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'Parque Cultural', do escritor russo Sergei Dovlátov, é lançado no Brasil

Livro foi editado pela Kalinka e é representativo da obra do autor que se radicou nos Estados Unidos após sofrer perseguição na União Soviética

Aurora Bernardini*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2017 | 16h00

Serguei Dovlátov (1941-1990) é um nome importante não apenas na literatura russa de hoje, mas também na dos EUA, para onde emigrou (1978) e se tornou famoso como fundador do jornal O Novo Americano. Foi reconhecido por prestigiosas revistas (The New Yorker e Partisan Review), lançou 12 livros e lhe foi dedicada uma rua (Sergei Dovlátov Way, no Queens).

Já o parque que lhe foi dedicado na Rússia, quando se tornou um autor icônico, tem a ver com esta curiosa novela, uma das mais comicamente ferinas que se possa ler na literatura atual. Acontece que na Rússia de Puchkin (1799-1837) havia uma propriedade onde o grande poeta costumava passar suas férias (e exílio), que na época da URSS foi transformada em parque cultural e monumento histórico. Um parque, aliás, onde foi recriado o ambiente da época do poeta nacional, retocado (leia-se “fajutado”), aberto à visitação pública, e onde Dovlátov trabalhou como guia turístico pouco antes de emigrar, parque esse que para Borís Alikhánov (seu alter ego, na novela) é uma alegoria da própria vida na URSS. Mas descrita com tanto humor (cáustico) pelo protagonista e narrador Alikhánov, que se autoironiza (como o Humbert Humbert de Lolita, ou o nosso Serafim Ponte Grande) dizendo, com a sua inconveniência politicamente incorreta, disparates que muitos “pensam, mas não dizem”, entremeados por generalizações comuns ao mundo inteiro (liberdade, amor, morte, impostura, vícios: em especial, sexo e bebida), expressas com uma hilariante ingenuidade nonsense que conquista a simpatia do leitor a cada página.

Como muitos artistas, o autor recria nas obras, publicadas após sua emigração (exceto alguns contos em samizdat, cópias clandestinas que foram bem recebidas, apesar de desconstruírem o mito soviético), fatos e figuras das etapas de sua vida real. Seu malogro na literatura oficial foi, inicialmente, ele ter passado a constar, em 1968, de uma “lista negra” (do “Sarau da juventude criativa de Leningrado”) – coisa que ele só descobriu mais tarde: “Na União Soviética eu não era dissidente. (A bebedeira não conta.) Eu apenas escrevia contos alheios à ideologia. Publicam qualquer um, menos eu. As pessoas vendem a alma ao diabo, eu a dei de graça...”

Sua infância/juventude/maturidade aparecem nos contos Os Nossos (1977), que retrata a família e os amigos; A Mala (1986), o resumo de toda sua vida na URSS; O Ofício (1985), sobre sua “carreira”; A Troca (1981), período de 5 anos em que trabalhou em Tallin como jornalista; A Zona (1982), seu serviço militar como membro da “tropa da prisão”; A Estrangeira (1986), sobre a emigrada Mússia Tataróvith; A Filial (1990) etc. 

O eixo de Parque Cultural (1983) é a separação da mulher do narrador (Tânia, na novela) que emigra com a filha para os EUA (o pai do ex-marido é judeu) bem no momento em que, apesar da bebedeira e de uma série de quiproquós com figuras impagáveis (os turistas, que às vezes desmaiavam de tensão; a metodologista, de corpo indistintamente feio; o guia preguiçoso), Alikhánov achava ter conseguido uma certa harmonia. “Decidi ponderar tudo com calma. Tentar dissipar a sensação de catástrofe, de beco sem saída.

A vida se desenrolava como imenso campo minado. E eu estava bem no meio dele. Era necessário dividir este campo em setores e pôr mãos à obra”. Mas os fatos não o permitem, ele cai em depressão, volta ao vício e vê-se acossado pela censura que sempre, nos momentos culminantes de sua tão desejada carreira literária, reúne indícios para não publicá-lo. Estamos na véspera das Olimpíadas de 1980, época em que se procurava fazer com que os “indesejáveis” saíssem do país e – de fato –, na vida real, apesar de não querê-lo (“é possível sobreviver e continuar escrevendo longe de seu leitor e de sua língua?”), Dovlátov, com a mãe e a cachorra de estimação, acaba deixando o país, rumo aos EUA, onde, como previra seu amigo Joseph Brodsky que o admirava, terá sucesso de crítica e de público.

Quando o escritor morreu, em 1990 (de uma parada cardíaca, consequência da bebida que nunca abandonou), a Rússia lançou oficialmente sua primeira coletânea de contos. O sucesso foi estrondoso. Sua obra completa foi publicada em três volumes (1995), saíram pesquisas, biografias, memórias, filmes, congressos, documentários sobre ele e sua obra. A casa alugada pelo escritor perto do Parque Cultural, que se encontra na aldeia que no livro aparece com o nome de Sosnovo, tornou-se sede de um museu, num parque que hoje leva seu nome. 

*Aurora Bernardini é professora de literatura russa na USP

'Parque Cultural'

Sergei Dovlátov

Tradução de Yulia Mikaelyan

Editora Kalinka

169 pág.

R$ 45

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