TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Pequena notável

Eleita Miss Brasil, cearense de 1,68 m criticada pelo sotaque derruba padrão de representantes do eixo sul-sudeste

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2014 | 16h00

 

Era uma vez, no Estado muito, muito distante do Ceará, uma moça bonita, de fala aguda e nasalada, com 1,68 m de altura. Para alguns nas redes sociais, ficou conhecida como a nordestina “anã” com “sotaque sofrível”, de beleza rara em terra de “gente feia”. Da noite para o dia - literalmente -, Melissa Holanda Gurgel interrompeu a vida de estudante em troca do sonho de muitas meninas brasileiras. E desde então, há uma semana, estampa capas de jornal e sites de notícia de toda sorte. Sempre com o sorriso colgate, coroa na cabeça e uma faixa transversal do ombro ao quadril onde se lê em letras cor de ouro, garrafais e saltadas: Miss Brasil 2014. É bom que o leitor esteja avisado: esta pode não ser mais uma daquelas histórias encantadas de contos de fada. 

Estamos em um restaurante na Alameda Santos, em São Paulo, onde a todo momento a cearense de 20 anos é venerada por garçons, seguranças e clientes. “Posso tirar uma foto com você?”, aproximam-se, curiosos, com o celular preparado para o clique. Enfiada num tubinho branco colado, que deixa os joelhos à mostra, Melissa entra no restaurante fazendo parecer fácil equilibrar-se no salto de 15 centímetros. “Pode começar a fazer as perguntas”, é a primeira frase que diz, ainda de pé, perto da entrada do restaurante. Como se preferisse que a conversa começasse logo, antes mesmo de sentar. A pressa não soa inconveniente. Vem acompanhada da simpatia e da educação exigidas de uma miss. Desde que venceu o concurso, há uma semana, os minutos são preciosos. E ela já sabe disso.

A maquiagem carregada nos olhos deixa Melissa com os cílios alongados e curvilíneos. Um gloss cor natural na boca e, nas maçãs do rosto, quase nenhum blush. Não usa brincos, colar, anel ou qualquer outro acessório. As unhas não levam esmalte. Com a agenda lotada de compromissos, a aparência impecável de Melissa ganhou uma folga dos chefes. Também teve trégua a dieta rigorosa, o que afrouxou a ingestão de pão e sucos de fruta, proibidos para uma miss na maior parte do tempo. Questionada sobre o regime, ela diz: “Tento comer de três em três horas”. E tem conseguido? “Não”, solta a gargalhada, “mas na semana que vem vou começar a preparação para o Miss Universo e serei orientada por uma equipe”, completa. Ela terá três meses de intensa preparação para a etapa internacional.

O reinado de Miss Brasil 2014 começou para a cearense dentro de casa. Por causa disso, o resultado do concurso gerou desconfiança, com acusações que se estenderam à miss anfitriã e ao Estado do Ceará. A edição comemorativa de 60 anos do concurso ocorreu no Centro de Eventos, em Fortaleza, com transmissão da TV Bandeirantes. No dia 27 de setembro, após duas horas de espetáculo, o título de mulher mais bonita do Brasil foi decidido entre Melissa Gurgel, a Miss Ceará, e Fernanda Leme, a Miss São Paulo.

As duas compartilham sorrisos nervosos no momento do anúncio, posicionadas de frente uma para a outra com as mãos dadas. Os apresentadores Renata Fan e André Vasco fazem mistério sobre o resultado e as finalistas, imobilizadas, não sabem como agir. Fernanda sorri para o público, para a Miss Ceará, para as competidoras. Melissa devolve o sorriso à Miss São Paulo, olha para cima e para baixo, até que resolve fechar os olhos para - tentar - rezar.

“Claro que na hora eu pensava que iria ganhar. Mas já fiquei feliz de ser a segunda mulher mais bonita do País”, diz, uma semana depois, a Miss São Paulo. Após o anúncio da vencedora, ela abraça Melissa meio no susto - e logo parece querer sumir em si mesma. Por trás do papel picotado em cascata, da emoção da cearense e do momento em que Jakelyne Oliveira, a Miss Brasil 2013, transfere a faixa, o manto e a coroa, uma movimentação se dá em segundo plano. Muitas misses podem ser vistas entre a absoluta incredulidade e a fúria. Uma delas chega a deixar o palco, retornando minutos depois.

Envolta num manto branco perolado e muito fino, Melissa já coroada faz o primeiro desfile de Miss Brasil, com o tradicional aceno em câmera lenta. Na volta, está novamente próxima das outras 26 candidatas: chega o momento de parabenizar a vencedora, convida Renata Fan no microfone. Ainda sob a revolta do resultado, a maioria corre em direção à que considera vitoriosa: Miss São Paulo, não Miss Ceará. O grupo maior aparece no canto do palco; no centro, seis meninas abraçam a cearense.

“Não fiquei constrangida. Isso foi afinidade. Tiveram mais afinidade comigo do que com a Melissa. Fiquei feliz com a atitude porque na hora não sabia o que fazer, fui deixada de lado, e vi que as meninas gostaram realmente de mim”, conta Fernanda, de 22 anos. Depois dela mesma, a paulista torcia para Marina Helms, de 23 anos, do Rio Grande do Sul: “Além da beleza, estava muito bem preparada”. Fernanda continua conversando com as amigas misses por um grupo do WhatsApp e planeja agora fazer uma viagem com elas.

Internautas pipocaram nas redes sociais com críticas ao sotaque e à altura de Melissa, chamando-a de “anã”. Miss Ceará “é bonita até abrir a boca e vir aquele sotaquezinho sofrível”, comentou um. “Miss Ceará ganhou o Miss Brasil. E eu aqui achando que no Ceará só tinha gente feia”, escreveu outro. A Ordem dos Advogados do Ceará (OAB-CE) considerou racistas os comentários e encaminhou o caso ao Ministério Público, que vai investigar. Algumas mensagens já foram apagadas, mas, de acordo com a OAB-CE ainda é possível identificar os usuários pelo IP dos computadores e celulares.

A linguista e professora de pós-graduação da Universidade Estadual do Ceará (Uece) Nukácia Araújo afirma que o preconceito com o sotaque pode ser explicado segundo fatores socioeconômicos. “Em qualquer lugar do mundo, os ouvintes sempre associam o falar de uma pessoa com a região, identificando logo se o outro vem de um lugar economicamente favorecido ou não.” Para o psicanalista e psicólogo Welson Barbato, quando se trata de um concurso de beleza, pesa ainda a idealização do público sobre a mulher mais bonita. Essa ideia se sustenta, entre outros fatores, no ideal de perfeição. Nesse território, um problema já se esboça, diz Barbato, porque o perfeito é da ordem do impossível. “O ideal de perfeição é a porta aberta para posições autoritárias e maniqueístas. A perfeição é, em si mesma, ditatorial.”

Em 30 anos de carreira, essa foi a primeira vez que Evandro Hazzy, conhecido como o mago das misses, vê casos de preconceito no concurso. “Ninguém acreditava que poderia ser uma cearense. Tem aquele preconceito de que miss só pode ser do Sul e Sudeste, não pode ser nordestina”, explica Hazzy, “missólogo” e coordenador técnico do Miss Brasil 2014. Para os críticos, diz ele, Melissa era vista de outra forma por ser a anfitriã, “a prata da casa”. E incomodou mais ainda quando ganhou destaque no decorrer da competição. “Ela sempre chamou a atenção por onde andava. Foi uma mulher chamativa e gerou ciúmes nas outras candidatas”, afirma Hazzy, autor de Universo Miss - História Técnica e Beleza.

Por causa da estatura relativamente baixa, Hazzy apelidou a Miss Brasil 2014 de “pequena notável”. “Melissa Gurgel é a Carmen Miranda de hoje, que fez sucesso no mundo todo com apenas 1,53m. Altura não é documento.” Melissa também é comparada com Olivia Culpo, a Miss Universo 2012. Com traços semelhantes e ainda mais baixa - 1,66m - que a cearense, Olivia também era fruto da terra. Naquele ano, o concurso se realizou nos Estados Unidos.

Nas redes sociais e em comentários de notícia, houve quem dissesse que a cearense venceu porque o concurso estava comprado. A Miss São Paulo discorda e pede que apoiem Melissa. “Ganhou quem tinha que ganhar. Se você está iluminada num dia, aquele dia é seu e ninguém tira. Foi o dia dela. Ganhou uma menina do Ceará e fazia tempo que o Ceará não ganhava.”

Melissa está focada no Miss Universo - marcado para janeiro de 2015 em Miami (EUA) - e no reinado com validade de 12 meses. Evita a todo custo falar sobre o namorado (“estou namorando minha coroa e minha faixa), a tia distante que já foi Miss Ceará (“melhor nem citar o nome porque ela não é tia de sangue”), os aditivos feitos no corpo e a inveja, que “existe em todo lugar porque é natural do ser humano”. Melissa é a terceira cearense a ganhar o título de Miss Brasil. Em 1955, na segunda edição do concurso, Emília Lima representou o País. A última Miss Ceará que chegou a Miss Brasil foi Flávia Rebelo, há 25 anos.

Evangélica, Melissa carrega uma bíblia dentro da bolsa aonde vai e atribui o título a Deus. O sonho de ser Miss Brasil é da mãe, conhecida por Eli. E se a mãe não tivesse o sonho, confessa, não teria ido atrás do título. A cearense caiu por acaso no mundo da moda aos 15 anos, quando uma tia corretora de imóveis fez a promessa de tornar o rosto da sobrinha conhecido. Passou a bater a porta de lojas tentando vender fotografias de Melissa. “Até que uma empresa me contratou. E assim fui conhecendo maquiadores e fotógrafos que passavam meus contatos para outras empresas.” Desde pequena, Melissa - caçula de quatro filhos - e a mãe sentavam juntas para assistir aos concursos de Miss. Mas até os 15 anos, quando começou a carreira de modelo, Melissa nem pensava em concurso de beleza. Não ligava para maquiagem e ri quando lembra que, às vezes, naquela idade, brincava de boneca.

“Quando vi a Natália Guimarães (Miss Brasil 2007), pirei. Ela é lenda, marcou bastante.” Para Hazzy, o mago das misses, responsável por preparar a representante brasileira para o Miss Universo, Melissa tem a mesma espontaneidade e naturalidade que Natália. Marca registrada da mineira, a piscadinha para os jurados deve ser uma estratégia no planejamento da nova miss. “A passarela, o jeito de jogar os cabelos, de pousar as mãos, os olhares. Melissa vai ser uma referência como a Natália foi.”

E Hazzy está empenhado. Desde que Melissa foi eleita Miss Brasil, o mago tem dois desejos para 2015. Primeiro, trazer a coroa de Miss Universo para o Brasil, quebrando um jejum de 48 anos sem vencer a etapa mundial; segundo, ir à mídia e tirar satisfação com todos que criticaram Melissa. “Tenho o nome dos internautas que fizeram acusações contra ela. Estou aguardando o dia do Miss Universo. O que vai acontecer se ela vencer? O que vão falar os que a acusaram? Vão se redimir?”, quer saber o missólogo. “Sou polêmico mesmo. E cobro. Vou trabalhar o triplo do que fiz nos últimos anos. Porque o que ela passou, o que o Estado do Ceará passou, eu não acho justo.”

Melissa Gurgel ficou triste e lamentou as reações ofensivas. Mas ela, que garante ter “zero preconceito”, não pede a punição dos envolvidos. “Vou deixar que a consciência deles mostre quanto estão errados. Opinião é normal, cada qual tem a sua, mas tem de haver respeito”, discursa, com o semblante sério. Sem acesso a Internet nos primeiros dias por falta de tempo, a cearense começou a ler reportagens sobre as polêmicas na última quarta. Antes, ela soube das ofensas por mensagens de amigos e familiares. E tem procurado deixar para lá.

“Ela tem que dizer de uma forma educada: eu fui eleita, a coroa é minha e ninguém tira”, orienta o mago, que emenda, com a malícia de macaco velho: “Resumindo? Ela não está nem aí. Beijinho no ombro”.

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