Doug Wheeler/Guggenheim Museum
Doug Wheeler/Guggenheim Museum

Quanto silêncio é demasiado? Eu descobri

Instalação de artista Doug Wheeler expõe público a silêncio quase absoluto

Daniel McDermon, The New York Times

15 Abril 2017 | 16h00

Este não está parecendo um bom ano para o silêncio. Onde quer que você vá, o mundo estrondeia em atualizações, alertas e urgência.

Mas existe um alívio temporário: uma sala de um silêncio mortal no topo do Museu Guggenheim, uma obra projetada pelo artista Doug Wheeler e conhecida como PSAD Synthetic Desert III, inaugurada em maio.

O interior da sala é revestido com um material que abafa o ruído o suficiente para torná-la, provavelmente, o lugar mais silencioso em que você já entrou, a menos que seja um astronauta ou engenheiro de som. Visitantes com ingressos programados podem entrar em grupos de cinco por 10 a 20 minutos. A exposição será encerrada em 12 de abril.

Mas silêncio em excesso pode ser incômodo. Como EWheeler disse a meu colega Randy Kennedy, “Numa câmara à prova de ecos, supersilenciosa, o máximo que a maioria das pessoas consegue suportar é cerca de 40 minutos antes de começar a ficar maluca”.

Não é para me vangloriar, mas eu moro perto da esquina das avenidas Flatbush e Atlantic, num quarteirão com um posto do Corpo de Bombeiros e uma delegacia de polícia rodeado por projetos de construção de grande porte. Meus filhos têm 1, 4 e 6 anos. Quarenta minutos? Eu pedi uma hora.

Aqui eu devo reconhecer que Synthetic Desert não tem um silêncio “enlouquecedor”. Câmaras à prova de eco são espaços sem eco surreais com níveis de ruído abaixo do limiar da audição humana. Wheeler estimou que sua criação seria capaz de atingir um nível da ordem de 10 decibéis. O ruído do cubículo que é o meu escritório (relativamente silencioso) alcança cerca de 50 decibéis.

Penetrar em Synthetic Desert é como entrar numa cripta. Há uma série de portas, e a câmara final parece pressurizada, o ar é parado e denso.

Eu subi por uma rampa para o silêncio e esperei para nada acontecer. Cada movimento fazia ruído, por isso desisti de tentar encontrar uma posição em pé confortável e me sentei.

Concentrei a atenção na sala, que evoca a luz de antes do alvorecer, com uma nesga de céu pintada na parede e no teto. Nenhum limite era visível entre os dois, e não havia nenhum horizonte ou ponto de referência distante.

Privados de estímulos, meus ouvidos logo ficaram ávidos, e rapidamente se recalibraram. Eu podia ouvir um rugido alto, rarefeito, dentro da minha cabeça. John Cage disse, certa vez, que este era o som do sistema nervoso funcionando.

Olhar para o espaço aparentemente infinito por algum tempo teve um efeito parecido sobre a minha visão. Meus olhos descobriram, ou inventaram alguma distração: as cores da sala se separaram de púrpura em azuis e rosas.

Tentei acalmar minhas respirações, e cheguei ao ponto em que não estava seguro se as ouvia ou sentia, ou se havia alguma diferença. Os sinais nervosos de uma dor no meu pé pareciam verdadeiros ruídos, que gradualmente se amplificavam para um grito inaudível e me faziam mudar de posição. O som de minhas pernas se deslocando vinham de longe.

Acho que isso foi depois de 20 minutos lá dentro. Para preservar o design luminoso de Wheeler, não eram permitidos celulares ou câmeras, e  consultar um relógio estava decididamente fora de questão.

Um som baixo – talvez de sangue escoando por meus vasos, ou quem sabe parte do áudio que Wheeler sutilmente incorporara em seu design – se destacou. Descobri que podia sintonizar minha audição para longe dele, porém, e comecei a ouvir outras coisas – “ruídos” não é a palavra certa. Eram tão suaves que eu mal poderia dizer que eram reais: um vento soprando no lado distante de uma montanha; um jato voando muito acima de outro continente.

Por volta da marca dos 30 minutos, a luz que brilhava por baixo dos cones acústicos no piso se intrometeu em minha visão, seu padrão pontiagudo parecendo subir pela parede.

A sala estava inalterada, mas meus sentidos estavam operando independentemente de minha mente. Eu observava padrões coloridos se desenrolarem pela parede: uma alucinação, talvez, ou algum processo neurológico no qual eu normalmente não repararia, uma atualização do software corporal.

Num recinto tão silencioso, um corpo explode de vida, jorrando-a por cada sentido. Eu me sentia enlevado e paralisado como se fosse uma mente desencarnada ardendo no vazio, ouvindo uma gravação de silêncio tocada no volume máximo.

Aí uma porta se abriu, e um homem enfiou a cabeça por ela, um trabalhador do museu que havia chegado antes da hora.

Eu não consegui focá-lo, e pensei que ele podia ser irreal. Ele parecia impreciso, depois fechou a porta e a trancou. Os sons chegaram até mim como se através de um túnel.

A intensidade da sala, que havia crescido tão lentamente, se dissipou rapidamente depois disso, como uma câmara de vácuo deslacrada. Em dois minutos mais eu permaneci, e saí.

Tempo decorrido: 50 minutos.

Na rua, tudo parecia mais ruidoso, o que não foi surpresa. É tudo superfícies duras e reverberação, concreto e carros. Mas eu podia articular cada parte do panorama sonoro da cidade.

Captei três conversas simultâneas no trem Nº 5, junto com o amassado de um papel de bala e o som diminuindo das rodas sobre os trilhos. O alto-falante roufenho numa plataforma do metrô grunhiu, mais áspero do que antes. Todo o mundo, eu inclusive, carregava algum dispositivo que gotejava som.

Andando pela calçada, tive uma porção de visões engraçadas. Percebi que estava boquiaberto. E estava enxergando demais./Tradução de Celso Paciornik

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