Perdendo dinheiro e esbanjando bom-humor: a crise econômica nos cartuns da revista 'New Yorker'

Habituado à dureza das crises econômicas, o brasileiro aprendeu a driblar a escassez sem entrar em pânico. Mas será capaz de rir da recessão? Uma recém-lançada coletânea de cartuns sobre economia da revista 'The New Yorker' mostra que se pode tirar sarro até mesmo de um ponto tão sensível quanto o bolso. “Não havia graça para os americanos no Crash de 1929, ou no estouro da bolha imobiliária de 2008, mas os cartunistas estavam lá, fazendo rir com um humor sutil”, diz o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e coordenador da antologia. “E nós, como reagiremos à crise? É difícil, mas esse livro mostra que pode ser colocada em perspectiva.”

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2016 | 16h00

No final da tarde da última quinta-feira, o economista Gustavo Franco ficou alguns minutos a observar o comportamento dos clientes de uma pequena livraria no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, a cidade onde mora. “As pessoas chegavam naquela prateleira de destaque, abriam um pouquinho o livro e, quando viam que era tudo figurinha, iam folheando. Ficavam presas. Fazer um livro com cara de livro, mas que, quando você abre, está cheio de figurinhas, se mostrou bacana.” O livro em questão é A Graça do Dinheiro (Zahar Editora), versão brasileira da coletânea de charges dedicada à economia, finanças e inquietudes do mundo corporativo produzidos para a lendária revista americana The New Yorker.

O ex-presidente do Banco Central tem curiosidade pessoal em relação à receptividade do livro. Apesar de ser um profissional dedicado aos números, é um apaixonado pelas letras ao ponto de colecionar citações de livros e de poemas. Ele mesmo coordenou e ajudou a traduzir a publicação para o português. Tem um exemplar de capa dura da versão americana, feliz achado em um sebo em Londres. “O título original é On the Money, Em Cheio, para dizer que você acertou no alvo. Mesmo depois de matutar muito, não conseguimos a tradução com o mesmo espírito, mas essa capturou a atmosfera encantadora da Yorker.”

Franco garante que o lançamento no Brasil foi pura obra do acaso. Por isso, não deixa de haver uma certa pitada de humor negro e uma dose de ironia – bem ao gosto dos próprios cartoons do livro – que a cronologia de piadas financeiras americanas chegue aos brasileiros justo agora, quando o País enfrenta a pior recessão da sua história e seja, ele mesmo, personagem tragicômico da cena econômica. Franco alimenta a convicção de que o leitor local vai se divertir. “O brasileiro acha graça em tudo, tem senso de humor. Como a gente vai reagir a uma crise? Difícil, mas o livro mostra que tudo pode ser colocado em perspectiva”, diz Franco.

Bom, na perspectiva histórica, as charges são a prova de que, afinal, não estamos sós. Todos têm os seus altos e baixos. Aconteceu com a nação mais rica do planeta: quebrou. Depois, se recuperou. E isso várias vezes. Em ciclos. As charges da New Yorker vão de 1925, praticamente às véspera da quebra da Bolsa de Nova York, atravessam a Grande Depressão dos anos 30 e as intempéries da Segunda Guerra na década de 40. Seguem pelas euforias de consumo e exuberâncias corporativas, com os altos e baixos do mercado financeiro, até o estouro da bolha imobiliária americana, que jogou o mundo na crise financeira global em 2009. Em resumo: são 84 anos tirando sarro do esbanjar, perder, reconquistar, almejar mais, mais e mais dinheiro. Mas tirando sarro no estilo New Yorker: de um jeito perspicaz, sofisticado. “Vários desses momentos não tiveram a menor graça para os americanos, mas os cartunistas estavam lá, fazendo rir com um humor sutil, até difícil para algumas pessoas”, diz Franco.

É justamente nas piadas rabiscadas nos momentos mais duros que os brasileiros podem encontrar inspiração para rir de si mesmos. Famílias com a corda no pescoço, por exemplo, são recorrentes, mostrando que se afogar em dívidas é um estado quase atemporal e alheio a fronteiras. Os 60 milhões de inadimplentes brasileiros vão se sentir bem representados.

Uma amostra. Esposa fala para marido nos final dos anos 20: “John, há uma prestação vencendo amanhã, mas não consigo lembrar se é a sexta do rádio, a quarta do aquecedor a gás ou a nona da minha operação.” Avançando no tempo, marido fala para a mulher na década de 50: “Aconteceu, Helen: Já estamos gastando o dinheiro da nossa próxima vida.” E, nos anos 60, outra tirada, entre um casal de quase idosos: “Afinal nossos temores financeiros terminaram. Estamos falidos.”

As passagens dedicadas aos bancos também tendem a despertar certo contentamento malicioso entre os leitores brasileiros, que penam, neste momento, com a escassez dos financiamentos e os juros nas alturas. Há momentos de sarcasmo discreto. Cliente nos anos 30 se encolhe diante do caixa de sua agência: “Seria muito inconveniente se eu sacasse US$ 200?” Mas há escracho. Um transeunte pergunta a outro enquanto observam um senhor sendo chutado para fora de uma casa de empréstimos: “Entendeu o que significa crédito restrito?”

No caso das charges que tratam dos falidos desesperados, o sentimento do brasileiro tende a ser de divertida incredulidade. São várias as passagens retratando homens de negócio deprimidos ou que até preferem a solução final porque não suportam viver sem grana. O brasileiro, que conhece a dureza renitente das crises econômicas, aprendeu a driblar a escassez sem entrar em pânico. Há razões históricas para os artistas da New Yorker gastarem tinta e papel com essa temática mórbida. Relatos da época indicam que apenas nos dias seguintes à Terça-feira Negra, aquela em que a Bolsa de Valores de Nova York quebrou, 11 operadores se suicidaram. Muitos se jogaram dos glamourosos prédios de Wall Street, o coração financeiro do capitalismo – tanto que essa é a principal modalidade de suicídio retratada no livro. Uma das charges preferidas de Franco – que de fato faz rir logo de cara – mostra dois operadores da bolsa, nos anos 50, espantados ao verem um colega se jogando pela janela: “Olha só, é o Prescott! Será que ele sabe alguma coisa que não sabemos?”

Franco avalia que os executivos serão uma surpresa para o leitor local: “O que é um pouco novo para o brasileiro é o humor das empresas, das corporações, e os absurdos que ele falam: aí o livro é uma janela para a gente espiar uma outra realidade”, diz ele. Mordazes, cáusticos, insensíveis, mas ambiciosamente lúcidos e focados na busca por sucesso, poder e riqueza, eles desfilam pelas décadas ridicularizando empregados, sócios e a si mesmos. Executivo nos anos 50 fala aos colegas: “Não tivemos uma só greve nos últimos dez anos, então esse tempo todo devemos estar pagando muito a eles.” Industrial observa pela janela as chaminés de sua fábrica tingindo o céu de negro e diz com satisfação: “Onde há fumaça, há dinheiro.” Na mesa de reunião de uma grande empresa, nos anos 2000, o presidente fala para os demais integrantes da diretoria: “Também tenho ódio de ser um safado ganancioso, mas temos responsabilidades para com os nossos acionistas.”

Os esnobes constituem uma atração à parte. Não há similar nacional para tamanha empáfia. “São esnobes de verdade, os originais, os magnatas que inventaram essa linguagem”, diz Franco. Aparecem jogados em poltronas de coro, fumando charutos, bebendo uísque, sempre alheios à desgraça que os cerca – mesmo quando eles mesmo estão na desgraça. As mulheres fúteis e interesseiras correspondem. Estão lá, medindo os eventuais partidos pelo tamanho de suas contas bancárias. Duas peruas conversam animadamente no sofá em algum momento dos anos 30. “Ele é um investidor, ou especulador, ou picareta...Seja o que for, é rico.” Já nos anos 2000, duas peruas numa festa da alta sociedade observam o que parece ser o anfitrião bem sucedido: “Será que ele ainda seria bonito sem dinheiro?”

A seleção das charges foi feita por Robert Mankoff, cartunista e editor de charges da New Yorker desde 1997. Mankoff gosta de dizer que tem “o melhor emprego do mundo”. Garante que passa a maior parte do tempo pensando em humor. Não deixa de ser um pensamento peculiar. De fato, a New Yorker foi fundada em 1925 para ser justamente uma revista de humor sofisticado e cosmopolita, uma alternativa à breguice editorial típica das publicações mais leves da época. Com o passar dos anos, ficou peculiarmente cabeçuda.

Entre intelectuais, escritores, amantes das letras e do pensamento refinado, a New Yorker é um ícone. Tornou-se uma espécie de bastião da reflexão intelectual de temas diversos. Firmou-se nesse nicho não apenas pela extensão do textos, mais longos, mas principalmente pela sutileza dos temas e a reinvenção da forma de escrever. Está entre os veículos que promoveram a criação do chamado jornalismo literário, braço da atividade dedicado a reportagens que, de tão detalhadas e bem escritas, beiram a invencionice artística, apesar de serem construídas sobre fatos da vida real. Foi berço de escritores célebres. Truman Capote começou a publicar contos lá aos 17 anos. Não há como dissociar a sua formação na New Yorker com o fato de ele ser o inventor do chamado romance de não ficção, a partir da publicação do livro A Sangue Frio, em que narra, pelos olhos dos assassinos, o massacre de uma família de fazendeiros. Muitos dos artigos da revista também foram republicados como livros que se tornaram referência. Hiroshima, de John Hersey, sobre a intimidade de vítimas da bomba atômica, é o clássico mais cultuado. Tomou uma edição inteira. Mesmo sendo uma reportagem, ganhou o Pulitzer de Ficção.

As charges, porém, trilharam uma trajetória mais retilínea. As primeiras, nos anos 20, já traziam traços requintados e tiradas espirituosas. Tinham uma relação íntima com o seu símbolo maior: Eustace Tilley, o cavalheiro de cartola observando uma borboleta através de um monóculo, com ar de afetação. Foi esse cavalheiro que ilustrou a capa da primeira edição. Nas capas das várias versões do livro dedicado às charges sobre o mundo do dinheiro, o cavalheiro escorrega numa nota de dólar e se espatifa no chão, assustando a desavisada borboleta. É ele quem ilustra a capa da edição brasileira. O livro sai pela editora Zahar, para compor a coleção da Rio Bravo Investimentos, gestora de recursos onde Franco é sócio-fundador. Desde 2004, a Rio Bravo se engajou na tarefa de publicar uma série de livros que, na sua própria definição, “debate a relação do homem com a riqueza, descreve a economia com um olhar que não seja técnico e trata de temas que fazem parte da rotina de uma empresa de investimentos, mas sob ângulos inovadores”. A Graça do Dinheiro é o primeiro com figurinhas. Boa leitura.

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