RDA/Getty Images
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Principais livros de Albert Camus são relançados no Brasil

Filósofo franco-argelino foi tão relevante em sua produção literária quanto em seu pensamento filosófico

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2017 | 16h00

Estávamos em meio à guerra, em 1943. Eu vivia num vilarejo do Jura. Chovia sem parar. Um dia, entediado, fui debaixo de chuva à cidade próxima, Lons-le-Saunier. Uma livraria estava aberta. Ali, descobri dois livros de um escritor cujo nome jamais ouvira, Almert Camus: O Mito de Sísifo e O Estrangeiro. Comprei o primeiro. No dia seguinte, voltei e comprei o segundo. Li em uma noite. A chuva não parava.

Lembro-me da primeira frase, sufocante, terrível: “Hoje, mamãe  morreu. Ou talvez tenha sido ontem, não sei”. Em seguida, vinham dias de entorpecimento, de prazeres estúpidos, de vagar a esmo, num dos quais, como num pesadelo, o mesmo personagem mata um árabe. Mais tarde, ele termina na guilhotina. O livro termina com uma última frase de arrepiar: “Enfim, soube que havia sido feliz e era feliz. Para completar, para que não me sentisse sozinho, desejava apenas que houvesse muitos espectadores em minha execução e que me recebessem com gritos de ódio”. 

Os livros de Camus se completam: em O Mito de Sísifo, ele teoriza sobre o absurdo da condição humana em um mundo, a seus olhos, sem Deus. Já O Estrangeiro é o romance do próprio absurdo da vida. Soberbos no plano literário, esses dois textos são desesperadores, um caminho direto para o nihilismo, a resignação, a submissão, a apatia e a indiferença. Uma vez que a vida não tem sentido, não existe céu e cada homem vai  desaparecer sem deixar rastros, nosso destino é um destino de insetos.

Fiquei ainda mais amarrado quando, depois de  1945,  comecei a conhecer melhor a personalidade de Camus. Longe de ser resignado, ele era um jovem decidido, sempre pronto a lutar contra a injustiça e a infelicidade. Em 1938, já no jornal Alger Républicain, ele fez uma reportagem memorável sobre a miséria e a indignidade que reinavam no campo da Argélia francesa.

Soube também que, durante a guerra, Camus resistira à ocupação nazista, o que o levou a dirigir após 1945 o melhor jornal nascido do conflito, Combat, no qual escrevia editorias de beleza e força avassaladoras.

Camus jamais aceitou as injustiças e a ferocidade do mundo. Deixou o Partido Comunista ainda antes da guerra e, mais tarde, quando a URSS mostrou seu verdadeiro rosto, rompeu com seu amigo Jean-Paul Sartre. No fim da vida, afastou-se dos amigos intelectuais de esquerda ao adotar uma posição comedida sobre a guerra de independência de sua querida Argélia natal. 

Fica claro que, para Camus, reconhecer o absurdo das coisas não leva de modo algum à resignação ou ao nihilismo. Ele era por demais apaixonado pela vida para desertar da eterna luta dos homens: “O sabor triunfante da vida – eis o verdadeiro Mediterrâneo”. Ao reler O Mito de Sísifo e, mais tarde, O Homem Revoltado, entendi que para ele o absurdo da vida leva na verdade à revolta. A ausência de Deus, deixando o homem responsável por si mesmo, o condena a se revoltar. “Do absurdo à revolta”, dizia Camus.

“Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim em si, mas apenas um começo.” O caminho é claro: “Uma vez libertado do Eterno, o homem passa a agir”. E mais: “A revolta é um perpétuo confronto do homem com sua obscuridade. É a exigência de uma transparência impossível”. E Camus termina por substitur o cogito de Descartes (“Penso (cogito), logo existo”) por outro cogito: “Eu me revolto, logo existo”.        

Longe de levar à desgraça e à desordem, o absurdo da vida promove no homem “uma liberdade profunda”. O homem absurdo cria um mundo do qual se torna senhor. Essa é a lição de Sísifo, o próprio modelo de heroi absurdo. Para Camus, “é preciso imaginar Sísifo feliz”.   

Esse sabor inflexível da alegria Camus pôs em sua juventude na Argélia, da qual fala com fervor em seus ensaios (Noces, L’Envers et L’Endroit...). É um sabor que aparece no brilho do sol, nas falésias vermelhas, na água suave e brutal do mar, nos amigos, na sensualidade, nos excessos. O rapaz nascido numa família digna e infinitamente pobre (a mãe era analfabeta) moldou o próprio destino. Nos anos 1930, o jovem Camus flanava nas tardes com os amigos pelas ruas ensombreadas de Argel. Era um rapaz da moda, muito bonito, cobiçado pelas mulheres (às quais também se rendia...).

Jamais perdeu essa queda pelas mulheres. Mais tarde, já famoso e conhecido nos teatros parisienses, nos quais montava e dirigia as próprias peças (Calígula, Os PossessosRequiem pour une nonne...), jovens comediantes eram um derivativo no amor real que tinha pela esposa, Francine, uma francesa da Argélia, como ele: a esplêndida Marie Casarès, a doce Catherine Sellers...

Se abro aqui parênteses para essas mulheres não é para falar de alcova. É que para esse homem rigoroso, altamente consciente que foi Albert Camus, s sensualidade e o amor tinham uma atração de mistério. Ele, que por toda a vida esteve em guerra contra a injustiça, a dominação, a mentira, a traição, não parecia constrangido de,  enquanto defendia a moral mais intransigente,  tomar certas liberdades diante de sua esposa. Ou talvez eu tenha lido depressa demais livros como O Mito de Sísifo ou O Homem Revoltado, nos quais sem dúvida se esconde alguma frase  disfarçada, silenciosa, que nos dê o significado filosófico dessas escapadas amorosas.

Já a longa e gloriosa trajetória de Albert Camus é melhor conhecida - seu trabalho de consultor para o grande editor Gallimard, suas viagens (esteve no Brasil em 1949), a consagração universal do Prêmio Nobel, em 1957. E, principalmente, seu combate ao comunismo e à URSS.

Seus últimos anos foram assombrados pela guerra de independência da Argélia. Durante longo tempo ele apoiou a rebelião argelina, mas, no final, não suportou ver os franceses da Argélia denunciados como opressores, nem aceitou as atrocidades dos independentistas argelinos. 

Viveu então um duplo martírio. Primeiro, por uma contradição: o homem que denunciava o colonialismo em 1938 podia naquela altura condenar a revolta argelina? Ele assumia: “Estão jogando bombas nos bondes de Argel. Se justiça for isso, prefiro minha mãe”. Depois, pela dor suplementar: os intelectuais de esquerda, que constituíam sua família, deram-lhe as costas. 

Numa visita panorâmica (e pessoal, admito) à obra de Camus, tenho a lamentar que geralmente se dê mais importância ao filósofo que ao romancista. No campo estrito das ideias, ele não possuía a força e a verve dialética de seu antigo companheiro Jean-Paul Sartre – embora seja também  verdade que no final da vida Sartre tenha se iludido com Cuba, Fidel Castro e a URSS, enquanto Camus se mantinha lúcido e inflexível. 

Sem desmerecer a obra teórica de Camus (também maravilhosamente escrita), prefiro sua ficção, seus romancees, seus ensaios líricos sobre a Argélia – como o texto falando da cidade de Tipaza, de uma beleza ensolarada. Entre os romances, existe para mim uma obra-prima absoluta, que atravessou os anos impassível e intacta: O Estrangeiro. Gosto menos de A Peste, mas óbvio, encharcado de humanismo e meio piegas. Reencontro o grande Camus em dois outros textos – A Queda, romance extemporâneo, e O Primeiro Homem, obra póstuma que começa com a frase “Em suma, vou falar daqueles que eu amava”. Acrescento que, para mim, os editoriais que ele escreveu depois de 1945 em Combat estão à altura de sua melhor prosa.

Em 4 de janeiro de 1960, Camus vinha da Provença para Paris, num carro dirigido por Michel Gallimard, sobrinho de Gaston Gallimard. O carro saiu da estrada e bateu numa árvore, a 180 km/h. Os dois morreram. Camus tinha 46 anos. 

 

Camus e o Brasi. Eis  um momento pouco conhecido da vida de Camus:

Pouco antes da guerra, Jorge Amado lançou Jubiabá. André Malraux mandou publicar o livro pela Gallimard. Mas o mundo estava à beira da guerra e Amado era desconhecido na França. O  livro passou despercebido, quase num silêncio total. Mas um jovem chamado Albert Camus se entusiasmou e escreveu no jornal Alger Républicain: “É um livro magnífico, deslumbrante. Se é verdade que o romance antecede a ação, este é um modelo do gênero. Vê-se claramente o que pode haver de fecundo numa barbárie livremente consentida. Talvez se deva ler Jubiabá ao mesmo tempo que, por exemplo, o último romance do francês Jean Giraudoux, Choix les élus - livro que representa uma tradição da literatura francesa, o gênero ‘produto superior da civilização’. A comparação com Amado é irresistível”.

Era um belo estímulo para o jovem Amado, compará-lo a Jean Giraudoux, o escritor mais refinado da França, e até colocá-lo acima de Giraudoux. Coisa para mexer com a cabeça do jovem Amado na Bahia! A guerra, porém, havia dividido o mundo em dois e só depois de 50 anos um amigo de Camus, Roger Grenier, mandaria o artigo para Amado. 

Sem se conhecerem e distantes um do outro,  dois jovens de certa forma dialogam e se apoiam.  Um se tornaria um grande escritor brasileiro. O outro ganharia o Prêmio Nobel de Literatura. / Tradução de Roberto Muniz 

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