#Partiu. Mas por que mesmo?

O que estamos fazendo das nossas viagens? Um caminho de reconhecimento? Uma trilha para o novo? Ou um trajeto em que seguimos uma rota virtual para chegar o quanto antes ao destino, seja ele qual for? O filósofo Mario Sergio Cortella, professor da PUC-SP e ex-monge carmelita descalço, diz que estamos perdendo o GPS de nós mesmos ao nos preocuparmos mais com o objetivo do que com a jornada. Quando desprezamos a paisagem, deixamos de ampliar nosso repertório de imagens e a capacidade de criar. Enfim, de viver. “Nossa realidade circunstante virou uma maquete virtual.”

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2016 | 16h00

Houve um tempo em que o caminho importava: “Caminhante, são suas pegadas / O caminho e nada mais”, nos versos célebres do poeta sevilhano Antonio Machado, em Campos de Castilla, de 1912. “Caminhante, não há caminho / Se faz o caminho ao andar.

Hoje, quem liga? Queremos chegar. Rápido. Sem olhar para os lados. A vista vai da estrada ao celular, segue o percurso do Waze (roxo) ou do Google Maps (verde). Tanto faz os matizes de dia e noite, de floresta ou deserto. O GPS sabe aonde vai. Em meio a paisagens cada vez mais desconhecidas, melhor mesmo prosseguir pela rota destacada. Como disse essa semana o criador do Waze, Uri Levine, com involuntária profundidade, “as pessoas não pensam mais por onde estão indo”.

Vivemos um momento de obscurecimento da paisagem, destaca o filósofo Mario Sergio Cortella, professor da PUC-SP e autor de livros de filosofia e educação, entre eles Não se Desespere! Provocações Filosóficas (Vozes). “Ao ignorar os percursos, perdemos a possibilidade de ampliar nosso universo de visões e imagens.” Vale para passeios e para o dia a dia. “É um reflexo da instrumentalização do nosso tempo. Estamos sempre ocupados com metas e objetivos e não temos espaço para distração, para aproveitar as jornadas que, no fim das contas, são a nossa vida”, disse Cortella, discípulo de Paulo Freire, que o descrevia como “um dos poucos filósofos brasileiros que pensam o novo”.

Ex-secretário de Cultura de São Paulo (gestão Erundina) e ex-monge carmelita descalço (uma ordem viajante), o filósofo analisou nossas jornadas em tempos de Waze. “Toda viagem para fora é também uma viagem para dentro. Em nossos caminhos não podemos ficarmos submissos à tecnologia. Viajar, como viver, é emoção. E, se deixamos de prestar atenção no que mexe conosco, o que resta é mera rotina.” Dica a ser anotada, em estranhos dias de caminhantes que não sabem dizer por onde andaram. Ou pior: que não têm mais a curiosidade de saber.

O criador do Waze disse que as pessoas “não pensam mais por onde vão”. O caminho perdeu a importância?

Estamos vivendo um momento de obscurecimento da paisagem. Durante muito tempo, olhar para fora, pela janela do carro, era decisivo nas viagens que fazíamos. Seja qual fosse. Num carro, trem. Até num navio, ter escotilha sempre foi um grande atrativo. E agora a gente vive um instante de não precisar ver para poder chegar, nem conseguir reconhecer a paisagem para se localizar. Isso é novidade. Nas viagens que fiz quando criança, minha mãe, sabiamente, dizia que só a viagem já era um passeio. Essa expressão tinha um sentido forte: o traslado já era uma diversão. O conceito de distração, portanto, mudou. Antes a paisagem distraía, descansava, repousava. Acalmava o trajeto. Houve uma ressignificação da ideia de distração.

Nos distraímos menos em nossas viagens hoje?

A distração serenava o tempo, o desconforto eventual, a ansiedade da chegada. Hoje o efeito é contrário. A tecnologia é distrativa no sentido de tirar a atenção, fazer com que eu mantenha o meu olhar no virtual. Perdemos a possibilidade da fruição, de ampliar nosso universo de paisagens, visões, imagens. Há uma perda de nossa capacidade de imaginação, de observação. Ao olhar para o mar ao longe, para as nuvens, para a velocidade do trem ou do carro, isso tudo compõe um universo circunstante que foi explodido e substituído por outro, indiferente. É a quase transformação da nossa realidade circunstante numa maquete virtual. E o que ganhamos? Ao ficarmos fixados no Waze ou no Google Maps, ganhamos algo extremamente arriscado, que é a monotonia. Como eles exigem um olhar contínuo, dada a capilaridade das estradas, a monotonia se torna enfadonha. A viagem fica mais prática, mas muito mais cansativa.

Então a imaginação sai prejudicada?

Exatamente. Porque deixamos de ampliar nosso repertório de imagens. O percurso acaba ficando desnaturalizado. Há uma desimportância do externo, o caminho já não importa, e isso leva a um encapsulamento. Quando falo em importar é no sentido de “portar para dentro”: aquilo que trazemos para dentro de nós. E, nesse caso, estamos deixando de importar a paisagem. Ela deixou de ser importante e agora tem de ser ignorada, porque atrapalha. Nos distrai do GPS. Se eu olhar para fora, corro o risco de me perder. Quando deveria ser o contrário: observar a paisagem, olhar para fora, deveria ajudar a me encontrar. João e Maria jamais se perderiam na floresta com o Waze. Mas também nunca iriam notá-la. E a história de Teseu só é bonita porque ele prestou atenção no labirinto, e não somente no fio. Há uma descoberta. Ali é que ele vira o Teseu. Vale para as viagens e também para nosso dia a dia. Lembro-me da ideia clássica de Ortega y Gasset, filósofo espanhol: eu sou eu e mais a minha circunstância. Eu não sou eu puro. Sou eu e mais o que está à minha volta. Portanto, uma visão que se alarga para o exterior. E nós somos um ser para fora. Por isso é que nós temos existência. Existir: “ser para fora”. Olhar para dentro é importante, sempre. Mas o tipo de olhar para dentro a que algumas tecnologias nos induzem é redução mental.

Isso começou com esses aplicativos?

É mais antigo, essa quase anulação do que nos rodeia se iniciou na área de armamento militar, quando começamos a ter, na Guerra do Golfo, a utilização de ataques de bombas em que só se enxergava o “x” no alvo e depois o sinal da explosão. Não se via o prédio cair, a paisagem não existia. É como um game. A pessoa se conduz numa câmara escura, como se tivesse os olhos lateralmente tapados. Serve para o trânsito, o trem, o avião. Um dos prazeres de voar era olhar a paisagem, as nuvens, era o que distraía. Hoje, ao contrário. O estímulo é para que a pessoa olhe um mapinha na frente dela. É uma desnaturalização da própria paisagem. Nós retiramos o que o Max Weber chamaria de encantamento. É o desencantamento do real e, portanto, o caminho se tornou só o meio para o objetivo final. O repertório cultural também muda. É curioso imaginar, por exemplo, expressões como “terra à vista”, dita nas navegações. Fosse hoje, os navegadores não olhariam para o horizonte. É o que fazemos atualmente: olhamos o tempo todo para o virtual, sem notar o horizonte real. Ao contrário, ele é indiferente.

Como essa visão afeta nosso dia a dia?

Existe uma instrumentalização do nosso tempo para impedir que sejamos capazes do ócio. O que é um passeio, de fato? Aquilo que o francês chama de promenade. Vou dar uma volta. É você não ter rumo, não precisar saber aonde vai. Ócio não é vagabundagem. É não ser obrigado a uma ocupação. Preso não tem ócio. Desocupado não tem ócio. Ócio é quando você tem liberdade para o uso do seu tempo naquilo que deseje. Antigamente, a expressão de quem saía por aí de maneira livre era vagamundo – que em grego antigo, aliás, se diz planetes e origina a palavra planeta, astro que fica dando voltas. Mas depois a palavra virou vagabundo e ganhou conotação negativa. Na sociedade capitalista, no mundo dos últimos 500 anos, dentro da ética protestante, a ideia de quem saía por aí sem eira nem beira se tornou absolutamente reprovável. Só o trabalho salva. Só o trabalho dignifica. Aliás, como escreveram os nazistas nos campos de concentração, só o trabalho liberta. Certo? Há uma objetivação extremada do tempo livre hoje. A tal ponto que ficar desocupado é quase uma insuportabilidade. O resultado são crises de criatividade. Porque o tédio é absolutamente criativo. Você inventa coisas porque não tem o que fazer. E a ausência hoje de tédio, porque você fica o tempo todo ocupado com algo, resulta numa vida que precisa ter meta e objetivo o tempo todo. Como se fosse uma carreira. Despreza-se que a arte seria impossível com a ocupação contínua. Só existe arte, filosofia, por conta da desocupação.

O que buscamos ao fazer uma viagem?

Michelangelo dizia: todo pintor pinta a si mesmo. É evidente que quando eu viajo quero me conhecer naquilo que estou conhecendo. Por isso toda viagem é um reconhecimento. Eu sou uma subjetividade, você é uma subjetividade. Para eu me saber como sou, preciso me colocar para fora de mim. Isto é, eu preciso objetivar minha subjetividade. Essa objetivação de minha subjetividade é muito favorecida por uma viagem. E, numa viagem, eu sou o que eu sou e sei o que sou quando procuro um lugar para ir. Quando aprecio ou recuso uma determinada forma de paisagem, quando vou em busca de um alimento; por isso, toda viagem para fora é uma viagem para dentro. Essa viagem para dentro não pode me recluir, me prender dentro, que é o que algumas pessoas estão conseguindo. Os antigos usavam a expressão viagem de reconhecimento. De território, de terreno, e em princípio essa ideia de reconhecimento pareceria estranha à medida que nunca se foi lá. Deveria ser viagem de conhecimento. Mas não é o reconhecimento do lugar, é de quem está indo. Um novo conhecimento de quem está indo.

Quais vantagens vê nessas tecnologias?

Não sou avesso a elas, absolutamente. Mas também não sou submisso. A grande vantagem delas é ajudar a chegar logo. Apesar de não dirigir, claro que sei da ajuda do GPS em viagens a lugares desconhecidos. Para isso servem bem. Mas será que a finalidade é apenas chegar? Escrevi um texto anos atrás, meio brincando, sobre a Ilíada, em que dizia que a grande razão da Guerra de Troia não foi recapturar Helena, mas, isso sim, o desejo de viajar. Não tenho dúvida de que o que Ulisses queria fazer era viajar. Porque a finalidade de nossos deslocamentos é exatamente encontrar o novo. Se estou de fato movido pelo que é o curioso, vou atrás daquilo que me traga a primeira impressão. Aquela que me emociona. Viagem é emoção. A expressão emovere, em latim, significa aquilo que mexe comigo. O que me emociona? O que mexe comigo? Minha capacidade de vivenciar o que não vivenciei. Claro que isso tem perigo. Experimentar é vivenciar risco. Mas essa é a graça. Do contrário é mera rotina monótona. É o que resta, se deixamos de prestar atenção no que mexe conosco.

Essas tecnologias permitem saber mais das experiências dos outros. Há algum efeito em nossa curiosidade?

Essa antecipação que o mundo virtual permite é a experimentação falseada, vivenciada por empréstimo. Ela sem dúvida reduz nosso nível da boa expectativa. Quando você vai a um hotel, já entra nas opiniões sobre ele, encontra elogios e críticas. Encontra, por exemplo, que o café da manhã é “limitado”. Obviamente, essa ideia é muito subjetiva. Depende do que você está habituado no dia a dia. Mas só a leitura dessa frase já dá um desânimo. O mundo digital diminui um pouco a ilusão. E a ilusão tem um componente delicioso, que é preparar o espírito para viver as coisas melhor. Não que a ilusão contínua tenha importância positiva, ao contrário. Mas a ilusão em relação ao momento, ao dia de amanhã, ao cotidiano, e também às viagens, às férias, ela dá um gosto imenso. O mundo da tecnologia abortou parte da nossa ilusão positiva, que é aquela do desejo gostoso, aquilo que você imagina que virá e que vai ser esplendoroso. Uma coisa é o aperitivo, que prepara a degustação. Outra é a leitura da receita, que pode estragar a surpresa.

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