O que levou um aventureiro a escrever o maior clássico sobre a burocracia?

O que levou um aventureiro a escrever o maior clássico sobre a burocracia?

'Moby Dick' e 'Bartleby, o Escrivão', de Herman Melville, ganham novas edições no Brasil

Ronaldo Bressane*, Colaboração para o Estado

06 Maio 2017 | 16h00

O leitor brasileiro agora tem à disposição duas versões de Herman Melville: o pacote aventureiro/épico/longo e o pacote burocrático/fantástico/curto. Parece estranho os dois pacotes habitarem o mesmo corpo de escritor. Um pacote ajuda a iluminar o outro, no entanto. No primeiro pacote, temos uma nova edição do clássico Moby Dick (Nova Fronteira, tradução dos anos 1950, de Berenice Xavier) e a bem-vinda edição de Jaqueta Branca (Carambaia), o livro que Melville escreveu logo antes de seu magnum opus. No entanto o livro mais surpreendente é a noveleta Bartleby, que a José Olympio recoloca no mercado com prefácio de Jorge Luis Borges (tradução de Pinheiro de Lemos). É bom informar que tanto a noveleta quanto o romanção haviam sido publicadas com esmero pela Cosac Naify, mas Bartleby só é encontrável em sebo e Moby Dick custa quase 100 pilas (tradução a cargo de Irene Hirsche e Alexandre Barbosa de Sousa, em edição que traz enorme fortuna crítica).

Em agosto de 1843, aos 24 anos, Melville embarcou na fragata USS United States em Honolulu, Havaí, até contornar as Américas e aportar em Boston, em outubro de 1844. A penúltima parada do navio foi no Rio de Janeiro, onde a tripulação é visitada pelo imperador Pedro II. Inspirado em suas experiências a bordo, seis anos depois Melville publicou Jaqueta Branca. Narrado pelo marinheiro que se identifica apenas como “Jaqueta Branca”, referência à roupa tosca que costurou para se proteger do frio, é um romance social, que protestava contra os maus-tratos a que os marinheiros eram submetidos. O livro despertou indignação e foi fundamental para que o Congresso estipulasse rígidas leis na defesa dos marinheiros.

Dois anos depois, Melville publicaria Moby Dick. O símbolo supremo do “grande romance americano”, sinônimo de épico perseguido por todos os escritores que lhe sucederam (de Philip Roth a Don DeLillo, passando por David Foster Wallace e Thomas Pynchon), é cheio de diálogos shakespearianos, densas meditações filosóficas, descrições técnicas minuciosas e, especialmente no fim, uma narrativa veloz ultracopiada pelos romances de aventura posteriores. Em seu tempo, Moby Dick foi recebido com muchochos: era grande, ousado, pretensioso demais. Romances de aventura náutica tinham se banalizado, e por sua natureza múltipla Moby Dick foi relegado ao ostracismo.

Curiosamente, o mesmo homem que aos 15 anos já viajava de navio acabou num escritório. Entre os 40 e os 60 anos trabalhou na alfândega, e aos 72 morreu desconhecido. Vinte anos após sua morte era visto como mero cronista da vida marítima. Só nos anos 1920 foi “reabilitado” por nomes como DH Lawrence e John Freeman. O homem que ocupa as 40 páginas de Bartleby não se parece com o combativo Jaqueta Branca ou com o filosófico Ishmael. “Sou um homem já idoso”, Melville começa, enfocado um advogado bem de vida, dono de um escritório em Wall Street, “em contato íntimo com personagens singulares (...) os amanuenses e escrivães judiciais”. É um sujeito que vive sob a lâmpada fria dos escritórios, longe do alarido dos homens do mar, do som bravio das ondas e da luz natural dos conveses.

Entretanto é este pequeno livrinho que ilumina os romances náuticos anteriores: percebe-se nele o fascínio de Melville pela condição absurda do trabalho, em termos políticos e existenciais. Bartleby é um escriturário contratado pelo advogado (sem nome) que, após alguns dias de trabalho normal, recusa-se a atender ordens do patrão, dizendo “Preferia não fazê-lo”. A frase injustificável contamina o ambiente ao redor. Na apresentação de sua tradução para o espanhol, presente nesta edição, Borges nota que se “a monomania de Ahab transtorna e aniquila todos os homens do navio, o cândido niilismo de Bartleby contagia seus companheiros e também o homem que relata sua história. É como se Melville dissesse: ‘Basta que um único homem seja irracional para que os outros também o sejam”.

Uma das tiradas famosas de Borges é “todo escritor cria seus influenciadores”, o que é verdadeiro se pensarmos que Kafka descende diretamente do Melville de Bartleby. Outro escritor teria precedido Melville no estudo da “vasta população, das cidades fervilhantes, da publicidade errônea e clamorosa, do grande homem secreto”: o Poe de O Homem da Multidão. De fato, Bartleby é um desses milhões de funcionários anônimos a exercer, secretamente, a resistência pacífica, o comportamento passivo-agressivo que os faz empurrar o mundo com a barriga (colada à mesa de trabalho). Tais inconformistas da não-agressão foram elevados à condição de poetas do silêncio pelo escritor espanhol Enrique Vila-Matas, criador da Síndrome de Bartleby, exposta em seu Bartleby & Cia. Esta renúncia à literatura – ou ao mundo – acometeu do francês Rimbaud, que deixou de escrever aos 19, até o mexicano Juan Rulfo, que nunca mais escreveu depois de Pedro Páramo, ou Robert Walser, que abandonou a literatura por discordar da fama, passando por nosso Raduan Nassar, que abraçou a carreira agrícola após publicar Um Copo de Cólera. Esquecido no fim da vida, em lugar da cólera cataclísmica de Ahab, Melville optou um modo minimalista, pacifista e singelo de dizer ao sistema “não”.

*Ronaldo Bressane é jornalista e escritor, autor de 'Mnemonáquina' (Demônio Negro) e 'V.I.S.H.N.U.' (Companhia das Letras) 

Moby Dick

Autor: Herman Melville

Tradução: Berenice Xavier

Editora: Nova Fronteira

192 páginas

R$ 39,90

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Literatura

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