Jeremie Souteyrat/The New York Times
Jeremie Souteyrat/The New York Times

Por que ele comprou: o lance mamutesco de Yusaku Maezawa

Colecionador japonês fala sobre a aquisição milionária de uma obra de Jean-Michel Basquiat

Motoko Rich e Robin Pogrebin. Makiko Inoue e Hisako Ueno contribuiram de Tóquio, The New York Times

10 Junho 2017 | 16h00

TÓQUIO — Enquanto o leilão de arte contemporânea da Sotheby’s ia esquentando em Nova York, na semana passada, o bilionário japonês Yusaku Maezawa estava sentado no chão de sua sala de estar aqui em Tóquio, assistindo ao leilão em streaming pelo laptop e enviando pelo iPhone ofertas para o quadro do crânio, de Jean-Michel Basquiat. Depois que o preço ultrapassou o mínimo garantido de 60 milhões de dólares, Maezawa — que não tinha um limite em mente — achou que a competitividade do leilão reforçava o enorme valor da obra.

“Decidi entrar na brincadeira”, Maezawa disse na sexta-feira, 26, em uma entrevista na sua casa.

Enquanto Maezawa dava seu lance, a irmã do pintor, Jeanine Basquiat, estava a mais de 10 mil quilometros dali, em Nova Jersey, esperando que o leilão fosse bem. Quando soube que Maezawa pagara 110,5 milhões de dólares — preço recorde para um artista americano em leilões —, ligou para a irmã mais velha, Lisane Basquiat, na Califórnia. “Não tinha muito o que falar”, disse Lisane, em uma rara entrevista por telefone. “Estávamos sem palavras”.

Se os membros da família eram guardiões da chama de Basquiat, Maezawa agora garantiu que seu fogo continuará ardendo, pelo menos por um futuro próximo — e, em grande medida, porque ele fez um post contando sobre sua compra no Instagram e no Twitter logo após o leilão.

“Hoje inúmeras pessoas estão falando de Jean-Michel Basquiat no mundo todo”, disse o marchand Jeffrey Deitch, especialista de longa data em Basquiat, “e somente por causa desse preço exorbitante”.

Ainda não dá para saber se a venda deste mês irá recalibrar o mercado do artista novaiorquino que morreu de overdose de heroína aos 27 anos. Mesmo que os colecionadores agora fiquem mais propensos a consignar suas obras assinadas por Basquiat para aproveitar a onda, não há muita expectativa de que seus melhores quadros sejam postos à venda em breve. E os preços de leilão não necessariamente se traduzem em valor intrínseco.

Ainda assim, a maioria concorda que a venda de Basquiat consolidou seu lugar no panteão das grandes somas, ao lado de Pablo Picasso e Francis Bacon, confirmando que ele não é uma moda passageira e obrigando os principais museus a reconhecer que, se não tiverem o artista em suas coleções, estarão passando por cima de uma figura crucial na história da arte.

“Foi um artista que deixamos passar”, disse Ann Temkin, curadora-chefe de pinturas e esculturas do Museum of Modern Art, o qual não possui nem uma única obra de Basquiat. “Não trouxemos seus quadros para a coleção, nem durante sua vida, nem depois”.

Pelo menos em parte, a compra de Maezawa pode ajudar a corrigir essa falha, uma vez que ele planeja abrir um museu para expor sua coleção em Chiba, sua cidade natal. “Quero mostrar coisas bonitas e compartilhá-las com todos”, disse ele, acrescentando que espera emprestar peças a museus de todo o mundo. “Seria um desperdício guardar tudo só para mim”.

Embora não esperasse “um preço tão alto”, o amor de Maezawa por Basquiat é profundo: ele já havia dado o maior lance por uma obra do artista no ano passado (57,3 milhões de dólares). E viu que outras pessoas sentem o mesmo, incluindo um outro comprador bem empolgado (mais tarde, revelou-se que era o magnata de cassinos Frank J. Fertitta III), porque os dois acabaram em uma guerra de lances.

“Entendi que tinha muita gente querendo muito essa obra de arte”, Maezawa disse. “Eu sabia que estava certo”.

Maezawa disse que começou a colecionar há 10 anos, e o apartamento que ele aluga em Tóquio é testemunha de suas paixões pela arte: Runaway Nurse, de Richard Prince (9,6 milhões de dólares pela Christie’s no ano passado) na escadaria; um Roy Lichtenstein na sala de jantar; um imenso Christopher Wool (13,9 milhões) na sala de estar, junto com dois móbiles de Calder.

Maezawa também é visto como pioneiro de um novo capítulo do colecionismo no Japão, um país até então conhecido pela bolha da arte impressionista dos anos 80. Ele é um colecionador “que se tornou empresário, e não um empresário que se tornou colecionador de arte”, disse Aki Ishizaka, ex-chefe da Sotheby’s no Japão e agora conselheiro de arte.

Encolhido em uma poltrona vermelha escarlate, projetada pelo designer francês Jean Royère, Maezawa — que não trabalha com conselheiros — disse que foi movido inteiramente por seu amor pela arte, e não pelo investimento financeiro. “Apenas sigo o meu instinto”, disse ele. “Quando acho que é bom, eu compro”.

Depois de abandonar a faculdade para formar uma banda de rock indie — ele era o baterista —, Maezawa começou em 1998 uma empresa que agora é o grande shopping japonês de moda online, Zozotown. Seu patrimônio líquido de cerca de 3,5 bilhões de dólares faz dele a 14ª pessoa mais rica do Japão.

Quando o martelo bateu com sua oferta pelo Basquiat, Maezawa disse que se sentiu arrebatado e aliviado, “como um atleta que ganha uma medalha de ouro e começa a chorar”.

Quando lhe perguntaram se ele pretendia comprar mais algum Basquiat importante, Maezawa respondeu com um sorriso travesso: “Você acha que dois são suficientes?” /Tradução de Renato Prelorentzou 

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