David Mdzinarishvili/Reuters
David Mdzinarishvili/Reuters

Poema infantil russo que incomodou Stalin é traduzido no Brasil

'Tarakã, o Bigodudo', de Kornei Tchukovski, foi escrito antes mesmo de o mandatário soviético subir ao poder, após uma aula de escrita criativa

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

04 Março 2017 | 16h00

A editora Kalinka apresenta aos leitores brasileiros um dos poemas mais conhecidos das crianças russas, Tarakã, o Bigodudo, do jornalista, crítico e escritor russo Kornei Tchukovski (1882-1969), pseudônimo de Nikolai Korneitchukov. O poema de Tchukovski, publicado em 1923, foi escrito em 1921, depois de uma aula de escrita criativa oferecida pelo escritor russo, na qual ele e seus alunos pretendiam escrever um livro engraçado para crianças. O escritor sugeriu que se começasse com uma cena de caos, em que os animais corriam para todos os lados por nenhuma razão aparente. Cada estudante formulou uma frase e o escritor as reuniu num só poema. Mais tarde, Tchukovski acrescentou a essa história uma barata, representando um ditador que estabeleceria a qualquer custo “ordem” à anarquia dos bichos.

A propósito, o título do poema em russo é Tarakánische, que pode ser traduzido por “baratão” ou “baratona”, como afirma Irineu Franco Perpetuo, no prefácio à edição brasileira. Nele, Perpetuo chama a atenção para a associação que posteriormente se fez da figura da barata, um “alazão, de bigode”, com a figura do ditador russo Josef Stalin: “Embora Stalin só tenha ascendido ao cargo de secretário-geral do Partido Comunista da URSS em 1922 – portanto, depois da redação de Tarakã, o Bigodudo, não faltou quem o visse retratado no protagonista do texto, cuja força tirânica parece advir do medo e da recusa em enfrentá-lo daqueles que subjuga”. 

Em 1928, a viúva de Lênin, Nadezhda Krupskaia, lançou críticas negativas ao poema, afirmando que se tratava de literatura inapropriada para crianças, que era uma sátira política disfarçada em versos humorados. Tchukovski prometeu escrever então um outro livro para seus pequenos leitores, cujo título seria algo mais ou menos como A Comunidade de Agricultores Felizes. Mas nem mesmo essas críticas negativas atrapalharam o sucesso do poema entre os pequenos.

Talvez se possa dizer que Tarakã, o Bigodudo retrata, antecipadamente, o bigode de Stalin, e possivelmente também o bigode de Lenin e a sua Rússia Comunista. De acordo com Walter Benjamin, na época de Lenin, as crianças viviam em bandos e eram figuras importantes nos bairros proletários, e entre elas já havia inclusive uma “hierarquia comunista”. Por isso, afirma Benjamin, a política fazia parte das suas brincadeiras e do seu cotidiano: “Na organização de bandos de tais crianças, a política não é tendência, mas objeto de ocupação tão óbvio, material didático tão evidente, como grande magazine ou casa de bonecas para a criança burguesa”. 

Os animais do poema de Tchukovski parecem representar esse grupo de crianças proletárias que se envolvem com a política no seu dia a dia, mas, ao contrário delas, que reforçavam o sistema comunista, os bichos do escritor russo lutam contra o autoritarismo do sistema vigente.

A barata de Kornei Tchukovski poderia ser também comparada a uma espécie de spets que, como diz Benjamin, é “em geral, o especialista – é o estágio anterior da coisificação e o único cidadão que, independentemente do círculo de ação política, representa alguma coisa. Ocasionalmente o respeito por esse tipo beira o fetichismo”. O baratão de Tchukovski parece exercer um tal domínio sobre os outros animais, que nenhum deles, nem mesmo os lobos e os crocodilos, consegue perceber que a barata, por maior que seja, é um animal débil. 

*Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de 'As Antenas do Caracol: Notas Sobre Literatura Infanto-Juvenil', da editora Iluminuras

Tarakã, o Bigodudo

Autor: Kornei Tchukovski

Tradução: Aurora Fornoni Bernardini e Maria Vragova

Editora: Kalinka (22 pág., R$ 25)

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