Potências em luta: a pior crise entre Rússia e Ocidente desde a Guerra Fria

Vivemos o momento mais perigoso de tensão entre a Rússia e o Ocidente desde o fim da Guerra Fria. Enquanto os russos acusam Estados Unidos e União Europeia de enganar e marginalizar seu país, os norte-americanos os denunciam por tentar interferir em suas eleições presidenciais e por crimes de guerra na Síria. Autor de mais de 10 títulos sobre Rússia, segurança e crime transnacional, o acadêmico britânico Mark Galeotti afirma que Putin se sente traído por perder a influência na Ucrânia e aproveitará qualquer desculpa para usar seu poderio bélico. Mas, para ele, o paralelo não é a Guerra Fria: “Temos de pensar na Rússia do século 19, um país que demanda respeito e ignora pressões. Podemos esperar demonstrações de força”

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2016 | 17h00

Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem

Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final

Alguma coisa está fora da ordem

Fora da nova ordem mundial...

(Fora da Ordem, de Caetano Veloso, 1991)

Dezembro marca o 25º aniversário da dissolução da União Soviética.  Este ano,  a data será comemorada num tom bem mais sombrio do que o que marcou o anúncio da renúncia de Mikhail Gorbachev, o último presidente do superpoder comunista,  em 1991. Há duas semanas, Gorbachev, aos 85 anos, alertou: o mundo chegou ao momento mais perigoso de tensão entre a Rússia e os Estados Unidos desde o fim da Guerra Fria.

A maior força militar russa de superfície deslocada desde a Guerra Fria ruma para o que pode ser o assalto final a Alepo, a única grande cidade síria ainda em poder de rebeldes, descrita pela ONU esta semana, como um matadouro de civis. O governo Obama denunciou a Rússia e a Síria por crimes de guerra em Alepo e, no dia 11, Vladimir Putin cancelou, na última hora, uma visita à França, depois que François Hollande repetiu a acusação.  Mas a União Europeia não conseguiu chegar a um acordo sobre a imposição de novas sanções contra Moscou.

Numa intriga sem precedentes na história dos EUA, múltiplos órgãos de inteligência apontam para a Rússia como fonte do hacking de e-mails da campanha democrata à presidência. Vladimir Putin odeia Hillary Clinton e o sentimento é mútuo. A expressão Guerra Fria voltou a circular entre políticos, na mídia e na imaginação de kreminólogos.

Mark Galeotti é um dos mais consultados especialistas ocidentais sobre o labirinto do poder na Rússia contemporânea, onde passa temporadas regulares. Um britânico com carreira acadêmica na Inglaterra e nos EUA, hoje ele é fellow do Instituto de Relações Internacionais de Praga. Está para lançar dois livros, o primeiro sobre as forças armadas russas, o próximo sobre crime organizado na Rússia. O Aliás aproveitou a rápida passagem do professor Galeotti por Nova York. A seguir, a entrevista exclusiva, gravada no barulhento terraço de um pub irlandês, no centro de Manhattan.

A tensão do Ocidente com a Rússia pode ser corretamente descrita como uma volta da Guerra Fria?

Não acho isso útil, “Guerra Fria” vem com tanta bagagem, evoca um vasto confronto ideológico em que um lado tenta converter o outro e ambos querem expansão. Apesar de haver clima de conflito entre o Ocidente e Rússia, Putin não procura a expansão além das suas cercanias e esfera de interesse, não quer suas tropas marchando no Champs Élysées. A motivação real é defensiva. A Rússia quer ver o que considera influência estrangeira fora de seu território e também quer manter uma esfera de influência. Infelizmente, porque é “Moscou contra Washington”, por ser um conflito que não é uma guerra, as pessoas se voltam para a Guerra Fria como um paralelo. Mas o paralelo melhor seria pensar no século 19. Foi um período em que os países estavam em competição permanente entre si. A certa altura, estavam em guerra, em seguida se tornavam aliados. Não havia a expectativa de uma base estável. Esta é a visão de Putin: um mundo do século 19.

Mas esta visão não mudou desde que ele assumiu o primeiro mandato em 2000?

Sim. Putin chegou ao poder usando linguagem nacionalista dura, mas agiu com pragmatismo. Ele não esperava transformar a Rússia numa democracia ocidental, achava possível uma convivência de compreensão com o Ocidente. Acredito que isso se deve, em parte, ao fato de que Putin nunca entendeu as democracias ocidentais. Achou que sempre poderia fazer acordos em termos pragmáticos e não sofreria interferência alguma, enquanto ele fosse um aliado conveniente. Lembro do 11 de setembro, Putin foi o primeiro a tomar iniciativa de oferecer cooperação. Era o tipo da crise em que, pensou, posso ajudar vocês e vocês não me incomodam com a minha guerra na Chechênia. Desde que retornou à presidência, em 2012, Putin acredita que o Ocidente é ativamente hostil ao sistema russo. Há também uma questão psicológica: à medida que Putin envelhece e fica mais cercado de puxa-sacos, como todos os líderes autoritários, está mais preocupado com o destino da Rússia, o dele e o legado que vai deixar. Por isso acho que tem uma visão menos pragmática e mais grandiosa.

Putin se sente traído? A queda do governo pró-Moscou da Ucrânia, em 2014, seria um exemplo deste sentimento?

Sim, ele claramente se sente traído. Ele acha que o Ocidente tinha um plano de enganar e marginalizar a Rússia. Desde a expansão da OTAN, a guerra de Kosovo, o ataque à Líbia até a Ucrânia. Ele acreditava que o Ocidente queria roubar a Ucrânia da Rússia. Não concordo, mas não nego que o Ocidente, especialmente os EUA, conduziram mal a relação com a Rússia, inclusive com a chamada política de reset, de "zerar" a tensão após a guerra entre Rússia e Geórgia e recomeçar relações diplomáticas em termos mais construtivos, implementada por Obama, em 2009. Podemos voltar também aos anos 1990. Lembro que o Ocidente não se opôs a Boris Yeltsin bombardear seu Parlamento quando sofreu impeachment, em 1993, e roubou uma eleição em 1996. E isso nos faz parecer hipócritas quando reclamamos de roubo eleitoral na Rússia hoje.

É justo descrever a política do reset, alardeada pela então Secretária de Estado Hillary Clinton, em 2009, como ingênua e pouco engajada?

Sim, as duas coisas. O reset foi anunciado logo depois da guerra na Geórgia. Os russos basicamente invadiram a Geórgia e tomaram dois pequenos pedaços do país, Abkázia e Ossétia do Sul. Nós esperneamos e exclamamos, que terrível! Alguns meses depois, Hillary Clinton oferece o reset. A lição em Moscou, e ouvi isto de militares e diplomatas, foi: o Ocidente é tão pragmático e cínico como nós. Quando falam em direitos humanos e soberania, é espetáculo, não precisamos levar a sério. O timing para o reset foi, para eles, um sinal de que tudo era negociável. Os EUA não ofereceram nada à Rússia para ter uma relação mais positiva com o Ocidente, era esperança piedosa.

Acredita em argumentos recentes de que o centro do poder em Moscou, nunca teve planos de democratização, apenas pilhou o tesouro para se proteger, no período final da União Soviética?

Eu não aceito a ideia de uma conspiração a longo prazo. O Partido Comunista, nos últimos dias da União Soviética, não era composto por marxistas ou leninistas. Era gente que se juntava ao partido para ter conforto e poder. Esses oportunistas cruéis perceberam que o sistema ia desmoronar, começaram a transferir dinheiro e a criar suas rotas de fuga. Era uma coisa de pessoas ou pequenos grupos. Até o fato de que o tesoureiro do partido, Nikolay Kruchina, caiu misteriosamente de sua janela e morreu, dias depois do golpe contra Gorbachev, em 1991, e os arquivos financeiros desapareceram com ele, mostra que o dinheiro foi para mãos privadas. O regime Yeltsin que assumiu o poder foi, desde o começo, uma aliança instável entre reformistas liberais genuínos e pragmáticos que abandonaram o partido. E estes venceram, Yeltsin passou a contar com eles. Os liberais, ou foram seduzidos pela oportunidade de se tornar obscenamente ricos, ou acabaram marginalizados. Foi um processo de oportunismo, acaso e ganância que levou à ascensão de Yeltsin. 

Putin é visto, não como estrategista, mas como um oportunista tático?

Sim, Putin é um oportunista eficaz. Por ser um líder autoritário, pode se mover rápido e a invasão da Crimeia é bom exemplo. Dois meses antes, não havia suspeita de que estariam prontos para invadir. Quando o regime de Kiev caiu, em fevereiro de 2014, decidiram que era preciso agir para que a Ucrânia não “fosse roubada” pelo Ocidente, afinal, tinham suas bases navais lá, mas viram também uma boa oportunidade. Os habitantes da Crimeia eram insatisfeitos, preferiam ser russos do que ucranianos e, para Putin, a Ucrânia não era um país, era uma colcha de retalhos.

Como este oportunismo se revela no ataque na Síria que começou há um ano?

A operação começou com um objetivo e se tornou algo diferente. Quando Putin primeiro enviou sua força aérea, pegou todos de surpresa – de novo, tática impecável. Ele queria fortalecer Assad para impedir o colapso do regime. Mas, o mais importante, a meu ver, foi a motivação geopolítica dirigida aos Estados Unidos. Naquele momento, em setembro de 2015, os norte-americanos faziam um esforço consistente para isolar a Rússia diplomaticamente. Foi a maneira de Putin dizer a Obama, você não pode me excluir. E funcionou. Mas, depois de conseguir o objetivo diplomático, Putin anunciou uma retirada. Só que a retirada não aconteceu, foi um revezamento de forças e uma escalada do engajamento. Vejo dois motivos aí: Putin temeu correr o risco da queda do regime Assad, mas acho também que a missão mudou, passou a ser uma demonstração de que a Rússia tem um papel no Oriente Médio. De certa forma, a Rússia é um destes animais que estufa o peito para fazer os outros bichos recuarem. Veja, a Rússia é um país fraco, sua economia é relativamente pobre, seu exército muito menos formidável do que imaginamos. Quanto mais ela impressiona, especialmente na Europa, mais os países ficam amedrontados.

Mas a Rússia não tem dinheiro para reconstruir a Síria, o que vai fazer se ocupar Alepo, uma cidade devastada?

A Rússia pode demonstrar que consegue explodir coisas, o que, numa guerra, é um atributo útil. Se eles tomarem Alepo, acho que Damasco poderá forçar alguns grupos rebeldes a negociar. Para os russos, a paz vem com poder de fogo superior. Não acho que vai dar certo, mas, de acordo com as fontes com quem converso, parece ser o plano. Os russos vão esperar que o Ocidente faça a faxina na Síria porque é o destino dos refugiados. Sem tornar a Síria habitável, não é possível deter a onda de refugiados. O calculo dos russos é, nós ganhamos a guerra e deixamos a Europa se encarregar da paz.

O que acha da ideia de interferir na eleição norte-americana, através de hacking?

É interessante. O tema contínuo, para mim, é Putin fazendo movimentos táticos sagazes que a longo prazo prejudicam a Rússia, como ocupar a Crimeia e a região de Donbass, no leste da Ucrânia, que resultou nas sanções. Agora, Moscou tem que gastar muito para sustentar Donbass. Síria, a mesma coisa. Conseguiram deter os EUA. Agora, vão ser sugados por um conflito mais longo. Quanto à eleição, não acredito que os russos tivessem a menor expectativa de vitória de Trump. Acreditavam na vitória de Hillary Clinton e a consideram uma inimiga do regime. Lembre que a primeira leva de e-mails hackeados foi para mostrar que o Partido Democrata favorecia Hillary. É um argumento favorito da propaganda russa: todos são maus como nós. Os russos não querem ser vistos como bonzinhos, querem provar que os outros países são tão ruins como eles. E a história de hackear as máquinas de votação, nem acredito ser possível, reforça a paranoia do eleitorado de Trump e enfraquece Hillary. Então, o cálculo parece ser o de um cenário de tensão interna que distraia Hillary de aventuras em política externa. Não que eu acredite que vá funcionar. De fato, conseguiram fazer com que os norte-americanos vejam a Rússia como uma ameaça política e existencial mais séria do que antes.

Acredita na ideia de que Vladimir Putin é prisioneiro do grupo de poder que o apoia?

Putin certamente tem muito dinheiro, mas não os US$ 40 bilhões que alegam aqui. Ele não está enchendo contas na Suíça – quem faz isso planeja para a vida depois do poder e não acredito que ele pense nestes termos. Toda a Rússia é o seu cofrinho. Quando ele quer uma coisa, o Estado compra ou um oligarca dá de presente para ele. De alguma forma, ele é um prisioneira da gaiola dourada que criou, está cada vez mais cercado de gente que diz o que acha que ele gosta de ouvir, sem compromisso com a realidade. Um sinal disso foi a ocupação de Donbass, disseram a ele que seria fácil e rápido. Eu estava em Moscou, na época e todos diziam: em seis meses, Kiev vai capitular e tudo volta a ser como antes. Mas Putin continua com poder absoluto, como vimos, em agosto, com a demissão de seu chefe de gabinete, Serguei Ivanov, mais poderoso do que o Primeiro-Ministro Medvedev. O motivo? Podemos especular. Acho que ele está com suspeitas cada vez maiores da elite e quer se livrar dos que têm poder e ambição. Ivanov era detestado, mas visto como o principal adversário se Putin tivesse morte súbita. Putin está promovendo assessores mais fracos, cuja lealdade pessoal a ele, considera maior.

Matar líderes da oposição como Boris Nemtsov, em 2015, é uma tática?

Acredito que o assassinato de Nemtsov foi um trabalho independente de Ramzam Kadyrov, o presidente da Chechênia. O Kremlin não precisa matar opositores, é um mau negócio. Em primeiro lugar, a maioria deles não é herói. E O FSB, o serviço de segurança federal , ressuscitou uma técnica da era soviética muito eficaz, o de conversas “profiláticas.” Digamos que você tenta organizar um grupo de ativistas sindicais ou ambientalistas. O FSB lhe convida para um papo. Algum coronel de modos suaves lhe recebe e não faz qualquer ameaça explícita. Mas deixa claro que sabe tudo sobre você, especialmente sobre sua família. Para a maioria das pessoas, isso basta.

Quem tira o sono de Putin? A classe média castigada pelas sanções? Trabalhadores?

Não a classe média, que é relativamente pequena. Não há oposição organizada. Ele vê duas ameaças, a primeira da classe trabalhadora, houve aumento de agitação sindical, as greves aumentaram 25% no último trimestre. Quando os protestos são em escala maior, como o dos caminhoneiros em  dezembro passado, ele faz concessões, no caso, sobre os pedágios, mas sem alarde. Mas a ameaça real que Putin vê é um golpe da elite, não falo de tanques nas ruas. Putin teme que uma massa crítica na elite tente se livrar dele. Sabemos que há um número crescente de ricos e poderosos infelizes com o estado das coisas. A maioria é de cleptocratas pragmáticos. E já se ouve em Moscou conversas sobre o futuro pós-Putin. A questão é, quem dá a partida? Quem se arrisca?

A reeleição de Putin em 2018, é vista como certa?

Ele deve se reeleger. Mas não será impossível algo acontecer no próximo mandato.

Se pensar em termos de Guerra Fria é improdutivo, como o Ocidente deve enfrentar a agressividade de Putin?

A contenção, um instrumento desenvolvido na Guerra Fria, é útil. Mas precisamos cunhar outra expressão. O mundo hoje é completamente diferente. Na época da Guerra Fria, Rússia e Estados Unidos eram isolados entre si, havia pouco comércio e um lado disparava propaganda contra o outro. Hoje, o mundo está conectado. A juventude russa faz compras na GAP, usa iPhones e passa férias na Turquia, a Rússia importa 40% do que come. A Rússia não pode virar uma Coreia do Norte. Isso afeta a Rússia e nos afeta. Londres e outros centros financeiros se beneficiam de comércio com a Rússia, estamos inextricavelmente ligados. O que é preciso é um foco mais agudo. Historicamente, os ocidentais fizeram barulho e agiram pouco e os russos veem isso como falação. Para mostrar que tem dentes, o Ocidente precisa ser mais duro com sanções. As sanções sistêmicas, atingindo setores da economia, depois da invasão da Ucrânia, surtem efeito a longo prazo. Elas seriam eficazes se a economia russa estivesse numa curva de recuperação e a recuperação fosse estancada. Mas não está, a economia depende de preço do petróleo. O oligarca russo não está preocupado com o preço das sanções sobre a população. A primeira leva de sanções que atingiram indivíduos, oligarcas próximos a Putin, sim, assustou. Eu estava em Moscou e fiquei fascinado com o pânico. Soube de ricos enviando discretamente representantes à embaixada norte-americana com o recado “Eu não concordo com a invasão da Ucrânia.” Havia gente transferindo dinheiro para a mulher, filhos, até o motorista. A gente contava uma piada de que as sanções mais poderosas seriam bloquear a exportação de peças de BMW’s! A elite russa respirou aliviada quando as sanções contra pessoas evoluíram para sanções sistêmicas. Eles são cosmopolitas, só pensam em si mesmos e são os que tomam decisões. É mas fácil dar a essa elite razões para achar que Putin se tornou tóxico, um obstáculo.

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