Para que 2017 não repita 2016: só por meio do diálogo o Brasil pode se afastar dos retrocessos

Para minimizar os efeitos de um ano nefasto, é preciso que nossos principais líderes, de direita e de esquerda, conversem. Quem estenderá a mão? Os que forem mais dignos. O que importa não é o passado, mas o futuro do País

Renato Janine Ribeiro, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2016 | 16h00

Nada indica que 2017 será melhor que 2016. Na verdade, no ano que se inicia colheremos os amargos frutos do ano que termina. Tivemos o Brexit, a eleição de Trump, a vitória do “não” no referendo sobre a paz na Colômbia, um agravamento das tensões políticas no Brasil, a guerra no Oriente Médio, o que mais? Nada disso acabou em 31 de dezembro. Trump só assume a presidência dos Estados Unidos em 20 de janeiro, o Brexit vai assombrar a Europa por alguns anos, nossa crise econômica, política e sobretudo ética vai durar bastante e sabe-se lá o que ainda pode incrementar o incêndio que já assola o Oriente Médio.

 

Na verdade, desde alguns anos está se delineando um divisor d’águas na sociedade mundial que separa o novo do arcaico, a liberdade do preconceito. Nem todos concordarão quanto ao conteúdo a colocar de cada lado, mas penso que muitos endossam a análise-padrão que veio a lume com o Brexit e foi reforçada com Trump: políticos extremamente conservadores, reacionários mesmo, homófobos ou xenófobos ou machistas, estão tendo êxito em sua revanche contra o que foi conquistado, sobretudo em liberdades sociais e em igualdade  de direitos, nas últimas décadas. E devem esse êxito ao voto, equivocado, verdadeiro tiro no pé, dos perdedores da globalização, dos ressentidos com esse “admirável mundo novo” que é ou foi bom para muitos dos ex-discriminados. Falando em termos gerais – e mundiais –, talvez nunca tenha sido tão bom ser mulher, ser gay. Não que seja perfeita a sua condição, longe disso: mas é bem melhor. Afinal, faz apenas um século, mulheres eram interditadas porque fumavam ou guiavam. O mundo mudou.

Mas isso incomoda. Uma maior igualdade social fere um ativo importante dos bem integrados, que no Brasil eu chamo de “bônus da desigualdade social”. Uma sociedade hierarquizada dá a vários o direito de desrespeitar os mais pobres. Quantas vezes não vi, em aeroportos, passageiros insultando os funcionários de companhias aéreas, como se estes fossem culpados pelo atraso de um voo! Certamente não agiriam assim no aeroporto de Paris ou Miami, cientes que estariam do risco de serem expulsos do país sem direito a retorno. Mas, no Brasil, insultar o servidor não é raro. E, além do bônus da desigualdade social, houve ou há outros bônus – ser branco, ter pênis, ser heterossexual (características, todas essas, que devemos ao berço e que nada têm a ver com o mérito pessoal) davam ou dão privilégios contra o negro ou indígena, a mulher, o homossexual.  

Esses bônus entraram em crise. Um exemplo estrangeiro: no Irã as mulheres têm menos direitos que os homens, mas são maioria entre os estudantes universitários. É questão de tempo. Essa caldeira vai explodir. Quanto tempo elas ainda aguentarão obedecer a maridos incultos e mesmo imbecis? O papel da inteligência cresce no mundo. Os homens dominaram as mulheres por tanto tempo, porque tinham mais força física. Mas, desde a invenção da arma de fogo, das máquinas, da informática, que diferença isso faz? Só onde a força bruta ainda prevalece – geralmente, lugares ermos, uma espécie de mundo lumpen.  

E assim parecia caminhar o mundo: com a queda das ditaduras de direita na América Latina e das comunistas na Europa, metade dos habitantes do planeta conquistou liberdade pessoal e direitos políticos em escala inédita. Metade do mundo virou democracia.

Mas isso parou. De poucos anos para cá, veio a revanche. A questão é: parou de vez? Será que os próprios beneficiados pela ampliação de direitos pessoais e, em países como o nosso, pela inclusão social estão aceitando que as coisas terminem por aí? Estarão satisfeitos com sua inclusão, e opostos à inclusão de quem ficou fora? Terão desistido da política? Ou o contrário: estaremos vivendo a agonia de um velho e injusto mundo? Será que o preconceito, ao se ver ferido quase de morte, tenta exterminar a vida nova que emerge, num terrível abraço de afogados? Assim se coloca, a meu ver, o dilema atual.

Vou falar agora do Brasil. Não temos consenso sobre o que ocorreu aqui nos últimos dois anos. Para uma parte, houve uma eleição legítima, seguida de uma conspiração que culminou em golpe. Para outra, a reeleição foi um estelionato, punido com um impeachment realizado nos termos da lei. Não temos sequer uma narrativa comum dos fatos. Estaríamos melhor se concordássemos com os fatos – e os interpretássemos de formas diferentes, opostas mesmo. Mas a interpretação se meteu dentro dos fatos. Isso rachou a sociedade – tanto que o sucessor da presidente Dilma é tão impopular hoje quanto ela foi no final de sua gestão. 

O que quero discutir aqui é só um ponto: é que, para a direita democrática, basicamente o PSDB, afastar Dilma do governo, ela teve de se aliar – e mesmo se subordinar – a uma direita pouco ou não democrática, a do deputado Eduardo Cunha. Uma força política, que era de direita por defender o capital, foi caudatária de uma direita que é extrema porque odeia esse mundo novo do fim ou redução dos preconceitos. São duas direitas diferentes. Estamos vendo esse triunfo da extrema direita todo dia. A vaquejada, que o STF mais ou menos proibiu pelos maus tratos aos animais, é imediatamente legalizada pelo novo governo. A Escola sem Partido, um projeto que confunde educação com doutrinação e que é repudiado pelos educadores de qualquer linha política, inclusive os tucanos, avança nos legislativos. O governo, em vez de priorizar o ataque aos crimes de ódio, perde tempo brigando com a maconha, que cada vez mais países sabem que não têm como, nem talvez por quê, extirpar. Vou dizer um paradoxo: o retrocesso avança.

 

O que fazer? As forças políticas empenhadas nos direitos humanos, que antigamente eram antes de mais nada o PSDB  e o PT,  se tornaram inimigas de morte. Cada um deles, para governar, se aliou ao que há de retrógrado na sociedade brasileira. Cada um achou que nesse jogo saía ganhando. Os dois incorreram no que os gregos chamavam de hybris, a desmedida, a soberba que clama aos deuses para que a punam. E foram punidos. Cada partido destes é uma sombra do que já foi. Nem importa muito se o PSDB ganhou eleições em 2016, ou se ganhará em 2018. Ele é bem menos do que o partido de Montoro, Ruth Cardoso, Covas e mesmo de FHC. Hoje, acolhe entre seus membros os proponentes do Escola sem Partido.

O que isso nos traz? Revelações sem fim de crimes atribuídos ao alto escalão do governo, logo aquele que prometia reunificar o País na rota do desenvolvimento. Ministros do STF se insultando ou intervindo em assuntos do Legislativo. Penso que isso tudo se deveu de imediato ao trauma do impeachment, que foi usado como voto de desconfiança, o que é próprio do parlamentarismo mas não cabe no presidencialismo. Quando as leis são utilizadas apenas em sua letra, contra seu espirito, pode-se ganhar – mas dá-se o exemplo de que tudo é permitido. François Hollande chegou a uma popularidade mais baixa que a de Dilma – meros 4% – e mesmo assim nenhum francês cogitou abreviar seu mandato.

Há porém uma causa mais profunda do que o impeachment para nossa brasileira crise: a recusa do diálogo. Um ano atrás, corria um comentário que parecia engraçado, mas continha uma grande seriedade: para resolver nossos problemas, seria preciso trancar numa sala FHC, Lula, Dilma e Temer, até que chegassem a um acordo. Podia ser piada, podia ser amarga, mas hoje é impossível. 

E no drama, talvez tragédia, mundial, o papel que jogamos é o de termos os dois poderes eleitos, os propriamente democráticos, Executivo e Legislativo, à mercê dos humores do poder aristocrático, o Judiciário. (Aristocrático porque preenchido mediante concurso, que em tese escolhe os melhores – os “aristoi”, em grego). Nosso futuro depende de sabermos se a Justiça irá até o fim na apuração dos malfeitos ou se poupará o PSDB. Mas essa decisão está dependendo, hoje, de juízes – e não dos eleitores. A democracia foi substituída por um poder do estamento jurídico. Mesmo que este seja bom ou decente, não é o que se chama democracia, que é a forma mais aberta que existe do jogo político.

Termino com a resposta que dei a um amigo quando, um ano atrás, eu lhe disse que era preciso Lula e FHC conversarem. Ele, tucano, ferido pela campanha de 2014, me perguntou: Mas qual deles deve tomar a iniciativa? Entendi sua questão: quem agiu pior? Quem ofendeu mais? Quem, por isso mesmo, deve estender a mão como se estivesse pedindo desculpas? Mas eu respondi: O que for mais digno. E que se mostrará mais digno por estender a mão. O que importava e importa não era o passado, mas o futuro. Se continuarmos só perguntando quem sujou a água do córrego, o máximo que teremos serão os lobos comendo muitos cordeiros. Precisamos ir adiante e estabelecer um diálogo que redesenhe o País. O triste balanço de vinte anos de guerra entre PT e PSDB foi a vitória dos coadjuvantes que esses dois partidos desprezavam mas usavam. Coadjuvantes que acabaram roubando a cena. Todos saímos perdendo, ou quase todos, com o clima de ódio que se instalou no País, com uma guerra civil verbal que pode em algum momento passar ao ato. E, nisso, estamos parecidos com esse mundo que tanto prometia, mas hoje conhece o retrocesso Brexit-Trump. 

Temos que mudar isso. Se pelo menos nos convencermos desta necessidade, poderemos depois inventar como. 

RENATO JANINE RIBEIRO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA DA USP, AUTOR DE A SOCIEDADE CONTRA O SOCIAL: O ALTO CUSTO DA VIDA PÚBLICA NO BRASIL (COMPANHIA DAS LETRAS)

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