Poemas de Mauricio Salles Vasconcelos são reunidos em 'Ar Livre'

Poemas de Mauricio Salles Vasconcelos são reunidos em 'Ar Livre'

Versos do poeta dialogam com Artaud, Jeff Buckley e Oiticica

Tiago Cfer*, Colaboração para o Estado

12 Agosto 2017 | 16h00

“Qualquer coisa que pode significar uma mudança na respiração.” Assim Paul Celan define a poesia. Em nome do passo em frente, ele a situa: “A poesia procura ver a figura na direção que ela segue, a poesia antecipa-se-nos.”

Justamente nas extensões do que está no ar – ambiente, atmosfera, respiração, antecipação – a poesia de Mauricio Salles Vasconcelos se trama. Sobre a leitura de seus livros, ou após a observação de suas performances e seus atos de fala (leitura, conferência, aula), paira essa impressão: a materialidade quase indestrinçável de seus escritos passa para um plano de corpo ao vivo ainda não assimilável – para sempre excedido, lê-se no poema Borda de Bar (pág. 73). 

As excepcionalidades acumuladas pela história, com um vivo senso referencial de experiências de arte/vida ocorridas no presente milênio, são aí desencadeadas em um crescente engendramento de dicções, planos cinéticos, sonoros, visuais.

Anotação e caminhada pela cidade dinamizam diversas linhas propositivas. Registra-se, no modo como o autor arquiva, mapeia e atua, o incipit de um outro tempo que emerge a partir das incontáveis guerras iniciadas desde setembro de 2001. Tempo pautado pela viralização/virtualização do conhecimento, da cultura, da ciência e do desastre.

Advém uma escrita scratch sobre as ondas info do mondo tecno, em sintonia com o que Mauricio deixa destacado, num ensaio de 2002 sobre a filósofa Avital Ronell, Derivados da Diferença – Estenofonia: “É como se à escrita não se acrescentasse a voz, o verbo como precedência ontológica. E sim, o ruído, um suplemento e noise.”

Aliás, a autora de Finitude’s Score – Essays for the End of the Millennium foi supervisora do pós-doutorado realizado por MSV em literatura/filosofia/tecnologia na New York University, de 2000 a 2001. A experiência nova-iorquina tornou-se então um núcleo em torno do qual seus projetos escriturais vêm se expandindo. Inevitável é o paralelo com a produção de Hélio Oiticica, desenvolvida em Manhattan entre 1970 e 1977, quando, de seu apartamento transformado em “ninho”, o artista elaborava proposições mescladas por música, artes visuais, escrita, cinema, propagadas aos entornos urbanos.

O mundo passa a ser apreendido como rede vital, viralmente estendida a planos simultâneos da realidade. Uma outra realidade, recriadora das difusões de virtualidade tecnomaquínica, desponta no tempo através de implicações concretas, complexas, próprias de uma dimensão planetária difundida em diferentes modos de vida e esferas de saber. 

Desde o pós-guerra, as áreas produtoras de linguagem são tomadas por uma compreensão relacional que acaba por dissolver as concepções transcendentes.

A poética de Ar Livre se sintoniza, em outro século/milênio, décadas depois do testemunho dado pela transmissão radiofônica de Artaud, em 1947 – Para Dar Fim ao Juízo de Deus –, com a emergência enunciadora de uma apreensão amplificada do universo após grandes, coletivas confrontações de forças. Realiza-se para fora de uma entonação peremptória, encerrada no âmbito dos padrões do “poético”, a serviço de uma linguagem monológica (dentro do esquadro do juízo/palavras-de-ordem sobre o atual estado de coisas).

Movida pelo toque performativo, a escrita de Maurício Salles Vasconcellos conflui com o mundo-ovo artaudiano (como o definiu Deleuze). Encontra-se em grande afinidade com o “abrigo-mundo” dos newyorkaises de Hélio Oiticica. 

Ou ainda, estabelece vínculos com a topologia poética de Christophe Tarkos, autor performer por excelência, que chega a apreender o universo contemporâneo como uma “máquina de lavar” – objeto maquinal diluidor das linhas divergentes e plurais de criação. Numa vertente muito próxima da esferologia concebida por Peter Sloterdijk, propõe a abertura de semióticas mistas, heterogêneas, capazes de captar a plurivocidade planetária para além de qualquer ordenação globalizadora.

Mostra-se decisivo para o trabalho que Maurício Salles Vasconcelos vem desenvolvendo neste século – incluindo aí sua produção ensaística – o contato com uma espécie de ar renovado proveniente de sua vivência em Nova York, onde o autor estreitou contato com diferentes performances musicais, visuais e poéticas, de Joan La Barbara a Vito Acconci, de John Ashbery a Robert Ashley, passando por Jeff Buckley. Surgiu de tal ambiência a criação da ópera estenofônica LIVRO/TELEFONE/RUA, inspirada em The Telephone Book, de Avital Ronell.

Concebida entre 2000 e 2001, a ópera está presente em seu livro de poesia, Ar Livre, recém-lançado pela editora Córrego. Desdobrou-se também em projeto de disco com parceria do músico erudito contemporâneo Marcus Siqueira. O capítulo em que este conjunto de poemas figura, Muzak (2003-2006), demonstra uma operação de escrita em curso nas adjacências da cidade, na qual o texto vem se dando já como performático, traçando desenhos e movimentos espaciais, extraindo música da fusão palavra/voz.

A poesia de Mauricio Salles Vasconcelos modula-se de um suporte a outro, ganha diferentes tratamentos e entonações a cada performance ou leitura. Assinala um sentido expansivo de poiesis, por meio de uma escrita que se dá no acúmulo de instantes sucessivos, mesclados pelo excesso de imagens e sons em difusão no planeta tomado por objetos técnicos e multidões.

Em Ar Livre, ouve-se na atmosfera/ambiência da realidade pulsante, presente, uma polifonia de sons – toques celulares, vozes e ruídos que atravessam o ar urbano. Não à toa, as derivações do signo aéreo jogam com o aleatório e o que há de antecipação (rumor, presságio, mixagem e som/sopro), como as que vêm figurar no poema Série: “As portas da maior cidade se oferecem à urgência/imagem – / Postais (...) A enorme lufada de ar depois / Do parque e da casa, um sentimento / Absurdo, planetário, de estar por aí, respirando tudo” (p. 68).

*Tiago Cfer é doutorando em estudos comparados de literaturas de língua portuguesa. Traduziu o ensaio 'Literatura de Esquerda', do escritor argentino Damián Tabarovsky (lançado em maio deste ano pela editora Relicário)

Ar Livre

Autor: Mauricio Salles Vasconcelos

Editora: Córrego

146 páginas

R$ 50

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Literatura Poesia

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