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Política como teatro

Manifestantes que invadiram aula de Haddad na USP seguiam roteiro, tinham decorado seus papéis - algo que vem se tornando comum nas manifestações coletivas

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo

02 Maio 2015 | 16h00

O site da Rádio Jovem Pan divulgou link da invasão da sala de aula em que o professor Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, ministrava seu curso de pós-graduação sobre Economia Política da Cidade, na Faculdade de Filosofia da USP. A invasão foi feita por cerca de 40 jovens do grupo Luta do Transporte no Extremo Sul, que recebe apoio do Movimento Passe Livre, organização atuante nas manifestações urbanas desde 2013. Querem cinco linhas de ônibus em sua região que poupem os moradores de longas caminhadas em seus deslocamentos.

Haddad está licenciado da USP para exercer a função de prefeito. Mas decidiu retornar à sala de aula, como é comum nas grandes universidades de países com outros índices de civilização. A invasão da aula de Haddad foi para fazer exigências que deveriam ser feitas na prefeitura. No entanto, a demanda fora de lugar é em si mesma esclarecedora, porque no desconforto das personagens - manifestantes, professor e alunos - expressaram-se os sintomas de um Brasil sem rumo.

Os moradores de Parelheiros e de Engenheiro Marsilac fazem reivindicação legítima. Fazem-na, porém, no lugar errado. O prefeito manteve a serenidade e lhes deu a resposta cabível: convidou-os a conversar no corredor e marcou uma ida aos bairros para tratar do assunto diretamente com a população, não só com o grupo. O prefeito o é em sua prefeitura; o professor o é em sua sala de aula. É como se fossem duas diferentes pessoas. Cada qual com a missão que lhe cabe. 

Os manifestantes apresentaram-se munidos de microfones, alto-falantes e filmadora. Estavam equipados, coisa de gente organizada, com respaldo. No link postado eles são ouvidos claramente, enquanto mal se consegue ouvir as respostas do prefeito. Foram para falar e exigir, para impor ao prefeito a assinatura de um documento de compromisso com o que pediam. Não foram para ouvir e negociar, como é próprio da política, embora se refiram a “diálogo” e questionem o prefeito na pessoa do professor, sugerindo que naquela disputa de espaço ele se recusava ao diálogo, o que a gravação mostra não ser verdade. O prefeito sugere que a dificuldade para o atendimento da intimação se deve ao fato de que se trata de região de proteção ambiental. Não é questão que dependa de vontade política como aos manifestantes sugeriram funcionários da prefeitura. As demandas sociais têm limites no próprio interesse de todos. 

Os manifestantes falavam basicamente pela boca de dois líderes jovens, um dizendo coisa diversa da do outro, ao mesmo tempo que o que estava mais próximo de Haddad acusava o prefeito de não deixá-lo falar, quando era exatamente o oposto. Seu próprio colega sobrepunha seu discurso ao discurso do suposto porta-voz do grupo. A acusação era parte do teatro. Ali ocorria algo que vem se tornando comum nas manifestações coletivas, aqui e em outros países: a política como teatro. Os manifestantes levaram o roteiro, haviam decorado seus papéis. Havia uma certa criatividade teatral na ocorrência. Tanto o prefeito quanto os alunos não foram avisados de qual era o script e tiveram que improvisar. A improvisação era a reação esperada dessa espécie de teatro experimental das novas formas de manifestação política. 

Manifestantes e alunos eram aproximadamente da mesma idade, separados, no entanto, pelo abismo das grandes distâncias sociais, não só o da polarização espacial que vem definindo em São Paulo o cenário da ação política, a periferia em conflito com o centro. Foi o próprio PT que instrumentalizou e conceituou essa espacialidade das disputas políticas, construindo uma geografia imaginária sem conteúdo para, a partir dela, engendrar sujeitos de ação política que derivam do cenário e não propriamente da práxis e da respectiva situação social. 

Nesse incidente de sala de aula, a periferia fez o discurso das carências elementares dos que vivem no limite, os pobres, contra o que, nessa lógica, é o centro, a produção e difusão do conhecimento erudito, o que é próprio da universidade. Num certo momento, uma das alunas protestou contra a interrupção da aula pelos invasores. Teve agressiva resposta imediata de uma manifestante. “Eu trabalho!”, gritou a moça. Estava ali, naquele confronto, o estereótipo que centraliza a ideologia dos que veem na universidade pública não só o centro como um centro de poder, mas também como lugar dos que não trabalham, apenas desfrutam. A aluna ainda tentou explicar que ela também trabalha, o que é verdade em relação aos alunos de pós-graduação e a um numeroso grupo de alunos da graduação, especialmente os dos cursos noturnos. Já saindo os manifestantes da sala, um deles gritou para os alunos que aquilo (sim) era a luta de classes. Era uma crítica à cíclica agitação estudantil de uma classe média afluente que usurpou a ideologia da luta de classes para justificar demandas que não se explicam nessa perspectiva. Mera imitação da classe operária por quem operário não é.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DEFILOSOFIA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE A POLÍTICA DO BRASIL LÚMPEN E MÍSTICO (CONTEXTO)

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