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André Dusek/Estadão

Plínio Fraga desmistifica Tancredo Neves em biografia

Livro explora relação do político com o regime militar e desconstrói imagem de "santo"

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Alexandra Martins ,
O Estado de S. Paulo

15 Abril 2017 | 16h00

Se a história pudesse ser contada de frente para trás, Tancredo Neves perderia sua santidade. Uma revista no financiamento eleitoral das campanhas do político conciliador confirma a suposição. Outras revisões também poderiam ser feitas com a mesma conclusão, e já foram, como sua relação estreita com militares do período como meio de viabilizar seu nome à disputa presidencial de 1985. Por isso, chegou até a ser visto como traidor da causa a favor das eleições diretas. O custo financeiro do seu projeto de ser presidente, no entanto, o aproxima do que de mais mundano há na política. Esse aspecto novo sobre o político que vestia o paletó de Ulysses Guimarães, a camisa de Roberto Freire, as cuecas de Jarbas Vasconcelos e os sapatos de Miguel Arraes, nas palavras de Golbery do Couto e Silva, está presente no livro Tancredo Neves, o Príncipe Civil (Ed. Objetiva), do jornalista Plínio Fraga.

Ainda que não seja possível afirmar com exatidão o valor gasto, em função das trocas de moedas impostas pelos sucessivos planos econômicos de lá para cá, Fraga chega ao valor aproximado de US$ 45 milhões como resultado de suas pesquisas nos últimos quatro anos com cerca de 70 entrevistados em torno de 200 horas. “Nada fabuloso” no entendimento de José Hugo Castelo Branco, o tesoureiro da campanha presidencial de 1984 e, ao mesmo tempo, presidente do Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge), do Credireal e do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG).

A legislação da época era nada restritiva. Os meios mais utilizados pelo comitê financeiro de Tancredo eram o título ao portador, sem identificação, ou a aplicação chamada de overnight, que fazia o dinheiro render do dia para a noite no ano em que a inflação acumulada era de 230%. Os maiores contribuintes, segundo o livro, foram os empresários Sérgio Quintella, hoje vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas, e João Pedro Gouvêa Vieira, morto em 2003. O primeiro foi vice diretor-presidente da Montreal Engenharia e Vieira, presidente do conselho de administração do Grupo Ipiranga. 

O banqueiro Ronaldo Cezar Coelho levantou algo em torno de US$ 1 milhão para Tancredo. Outros financiadores aparecem em documentos do Serviço Nacional de Informação (SNI), criado em 1964 como núcleo de inteligência do regime militar. Só um comício de Tancredo em São Paulo, em dezembro de 1984, custou R$ 2 milhões. O empresário Jorge Yunes colaborou com serviços de gráfica e a construtora mineira Santa Bárbara Engenharia pagou despesas do candidato do PMDB com aluguel de salas e contas de telefone. Já a construtora Mendes Júnior emprestou casa para que Tancredo pudesse ter encontros reservados, em frente ao Palácio das Mangabeiras, residência oficial dos governadores mineiros. O SNI apontava também os bancos estaduais de Minas como importantes financiadores de Tancredo.

Na equipe do tesoureiro Castelo Branco estavam também o engenheiro Sandoval Soares de Azevedo Filho, da direção do Credireal, e o ex-vice-governador Hélio Garcia. Este foi incluído pelo SNI entre seus alvos de escrutínio. O órgão relatou dívidas do mundano fazendeiro. Suas pendências, no entanto, não tinham como únicos credores os bancos estaduais. No livro, Tancredo Augusto, filho do “príncipe civil”, relembra o caso de quando foi cobrar de Hélio Garcia as sobras da campanha do pai após a morte de Tancredo. A conta chegava a US$ 4,5 milhões. “Cheguei lá e o Hélio não quis prestar conta. Eu mandei ele à pqp.” Isso depois de o filho ter ouvido do tesoureiro que iria entregar a soma à viúva Risoleta Neves para que ela fizesse uso sagrado de tal montante. “Conversa fiada de que o dinheiro foi doado a uma instituição de caridade ou que tenha chegado à minha mãe”, esbravejou

Tancredo Neves: O Príncipe Civil

Autor: Plínio Fraga

Editora: Objetiva

648 páginas

R$ 74,90

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