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Qualé, Kal-El?

De origem nietzschiana, o Homem de Aço ficou careta, enfadonho. Um filme novo vem aí. E ele nunca pareceu tão deslocado e infeliz

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Sérgio Augusto,
O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2016 | 16h00

Vai longe o tempo em que Superman era o ser vivo mais poderoso sobre a face da Terra, o primus inter pares na mitologia dos quadrinhos – cronologicamente inclusive – e durante pelo menos dois anos o único super-herói capaz de voar. No início o chamavam aqui de Super-Homem, Lois Lane atendia pelo nome de Miriam Lane, e Clark Kent chegou a ser identificado como Edu nas tiras diárias do jornal O Globo. Ainda era (e por muito tempo foi) apenas vulnerável aos eflúvios maléficos da kryptonita. Fragilizado por outros quebrantos não minerais, perdeu a supremacia, andou sumido e, embora imortal, até já morreu.

O que diabos aconteceu com o Homem de Aço?, perguntam-se, perplexos, os ratos de gibi. Em sua nova aparição na tela, Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, que estreia mundialmente em 24 de março, ele é o segundo nome do elenco. A julgar pelo trailer, carrega nas costas todas as culpas do mundo. Sua popularidade despencou nos últimos anos. Seus quadrinhos venderam apenas 55 mil exemplares mensais em 2015, contra 150 mil do Batman. Suas aventuras televisivas mais recentes não emplacaram.

Até seu nome virou uma espécie de kryptonita onomástica. Domingo passado, Cam Newton, zagueiro dos Carolina Panthers, mais conhecido pelo apelido de Superman, não conseguiu superar a defesa dos Denver Broncos, e perdeu o Super Bowl (a decisão do campeonato nacional de futebol americano) deste ano.

Quase ninguém parece importar-se muito com o destino do Fantasma (que, diga-se, só foi “voador” nas páginas do Correio Universal, por uma licença poética da tradutora brasileira), do Mandrake, do Capitão Marvel, etc., mas Superman é o supremo avatar, uma divindade messiânica de origem nietzschiana e ressonâncias bíblicas (Moisés foi achado nas águas do Nilo, Kal-El, o futuro Clark Kent, dentro de um foguete vindo de Krypton e aterrissado em Pequenópolis), a materialização dos sonhos e aspirações dos mais frágeis mortais bolada por dois jovens de origem judaica, Joe Shuster e Jerry Siegel. Não tinha como não calar fundo na psique da América pós-Depressão.

Em seus áureos tempos, o justiceiro de Metrópolis, além de capturar a arraia-miúda da bandidagem urbana, trolar Lois Lane e enfrentar o arquivilão Lex Luthor, ajudou a combater a Ku Klux Klan e as tropas de Hitler. Aos poucos, acomodou-se. “Parou no tempo”, apontam antigos admiradores. “Encaretou demais”, picham os aficionados mais jovens, que também já o tacharam de “enfadonho”, “patético” e coisas piores – de “fascista”, por exemplo. “Um fascista do bem, que defende os humildes e ofendidos, um fascista à americana, com um S no lugar da suástica”, especificou o colunista canadense da revista Esquire Stephen Marche.

Quando Clark Kent optou pelo jornalismo, ganhar a vida como repórter era tão ou mais glamouroso e socialmente relevante do que ser um paladino da justiça – e o mercado de trabalho em jornais e revistas mais abundante, diversificado e seguro. Agora é tarde para mudar de profissão, embora Kent já devesse ter pensado numa alternativa ao terno sob o qual se disfarça, pois desde a desativação das cabines públicas de telefone ficou sem um canto adequado para tirar a roupa.

O primeiro baque ocorreu no começo dos anos 1960, quando a Marvel, concorrente da DC Comics (detentora dos direitos de Superman), lançou o encucado Homem-Aranha, um super-homem aracnídeo, criado a quatro mãos por Steve Dikto e Stan Lee. Cópia ou variante do Capitão América, outra vítima e beneficiária de uma barbeiragem laboratorial, o Homem-Aranha nasceu bem mais afinado do que o Superman com o espírito e as aflições do pós-guerra.

Em 1970, a DC tirou da Marvel Jack Kirby, “pai” do Capitão América, e entregou-lhe a missão de reinventar o Homem de Aço, torná-lo mais complexo, contemporâneo, mas nada aconteceu. O charmoso filme que ao super-herói dedicou Richard Donner, em 1978, com o escritor Mario Puzzo colaborando no roteiro e o encantador Christopher Reeve no papel principal, não gerou prole fecunda. Sete anos mais tarde, John Byrne atualizou Lex Luthor à vilania corporativa, transformando-o num protótipo de Gordon Gekko e Bernard Madoff, mas a pasmaceira de Superman continuou a mesma.

Àquela altura, a clientela dos quadrinhos não comprava nem trocava mais gibis em bancas de jornais e sim em livrarias especializadas, pontos de venda mais aconchegantes e aglutinadores. Na busca por leitores adultos, apelou-se para tudo. Casaram Kent com Lois, mataram e ressuscitaram Superman, sem o retorno esperado. Desde meados dos anos 1980 que, pelas mãos de Frank Miller, o universo dos quadrinhos mudara radicalmente de rumo. Batman, alcunhado de O Cavaleiro das Trevas, foi o profeta de uma nova geração de heróis problemáticos, que deixaram o Homem de Aço comendo poeira, reduzido a um paspalhão deprimido a serviço da espionagem americana – logo no governo Ronald Reagan.

No trailer de Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, ele nem sequer esboça um sorrisinho, nunca me pareceu tão deslocado e infeliz. E por motivos aparentemente não superáveis por uma recarga de bateria na Fortaleza da Solidão.

Tem jeito? Tem. Atualizá-lo aos problemas e conflitos mais relevantes da atualidade talvez seja uma saída. Vindo de outro planeta, de imigração ele entende. De ondas gravitacionais e demais mistérios da física e da astronomia, também. Hoje mais hecatombes naturais ocorrem mundo afora do que na época em que Metrópolis só dispunha de O Planeta Diário para manter-se informada. Noves fora o terrorismo, a crescente violência policial e Kim Jong-un, o Hitlerzinho do momento.

Greg Pak, atual roteirista de suas peripécias, prometeu transformá-lo num vigilante socialmente consciente. Se superar as hesitações da DC Comics, poderá nos brindar com um novo Zaratustra alado, evitando assim que no futuro, ao olhar para o céu, os habitantes de Metrópolis e Gotham City não vejam apenas pássaros, aviões, drones e Aedes aegyptis.

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