Primeiro livro de ficção coreano da história é lançado no Brasil

Primeiro livro de ficção coreano da história é lançado no Brasil

'Contos da Tartaruga Dourada', de Kim Si-Seup, datam do século 15

Paulo Nogueira*, Colaboração para o Estado

01 Julho 2017 | 16h00

Apesar da tentacular globalização, a literatura oriental, especialmente a mais antiga, em grande medida continua para os leitores ocidentais uma espécie de amor que não ousa dizer o seu nome. Dois dos ciclópicos compêndios de Harold Bloom – O Cânone Ocidental e Gênio – excluem autores orientais. No âmbito brasileiro, Otto Maria Carpeaux fez o mesmo nos sete volumes da sua História da Literatura Ocidental. No Brasil, até mesmo uma obra como História de Genji, torrencial romance (quase 2 mil páginas) da japonesa Murasaki Shikibu, que Marguerite Yourcenar tietou com um miminho ditirâmbico (“Nunca se escreveu nada de melhor, em nenhuma literatura”) continua passando batido, embora date do ano 1000. Daí que a edição brasileira de Contos da Tartaruga Dourada, do coreano Kim Si-Seup, seja um marco auspicioso.

O pedigree clássico deste livro é inexpugnável: datado do século 15, trata-se da primeira prosa de ficção coreana. Foi composto em chinês tradicional (ideogramático), pois a escrita alfabética coreana permaneceu durante um bom tempinho esnobada pelos letrados locais. 

O autor, Kim Si-Seup, nasceu em Seul em 1435, e, pela precocidade prodigiosa, foi algo como um Mozart das letras, ou um Rimbaud oriental. Juram que com oito meses já sabia ler e com três anos assinou uma ode invejável. De certa forma, era o homem certo no lugar certo numa época de transição: um dissidente errante, foi monge budista, mas também um erudito que tirava de letra as doutrinas confucionistas. 

É útil espiar o que bombava no Ocidente mais ou menos na mesma altura: A Morte de Arthur, de Thomas Mallory; Gil Vicente, Pietro Aretino e Rabelais. Cervantes e Shakespeare, que morrem no mesmo ano (1616), ficam para outra prateleira. Nenhum destes se reduz àquele epigrama sardônico de Italo Calvino: “Clássico é uma obra que todo mundo queria ter lido, mas que ninguém quer ler.” Acho que é também sob tal prisma que se deve avaliar o livro de Kim Si-seup, e não apenas o documental ou histórico.

Para alguns um romance do qual restam seções (outras se perderam), para outros contos independentes, prevalece nestas cinco narrativas uma fidalguia cortesã. Por vezes, a vida no “Quatrocentto” coreano sugere quase uma “fête galante”, ou um quadro de Watteau, com piqueniques na grama e flertes arcádicos. O protótipo dos enredos é: rapaz solitário, sensível e talentoso encontra um amor ambíguo numa jovem não menos prendada mas enigmática. Nunca há descrições realistas de cenários ou personagens, apenas pinceladas idealizadas, quase arquetípicas. 

Volta e meia, essa galanteria rarefeita e delicada é encantadora. Aprendemos que o nome da Coreia correspondia ao “Reino da Alta Beleza”, e que deriva da dinastia Goryeo, por sua vez destronada pela dinastia Joseon, do Reino das Manhãs Calmas. Compare-se esta graciosidade lexical com a atual arena brasileira, onde se estapeiam Coxinhas versus Mortadelas. E, se não fosse por aquele déficit realista, Contos da Tartaruga Dourada lembraria mais o Decameron, de Bocaccio, só que com menos licenciosidade e mais sobrenatural. 

Outra especiaria desta obra é a promiscuidade entre prosa e poesia. No primeiro conto, por exemplo, das 46 páginas 16 são poemas interpolados. No segundo, de 30 páginas, 12 são poesias. Tudo se passa como se, na época, o lirismo estivesse muito mais entranhado, se não no cotidiano popular (não sejamos quiméricos), pelo menos nas castas letradas. Assim, rola uma incontinência versificadora: na página 67, lemos: “Sem conseguir vencer a alegria, Yi compôs um poema” (entra o poema). E, na página 68: “Depois de ouvir essa notícia, Choi se recuperou aos poucos da doença e até compôs um poema” (tome poema). Hoje somos muito mais prosaicos, no bom e no mau sentido. 

No quarto conto, essa vaporização do real (que me recuso a chamar de “realismo fantástico”) se radicaliza, com a introdução literal e explícita do sonho. Também na literatura ocidental o chamado “reino onírico” é um consagrado dispositivo da trama – a par do “revólver de Tchecov” ou do “Red Herring”, por exemplo. O personagem é instalado num ambiente maravilhoso e excêntrico, e precisa superar uma série de desafios para dar no pé. Um dos mais admiráveis usos desta ferramenta é Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, cuja lógica é a do “processo primário” freudiano, com rupturas de tempo e espaço e causalidade elástica. Este é também o conto mais cativante do autor coreano. 

É forçoso dizer uma palavrinha sobre a tradução de Yun Jung Im, diretamente do original. Eu já lera a versão brasileira dela do romance de Han Kang, A Vegetariana, Man Booker Prize do ano passado, e achei-a esplêndida (o que não deixa de ser petulante, pois, no que se refere ao idioma coreano, meus conhecimentos se limitam a desconfiar que o nome Kim corresponde ao nosso “Zé”).

Já na tradução deste clássico, assomam uma ou outra opção talvez discutíveis, como o vocábulo “moçoila” – quem sabe para exumar uma antiguidade vetusta, mas soando como um arcaísmo meio brega. É o tal dilema que aquele erudito (e machista) francês do século 17 já apontou: “As traduções são como as mulheres: as fiéis não são bonitas, e as bonitas não são fiéis.” Porventura também as notas de rodapé, não obstante instrutivas, sejam um tiquinho excessivas (na página 36 já vamos na 16.ª nota) e, junto com os poemas, comprometam um pouco a fluidez da leitura. Mas seja o prefácio, seja o posfácio, igualmente da tradutora, são luminosos e úteis. 

É também elucidativo que os Contos da Tartaruga Dourada por um lado confirmam em parte aquilo que a narratologia ocidental designou por “a jornada do herói”: uma estrutura ficcional de um momento marcante na vida do protagonista, com a saída do habitat natural, uma epifania e um novo autoconhecimento. Por outro lado, despontam temas proverbialmente orientais, como a aceitação estoica do ciclo natural de crescimento e decadência (que os japoneses chamam de Wabi-Sabi). 

Por isso, este livro é um clássico na segunda (e melhor) definição de Calvino: “uma obra que nunca termina de dizer aquilo que tem a dizer, pois cada geração a lê de uma forma diferente, mas não menos gratificante.”

*Paulo Nogueira é autor do romance 'O Amor é um Lugar Comum' (Editora Intermeios)

Contos da Tartaruga Dourada

Autor: Kim Si-Seup

Tradução: Yun Jung Im

Editora: Estação Liberdade

176 páginas

R$ 36

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