REPRODUÇÃO
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Por cima, não: ‘acima’

Como uma questão semântica foi usada para desumanizar o ambulante Adílio Cabral, que ficou por baixo dos trens na Estação Madureira

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2015 | 16h00

Adílio morreu e, em vez de reza, recebeu uma ordem:

– Sai daí, ô, peste! Tá vindo o trem! – gritou um passante.

Como estava caído na linha férrea e não se mexia, o povo entendeu – “Ih, já era” –, e o caso ganhou urgência. Já tinha passado o trem modelo chinês, o diretão para a Central, o mais rápido e silencioso, que colheu o Adílio pelas costas e o jogou ao chão, com a cara na brita e o tronco desconjuntado. Pra ele pelo visto não tinha mais jeito, mas, e se vem outro trem, que fazer com o ambulante escangalhado bem no meio do ramal? Não deu tempo nem pra foto de celular, quanto mais pra um lamento, porque, de fato, lá vinha outra composição, e vinha com tudo.

– Ai, não vai dar pra parar! É um sem-serviço, tá rápido demais –, disse uma funcionária de lanchonete da Estação Madureira, onde tudo isso se deu, na zona norte do Rio. O trem vinha veloz, pois os sem-serviço só param na Estação Central, e não seria por causa de qualquer Adílio Cabral dos Santos, um homem negro de 33 anos que vendia doces na estrada de ferro, que aquela composição mudaria de planos.

Oito vagões passaram por cima dele, sempre em boa velocidade, estalando e guinchando, e o Adílio por baixo. O trem chacoalhando e soltando uns vapores, e o povo na plataforma só esperando. Foram-se os vagões e reapareceu o Adílio no dormente, ainda de bruços, com as pernas arqueadas e as mãos unidas acima da cabeça. Parecia até que descansava, não fosse a camiseta branca rasgada e ensanguentada, com umas marcas pretas de graxa. Tinha sido um presente da mãe de criação, Eunice, logo que ele deixou a cadeia, em outubro passado.

Uns três minutos se passaram, o povo estupefato desembainhou celulares e registrava o pobre-diabo, quando se percebeu a vinda de mais um trem. Foi recebido com alívio porque vinha devagar.

– Ufa! Agora é trem parador, não vai ter problema – disse a estudante Quézia Cristina de Lima, moradora da Baixada Fluminense, que assistia a tudo debruçada na cerca azul da plataforma, junto a centenas de outros passageiros. Quatro homens se aproximaram de Adílio: um guarda, dois agentes de linha e um paisano. O parador se aproximou com lentidão e estacou a dois metros do ambulante. Agora alguém filmava. Parecia que acabaria ali, mas o povo notou que o agente, vestido com o uniforme laranja da concessionária Supervia, fez sinal para o maquinista seguir adiante.

– Mas o rapaz continua na linha! – protestou Quézia, quase formando um L com o corpo, de tanto que se debruçava. Lá embaixo a máquina parecia indiferente. Era terça-feira, 28 de julho, às 16h20 – ainda fora do horário de pico. O trem voltou a se mover. Começou uma gritaria.

– Não aguento ver! Vai esmagar! – disse um rapaz, virando o rosto para o lado. 

O condutor empurrou a alavanca e mais um trem, o terceiro, passou por cima do que já não era o Adílio, nem era ninguém. Quézia pensou no irmão mais velho, que para ela lembrava o homem deitado na linha. Anderson Medeiros, que vende lupas na estação, pensou no filho. “Não é um bicho, pelo amor de Deus!”, comentou o camelô, que escutou frases como “nem se fosse cachorro!” e “que sacanagem é essa?” 

Um agente percebeu os ânimos do povo e interveio: “Se parar vai atravancar tudo e vai ter quebra-quebra”. Levou uma vaia, mas adivinhou o que diria seu empregador. A SuperVia alegou que 6 mil pessoas estariam em risco se os trens parassem e, por isso, teve de orientá-los a prosseguir. A concessionária informou também que só autorizou a passagem “após certificar-se de que não haveria contato com o corpo”. 

Na semana passada em Madureira, no subúrbio, um lugar descrito por Lima Barreto como “refúgio dos infelizes” e por João Antônio como Rio Esquecido, Rio Abandonado e Rio Tristeza, um outro guardinha da estação resolveu com brilhantismo o dilema que atravessara o bairro.

– Por cima, não: passou “acima” – disse, em tom professoral, e prosseguiu a aula – E se o trem tivesse 3 metros, 4 metros de altura? Aí poderia? E se ele tivesse morrido embaixo de um viaduto, os carros continuariam circulando em cima, não é?

Fácil assim: trocou uma palavra e a decisão pareceu-lhe tão comum quanto a superlotação dos trens, a afobação geral nas plataformas, as 21 pessoas atropeladas nos trilhos neste ano. E assim a história de Adílio – logo ele que gostava de um samba – veio a assemelhar-se à canção de João Bosco: “Tá lá o corpo estendido no chão / Em vez de rosto uma foto de um gol / Em vez de reza uma praga de alguém / E um silêncio servindo de amém”.

Verdade que o rosto do Adílio só se viu quando a polícia divulgou um 3x4 seu, três dias depois de morto. Pouco se soube dele. Não se falou quem foi o Adílio, que nasceu em Queimados, na Região Metropolitana do Rio, e que ainda criança se mudou com a família para a Favela da Serrinha, berço da Império Serrano. Quando mais novo, ajudou a montar carro alegórico e participava de ensaios. Aprendeu a tocar bateria e teclado. Gostava de música, o Adílio, e também de futebol. Foi batizado em homenagem ao meia do Flamengo, e essa foi a única herança dos pais que receberia – aos 3 anos foi abandonado e quem o criou foi a tia Eunice, a quem chamava de mãe.

Largou a escola na sétima série, o que é um perigo para quem vive naquelas bandas – a castigada zona norte tem 650 mil pessoas vivendo em favelas, 45% da população favelada do Rio. Adílio beirou o crime até cair nele de vez. Dos pequenos furtos aos assaltos mais violentos foi um pulo e ele logo caiu em cana. Quatro vezes. Tanto fez que o irmão mais velho, Elcio, passou a repetir que o mais novo tinha “paixão pelo xadrez”.

Adílio tinha uma história, assim como os seus familiares. Ela não podia ser vista dos monitores da sala de comando lá na Central do Brasil, a 20 quilômetros de Madureira, onde um gerente decidiu deixar os trens passar. Tampouco se soube por lá que o homem nos trilhos era o quarto de seis filhos que a mãe, Eunice, enterrava. Ela também soube por uma tela, a da TV, sobre o atropelamento em Madureira – viu no telejornal da tarde e, desde o início, achou aquilo absurdo. Mas só descobriu que o borrão no vídeo era seu filho dois dias depois, quando o mesmo jornal deu o nome do atropelado.

No pátio de um hospital da zona norte, enquanto a mãe se submetia a uma sessão de quimioterapia (Eunice trata um câncer no estômago), Elcio relembrou o que sabia da trajetória do irmão.

Ao deixar a cadeia pela última vez, após cumprir nove anos por assalto à mão armada, Adílio prometera à mãe que não seria mais preso. Trocou o samba pelo gospel e voltou a tocar teclado nos cultos da Assembleia de Deus. À noite, trabalhava na lanchonete de Elcio e, até aqui, não voltara a ter problemas com o goró. Celular ele agora tinha também, comprado com recursos próprios. “Tava diferente, não ficava mais dando mole à noite”, disse o Elcio.

Vivia com a mãe e, nos nove meses entre a saída da prisão e a morte nos trilhos, conseguiu guardar “um qualquer”. Comprou um aparelho de som para animar a casa e, outro dia, foi visto dançando na cozinha no meio da tarde. Elcio o flagrou:

– Tá contente, é, malandro? Tá vendo como é melhor ter seu dinheirinho?

Adílio criara uma rotina: acordava às 7h e descia o morro até o Mercadão de Madureira, a 200 metros da estação. Ali comprava doces pra vender no pico da manhã. Depois, cometia uma transgressão: subia até a metade da escadaria lateral da estação, apoiava-se no outdoor de uma pastelaria – “Salgado & Cia, o melhor pastel do Rio” –, esquivava-se do arame farpado e caía direto na linha. Cruzava correndo e entrava no primeiro trem, para driblar os fiscais. Foi numa dessas que caiu no trilho na hora errada, justo quando o trem chinês estava para chegar.

O ambulante passava o dia no vaivém: vendia doces nos vagões até acabar a mercadoria, voltava ao Mercadão, pulava mais uma vez a cerca e tornava a se espremer no trem de subúrbio. Economizava R$ 12,80 todos os dias ao evitar as catracas. Devia tirar uns R$ 70 por dia, estimou um outro vendedor.

No pico da tarde, a Estação de Madureira inunda de gente cansada correndo pra chegar logo em casa. Nesse horário, 200 mil pessoas se acotovelam no sistema. O rumor é de passos apressados, apitar de trens e buzinas de carros. O cheiro de churrasquinho se mistura ao de pipoca doce e à fumaça dos escapamentos. Os ambulantes sabem que, nesse horário, a prioridade dos fiscais não é persegui-los. “Kit café por R$ 10”, anuncia um. “Ajuda aí, mermão, me ajuda a arrumar um troco pra escapar desse sufoco.”

Nos últimos meses, escapar do sufoco, para Adílio, significava juntar dinheiro para abrir uma barbearia. Fizera curso de cabeleireiro quando novo e, na cadeia, exercera essa função. Um dia, ao ver juntos o Elcio e a mulher, Roberta, casados há 18 anos, Adílio disse que pretendia se arranjar. “Talvez esse fosse o melhor momento da vida dele, quem sabe? Mas, num piscar de olhos, tudo muda”, disse o Elcio. 

Os três atropelamentos do Adílio só ficaram conhecidos porque alguém filmou. Quem primeiro publicou foi o Guadalupe News, site que denuncia o tráfico de drogas em Guadalupe, um bairro da zona norte cercado de morros dominados pelo Comando Vermelho. “O objetivo é melhorar a cobertura da imprensa, que não tem interesse por bairros pobres e favelas. Nesse caso, foi só o pessoal da Globo mostrar para a Supervia admitir o erro”, disse o editor do site, um estudante de Administração de 21 anos que pediu anonimato, “pra não facilitar pra traficante”.

Uma página do Facebook de nome SuperVia: vergonha do povo carioca também expôs em vídeo a tragédia de Adílio no dia da ocorrência. “Foi uma decepção como os seguidores receberam. A maioria concordou que, se o trem parasse, atrapalharia o sistema”, disse Vitor Guimarães, de 27 anos, administrador do perfil. “Uma visão tão pouco solidária. E quando souberam que era ex-presidiário reagiram mal, como se fosse um ser humano menos importante.”

Comentaristas de redes sociais, sabemos como podem ser. Mas a reação ao vivo não foi bem essa. As pessoas debruçadas na cerca não sabiam que o corpo era de ex-presidiário – faria alguma diferença naquele momento? E o que poderiam dizer sobre o destino de Adílio as vítimas de alguns dos crimes que ele cometeu?

Em 1.º de abril de 2002, logo após praticar um assalto na Tijuca, Adílio e dois comparsas decidiram roubar um carro para fugir. Depararam-se com um Fiat Tipo prata e renderam o condutor, Ricardo Nunes, um motorista contratado. No banco de trás havia duas crianças, que voltavam da aula no Colégio Cruzeiro, um dos mais tradicionais da elite carioca. Rinúccia La Ruina tinha 14 anos quando isso aconteceu, e um outro menino, chamado Guilherme, tinha 10. Adílio, com a arma na mão, sentou ao lado do garoto.

Circularam por 15 minutos e Adílio se manteve calado e com a arma apontada para o chão. Os criminosos rumaram para o Morro da Mangueira. Um motorista que vinha atrás percebeu e parou uma viatura. Antes de subirem o morro, eles foram rendidos. O crime resultou em 9 anos de prisão para Adílio. Ao sair do carro, a garota de 14 anos, amparada por ambulantes, chorou.

Rinúccia, hoje aos 27 anos, é advogada, com passagens por escritórios como o do ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso, onde estagiou em 2011. Ela nasceu e cresceu na zona norte, bairro de Irajá, e hoje faz mestrado em Freiburg, na Alemanha. Soube do atropelamento pela internet e, sem conhecer a ligação com o sequestro relâmpago de 2002, sentiu compaixão pelo homem nos trilhos. “Podia ser um conhecido, muitos amigos usam o trem”, comentou. Ao saber quem era ele por intermédio do pai, que soube do fato por mim, Rinúccia releu a notícia. Sua opinião não mudou. “Não importa se a pessoa é um ex-presidiário, se é negro ou branco. Se cometeu um equívoco, ele pode pagar judicialmente. Não sei o que pensaria se o assalto tivesse sido pior, mas, como acabou bem, costumo lembrar disso quando falo da violência no Brasil. Agora posso adicionar um detalhe: ele sai da prisão e vira ambulante ilegal no trilho do trem. Isso é um sistema penal que capacita a pessoa?”

O pai de Rinúccia e dono do Tipo roubado, o auditor fiscal Savério La Ruina, foi três vezes candidato a deputado federal pelo Partido Popular Socialista e vive no Irajá desde os anos 1960. Suas plataformas são mobilidade urbana a todos e educação em tempo integral. “Essa pessoa teve creche, escola profissionalizante? Funciona assim: negam-se as letras, negam-se as luzes e depois eu te acuso: bandido! São tantos direitos negados que não é surpresa que, no fim, ele tenha sido tratado como um nada.”

Faz lembrar o que disse o irmão de Adílio quando perguntei sua opinião sobre quem decidiu deixar o trem passar. “Se estivesse na linha um bacana de terno, será que deixariam? Por isso o nosso país está do jeito que está. Um só quer passar por cima do outro.”

O corpo de Adílio foi tirado dos trilhos às 20h50 daquela terça, após a perícia – um laudo sai em setembro. Foi enterrado no Cemitério de Irajá três dias depois. A mãe de criação adicionou um novo túmulo ao périplo dominical que faz às covas rasas dos filhos. Pensa em Adílio à tarde, quando liga o rádio que ele lhe deu. Na casa da Serrinha, ela guarda também uma caixa de sapatos que era dele. Ali ficava o dinheiro que Adílio juntou na linha do trem e que planejava usar pra tentar sair lá de baixo.

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