Pronto-socorro da informação

Com tantas e frequentes revisões históricas, fiar-se só nos livros pode ser roubada. Aí é que entra a Wikipedia

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2010 | 23h18

Só nos últimos dez dias fomos informados de que o faraó Tutancâmon morreu de malária e o filósofo René Descartes foi envenenado por um padre, que as pirâmides do Egito afinal não foram construídas com trabalho escravo e o homem singra os mares há muito mais tempo (e 70 mil anos é muito tempo) do que se acreditava. Quatro revisões históricas no espaço de 240 horas, um recorde.

Schopenhauer não exagerou ao comparar Clio, a musa da memória e, por extensão, da história, a uma prostituta com sífilis. Seus treponemas seriam as mentiras perpetuadas pelos historiadores. Desde Heródoto.

Tido como "o pai da história", Heródoto não tinha o hábito de filtrar as ocorrências que lhe chegavam aos ouvidos, inventava discursos persas, plagiava documentos alheios e passou adiante um punhado de lorotas. Antigamente também a história era oral, e como quem conta um conto aumenta um ponto, precavido foi aquele (Homero? Hesíodo?) que à arte de documentar e narrar fatos reais deu o nome de "historia", que em grego quer dizer investigação. Foram necessários 25 séculos de investigação para se descobrir que Platão romanceara um pouco o suicídio compulsório de Sócrates, provavelmente por ter sido o único dos discípulos do mestre a não presenciar sua agonia.

Tutancâmon já havia morrido de tuberculose (suspeita levantada em 1925), de hemorragia cerebral (detectada por um exame de raio X, em 1968), mas, após dois anos submetendo sua múmia à sutileza tridimensional de uma tomografia computadorizada e a análises de DNA, cientistas descobriram que o jovem faraó quase certamente sucumbiu à malária, agravada por uma fratura na perna. Outra descoberta possibilitada pelo exame de DNA: Tutancâmon tinha o sangue "enfraquecido"; parecia até um monarca Habsburgo de tão fisicamente degenerado pela quase incestuosa consanguinidade de seus ancestrais.

Quanto às pirâmides, Heródoto induziu todo mundo ao erro ao identificar como escravos os operários que ergueram os mausoléus de Giza. Uma dúzia de esqueletos, exumados de uma tumba próxima às pirâmides, na década passada, e desde então estudados por uma equipe de egiptólogos, revelou que nenhum deles era escravo, e sim trabalhadores experientes, de origem humilde, mas assalariados. Se fossem escravos, não teriam sido enterrados em lugar tão privilegiado. Cerca de 10 mil levavam 30 anos construindo uma pirâmide. Heródoto contabilizou 100 mil homens, um exagero de proporções hollywoodianas. O cineasta Howard Hawks e seu roteirista, William Faulkner, embarcaram nessa no épico Terra dos Faraós. Não leve o filme mais a sério como documento histórico.

A "nova morte" de Descartes acaba de ser revelada num livro do alemão Theodor Ebert, da Universidade de Erlangen. Até então acreditava-se que o "pai do racionalismo" morrera das consequências de uma pneumonia, no inverno de 1650. Ao cabo de uma perseverante pesquisa, Ebert concluiu: Descartes parou de pensar (e, por conseguinte, de existir) depois de ingerir arsênico, injetado numa hóstia oferecida por Jacques Viogué, missionário católico, então paroquiando em Estocolmo. Viogué temia que a rainha Cristina, monarca luterana da Suécia, desistisse de converter-se ao catolicismo seduzida pela lábia do anticlerical filósofo francês, seu principal mentor. Inútil delito. A rainha afinal se converteu e abdicou do trono.

Nos livros de história e nas enciclopédias, a causa mortis de Descartes continua sendo pneumonia e a de Tutancâmon, três ou quatro ziquiziras, menos malária; a navegação teria começado no Mediterrâneo há 130 mil anos, 70 mil anos antes da travessia do homo sapiens para a Austrália - e, se não pararmos por aqui, iremos longe com exemplos similares. Sempre escrita errado, acumulando invencionices (queixou-se Voltaire), a história sempre carece de uma revisão (constatou George Santayana).

Numa dessas revisões, Nero parou de tocar lira enquanto Roma pegava fogo. Noutra, Cleópatra deixou de ser bonita. Noutra, a Grande Depressão superou o Tratado de Versalhes como o maior aliado da ascensão do nazismo na Alemanha. Mas ainda não houve jeito de convencer os americanos de que os irmãos Wright não inventaram o avião. E se nenhuma providência for tomada, Lula ainda entrará para a história como o presidente que acabou com a inflação no Brasil - e construiu Brasília.

Fiar-se unicamente nos registros analógicos (livros e enciclopédias impressos) pode ser uma roubada. Muitos deles já chegam às estantes desatualizados, obsoletos, superados por uma descoberta recentíssima. Com tantas e tão constantes revisões históricas, ficamos ainda mais à mercê do registro digital, da história em constante atualização on-line, viramos vassalos da Wikipedia, a enciclopédia da internet. É um caminho sem volta; relaxe e aproveite.

Ruim com ela (os verbetes das enciclopédias tradicionais, da lavra exclusiva de especialistas, são mais confiáveis que os da Wikipedia), pior sem ela. Antes, quando não havia alternativa imediata para a desatualização, ou seja, quando não havia internet, apenas meia dúzia de experts, se tanto, tomava logo conhecimento de certas novidades históricas e científicas, que nem pelos jornais circulavam. O imediatismo não é tudo, mas a difusão do saber é um valor em si.

Muito ainda se discute se a internet de fato democratiza o saber ou apenas nos entope de informações, a maioria irrelevante e inútil. Sabendo usá-las, metabolizando direito os seus nutrientes, qualquer um poderá tornar-se um nerd epistemológico. A Wikipedia é um serviço humanitário, a Cruz Vermelha da informação, o socorro urgente de todas as ignorâncias, com a vantagem de ser monitorada por mais olhos do que tinha o dr. Mabuse, razão pela qual seus cochilos costumam ser corrigidos em questão de horas ou minutos.

Mas não custa prevenir contra suas mancadas. Umberto Eco confessou googlar a Wikipedia com mais frequência do que consulta alfarrábios, caprichando ao máximo na filtragem, confrontando cada nova informação com outras fontes on-line. Como recomendava Stendhal, "nunca se esqueça de desconfiar".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.