Peça usa Adam Smith para abordar dilemas americanos

Peça usa Adam Smith para abordar dilemas americanos

'The Low Road’ discute dilema entre o egoísmo liberal próprio do mercado e a generosidade do puritanismo

The Economist

24 Março 2018 | 16h00

Não é fácil dramatizar o conflito existente no âmago dos ideais econômicos americanos, mas isso pode ser feito – e entretendo

A estranha e tumultuada economia dos últimos anos levou ao palco inúmeras peças de reflexão sobre o tema. Entretanto, a maioria delas, como Sweat, de Lynn Nottage, sobre operários de Reading, Pensilvânia, ganhadora do Pulitzer; e Kings, de Sarah Burgess, que aborda as sórdidas maquinações de lobistas políticos de Washington (em cartaz no Public Theatre, de Nova York, até 1.º de abril), segue uma comportada abordagem antropológica. É como se os dramaturgos de repente se sentissem compelidos a sair de seus enclaves litorâneos liberais para conhecer mais as pessoas que estão virando manchete e tornando as eleições imprevisíveis. O efeito é mais didático que mobilizador, mais formal que dramático.

Isso torna The Low Road, que estreia no Public Theatre em 8 de abril, especialmente revigorante. Embora a peça seja ambientada na América colonial do século 18, sua pegada satírica é atemporal. A peça trata das picarescas aventuras de um jovem chamado Jim Trewitt, que entra na vida abandonado na porta de um bordel e acaba por se tornar um bem-sucedido homem de negócios. Em sua trajetória para o sucesso, Trewitt dá o golpe em prostitutas (diz que está investindo o dinheiro delas), compra um escravo e roupas transadas e reivindica a herança do milionário que supõe ser seu pai. Nesse meio tempo ele é roubado (perde quase tudo, só fica com o escravo), recebe ajuda de uma altruísta congregação de puritanos, quase é assassinado por mercenários alemães e é enganado por um simpático aristocrata. Trewitt cuida sempre primeiro de si. Ainda garoto, lera por acaso em um manuscrito de Adam Smith, o pai do livre mercado, uma passagem exaltando o valor do interesse próprio. “Deus ajuda quem se ajuda”, ensina Trewitt aos generosos e ingênuos puritanos.

No mundo esquerdista do teatro, em que quase todos trabalham de graça e a maioria dos dramaturgos vive preocupada com o aluguel, peças sobre negócios se destacam com a sutileza de uma tuba. Não é preciso muito para se descobrir nelas o dedo do vilão. The Low Road não foge ao padrão. Trewitt é um egoísta rematado. Mas a peça é inteligente e engraçada demais para sucumbir ao clichê. Ela pode fustigar o capitalismo, mas também desanca clichês de esquerda, provoca sutilmente a plateia e não propõe soluções realistas. O melhor, porém, é que The Low Road – com 17 atores se desdobrando em mais de 50 papéis numa produção agitada e divertida, dirigida por Michael Greif – é entretenimento de primeira.

O texto é de Bruce Norris, dramaturgo americano conhecido por não fugir de temas espinhosos. Sua peça Clybourne Park, de 2010, premiada com um Tony e um Pulitzer, tem como base a gentrificação. Em The Low Road, encomendada originalmente pelo Royal Court Theater, de Londres (onde estreou em 2013), Norris diz que se inspirou nas conversas sobre as maravilhas do livre mercado que dominaram a eleição presidencial americana de 2012 – a qual se seguiu ao colapso do Lehman Brothers e à consequente Grande Recessão ali iniciada. “Ficávamos repisando aquelas platitudes idiotas sobre a grandeza do mercado”, lembra Norris. “Paul Ryan, especialmente, estava me dando nos nervos. Ele é um ideólogo fanático de uma noção baseada em Milton Friedman e Ayn Rand de que o mercado é perfeito. Tem essa lastimável convicção tão arraigada que a coloca acima da razão.

Não é difícil perceber a frustração de Norris com essa oportunista amnésia econômica no personagem de Trewitt (que originalmente se chamava Trumpett, até que a eleição de 2016 deixou esse nome óbvio demais). O Adam Smith adotado por Trewitt não leva em conta o caráter generoso e nuançado da obra do economista escocês (descuido, aliás, muito comum). É antes um “Adam Smith dos sonhos de Paul Ryan”, como se as teorias econômicas de Smith pudessem ser reduzidas a um simples parágrafo justificando por que o comportamento egoísta ajuda o interesse público. Como narrador da peça, o próprio Smith (interpretado por Daniel Davis) parece sentir um certo desgosto durante um dos abrangentes discursos de Trewitt sobre os benefícios da “mão invisível” do mercado – como se o economista subitamente se desse conta de como está sendo mal compreendido. 

O que deixa a peça mais atraente que polêmica é também o modo como Norris fustiga convicções que acredita arraigadas na da plateia. Durante um jantar aristocrático, um debate sobre uma ordem econômica mais justa e a possibilidade de ensino público leva uma senhora a perguntar: “E se tivéssemos um sistema para crianças mais inteligentes e outro, menos exigente, para as demais?” A ideia deve soar familiar até a nova-iorquinos mais progressistas, assinala Norris. “Em meu mundinho liberal de Nova York, reciclamos embalagens plásticas e compramos produtos orgânicos em mercearias da moda. Ao mesmo tempo, vivemos perto de gente que mal tem o que comer, mas fugimos do assunto.” Norris também zomba de dramaturgos que têm a pretensão de que suas peças possam mudar as coisas. John Blanke (Chukwudi Iwuji), o elegante e educado escravo de Trewitt, diz do teatro: “Se o queremos são mudanças políticas, uma peça não seria o modo mais ineficaz possível de se chegar a elas?” 

The Low Road é uma história americana sem paralelos. No centro dela estão “duas ideias esquizofrênicas sobre cultura americana”, diz Norris. Por um lado, existe um certo desdém libertário em relação ao governo e a convicção de que cada um é livre para buscar os próprios interesses; por outro, há a herança do puritanismo, que vê os americanos não apenas como indivíduos, mas como cidadãos obrigados, de certa forma, a se ajudarem uns aos outros. “Como são ideias irreconciliáveis, vivemos em eterno conflito neste país”, afirma Norris. Ele acrescenta que essa tensão fundamental entre direitos e obrigações, entre se dar bem e ser justo, pode ter passado meio despercebida para o público britânico, que em sua maioria já aceitou obrigações como pagar impostos para que o país possa ter um serviço nacional de saúde. “Já nos Estados Unidos, não se pode nem exigir de alguém que registre sua arma porque isso seria ir contra seus direitos.”

Apesar das gargalhadas que provoca, a peça é pessimista. A ideia de Trewitt de perfeição do mercado pode ser de um egoísmo caricato, mas o altruísmo dos puritanos também não se sai bem. A ânsia de doar sua riqueza aos menos afortunados mostra que não estão para uma emergência fatal, que deixa todos mortos. Talvez, sugere Norris, a humanidade esteja condenada, já que as pessoas parecem mais propensas a competir que a cooperar. “Acho que esse nosso problema de personalidade jamais será resolvido”, conclui. “Como primatas, queremos duas bananas quando os demais só têm uma. Não buscamos igualdade: queremos parecer iguais, mas com uma banana extra.” / Tradução de Roberto Muniz 

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