Que medo eu senti!

Crianças francesas descreveram 70 anos atrás o horror de um massacre nazista

Jamil Chade / BERNEX, FRANÇA, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 16h00

 “Ontem pela manhã, ao vir para a escola com meus colegas…” Pelas primeiras linhas, essa redação poderia ser apenas mais uma entre as dezenas que um aluno de um colégio primário faz durante um ano. Mas, no dia 18 de dezembro de 1943, no pequeno vilarejo alpino de Bernex, na região do Haut Savoie, França, os temas das redações das crianças eram outros: a ocupação nazista e o fato de que, um dia antes, soldados alemães haviam passado pelo local e promovido um massacre. 

O drama de Bernex foi mais um entre tantos da 2ª Guerra Mundial. Mas as redações, que haviam sido esquecidas na casa de uma das professores e agora são tornadas públicas, revelam como crimes contra a humanidade são vistos e interpretados pelos olhos infantis. Os autores dos textos tinham entre 10 e 12 anos e, naquele dia, a inocência havia sido rompida à base de tiros e execuções diante de seus olhos. 

Em 2014, a França comemora 70 anos de libertação da ocupação nazista, em eventos sequestrados por políticos locais e na esperança de promover uma espécie de reconciliação nacional num país hoje dividido e em crise. A região dos Alpes foi a última da França a entrar em guerra e, na prática, as execuções e barbáries apenas chegaram nos últimos meses do conflito. De difícil acesso, os vales alpinos se transformaram em um campo de batalha diferenciado, com neve, onde sobreviveria quem não apenas tinha uma arma, mas um esqui. Grutas pelas montanhas se transformaram em depósitos de armas e picos viraram verdadeiros fortes. 

Bernex, que na época tinha apenas 450 habitantes, nas proximidades de Evian, era o quartel-general da resistência nos Alpes. Sua destruição, portanto, era estratégica para os alemães. O vilarejo das montanhas nevadas faria ainda parte da obra que serve de referência entre historiadores sobre as batalhas nos Alpes. Em 'O Sangue da Barbárie', o historiador Michel Germain relata que, ainda na madrugada de 17 de dezembro, 30 caminhões com 800 soldados alemães chegaram a Bernex, que foi imediatamente cercada. Joseph Buttay e a mulher, donos do único hotel, iniciariam a queima de dezenas de papéis guardados no local por membros da resistência escondidos nas montanhas. 

Os combates começariam as 8 da manhã. Poucos minutos depois, pelo menos cinco resistentes já estavam mortos, segundo os relatos das crianças. Toda a população foi reunida e colocada diante do pequeno prédio da prefeitura, enquanto os tiros e explosões continuavam e um grande incêndio tomava conta do vilarejo. No início da tarde, os nazistas trouxeram para a praça pública mais quatro resistentes e os executaram diante de toda a população, numa espécie de advertência. 

A guerra continuaria nos arredores de Bernex em escala bem maior, no que seria o início da batalha final pelo controle dos Alpes. Naquela noite, o estado-maior alemão divulgaria um comunicado relatando o ocorrido no vilarejo. “Bernex era o quartel-general da resistência no Chablais”, disse o comunicado, comemorando o impacto da ofensiva na organização da resistência. “Depois do ataque, os refratários franceses desceram em grande número da montanha. Um encontro entre 300 deles e 200 alemães ocorreu. Uma batalha ainda tomou Trossy, perto de Bernex. Há mortos e inúmeros feridos de ambas as partes.” 

Aos olhos das crianças de Bernex, porém, a estratégia militar era o que menos importava. “Tive medo. Tampei os ouvidos”, escreveu uma delas. As redações foram feitas no dia seguinte, numa decisão da escola local de permitir que os alunos que haviam presenciado as mortes e as batalhas pudessem desabafar. Algumas estão assinadas, outras, não. Todas com uma caligrafia esforçada, ainda que erros de ortografia e gramática estivessem presentes. 

“Da escola, vi cinco jovens com as mãos para cima diante da prefeitura e com as cabeças viradas para a parede”, disse uma aluna. Ela concluiu, num esforço de análise: “Minhas reflexões: o que aconteceu é uma grande desgraça e espero que os alemães não voltem mais”. 

Outra redação relata os horrores vividos pelas crianças e o sentimento de ódio. O aluno Andrée Buttay conta como os alemães levaram prisioneiros para um campo, tiraram suas roupas e os fuzilaram. “Dentro de mim, penso que os alemães são cruéis, assassinos. Que será que eles diriam se matássemos um deles?” 

“Eu sempre pensarei que os alemães são brutos como animais, já que matam jovens franceses que não querem trabalhar na Alemanha para prolongar a guerra”, declarou outro garoto em sua redação. Cheios de detalhes sobre os uniformes usados pelos alemães, os textos também revelam a necessidade das crianças de apelarem para os pais, em busca de proteção ou na tentativa de entender o que estava acontecendo. 

O impacto psicológico sobre as crianças fica claro nos relatos. “Fiquei branca”, escreveu uma aluna, descrevendo o que sentiu ao saber da presença dos alemães. “Não conseguia correr.” A garota conta como os soldados entraram em sua casa em busca de combatentes da resistência: “Eles olharam até de baixo da cama”. 

Outra aluna diz que, quando viu resistentes sendo executados, começou a chorar. “Como tive medo!”, admitiu. Ela conta que, no mesmo dia, foi ver os cadáveres. “Meu Deus, foi triste.” 

Quase todos os alunos, ainda que com diferentes visões da guerra, concluíam com a palavra “tristeza”. “Ontem tive um dia ruim”, escreveu um. “Fiquei com medo, fiquei com pena das pobres pessoas mortas. Eu estava triste.” 

“Nunca mais vou me esquecer desse dia tão triste”, afirmou outro redator, numa espécie de transcrição em linguagem infantil do tom que predominou entre a liderança política europeia na reconstrução de um novo continente. A infância de muitas crianças de Bernex havia sido sequestrada naquele dia. 

Se foram justamente os horrores da 2ª Guerra que abalaram toda uma geração, hoje especialistas apontam que o conflito e o fato de ele ter tocado a população civil permitiu novos estudos sobre a psicologia das crianças. Anna Freud, filha mais nova de Sigmund Freud, acabaria tendo um papel fundamental. Refugiada em Londres depois da invasão de Adolf Hitler à Áustria, Anna organizou um centro de acolhimento para crianças e jovens vítimas da guerra. The Hampstead War Nursery mudaria a percepção dos especialistas sobre a importância das relações entre filhos e pais. 

Baseada em suas observações sobre o impacto da guerra nas crianças, ela publicaria, com Dorothy Tiffany-Burlingham, estudos que marcaram uma reviravolta na avaliação sobre a afetividade e a infância. No fundo, a tese era simples: crianças também sofrem o trauma de uma guerra e as consequências dessa realidade precisam ser avaliadas e consideradas. Esse trauma é visível em cada linha de cada redação da crianças do colégio de Bernex.

Parte dessas descobertas acabariam se refletindo nos acordos diplomáticos fechados depois da guerra. Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, negociadores conseguiram incluir o artigo 25, que reconhece que mulheres e crianças precisam ter uma assistência especial, e menores têm direito a proteção social. 

Setenta anos depois, a ONU dedica parte de seu trabalho em conflitos armados a tentar recuperar a infância destruída pelas bombas. Em campos de refugiados, a ordem é sempre de distribuir bolas e enviar batalhões de psicólogos. “É da próxima geração que estamos cuidando”, declarou Pernille Ironside, chefe do escritório da Unicef em Gaza. Ela estima que mais de 100 mil crianças de Gaza precisam de apoio psicológico depois do recente conflito e de sete anos de bloqueio do território. “Não existe uma só família que não tenha sido afetada e não há como não pensar que isso poderá levar a tendências mais extremistas por parte da nova geração”, concluiu.

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