinheirinhos artificiais.

A Coca-Cola enviará seu caminhão natalino para Burgess Hill no dia 20 de dezembro. Decorado com pisca-pisca, árvores de Natal e outros enfeites, o caminhão tentará amenizar na cidade a perda de John Moore e fazer com que as crianças, mesmo sem Papai-Noel, deixem seus sapatinhos na janela do quintal.

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