Quem é o dono da Rússia?

Quem é o dono da Rússia?

Na cleptocracia próxima a Vladimir Putin 110 pessoas controlam 35% da riqueza russa, diz livro de cientista política

Entrevista com

Karen Dawisha

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2014 | 16h00

Quando o governo dos Estados Unidos anunciou as duas primeiras rodadas de sanções à Rússia pela invasão da Ucrânia e a anexação da Crimeia, no primeiro semestre, a lista com alguns nomes desconhecidos no Ocidente não surpreendeu a cientista política Karen Dawisha. Ela acaba de lançar Putin’s Kleptocracy: Who Owns Russia? (A cleptocracia de Putin: quem é dono da Rússia?). O livro saiu pela editora nova-iorquina Simon & Schuster, depois de ter a publicação cancelada em abril pela Cambridge University Press, temerosa de ser arrastada, sob as severas leis de difamação britânicas, por ações judiciais de poderosos oligarcas do círculo do presidente russo. É um grupo que ajudou a transformar a Rússia na campeã de desigualdade de renda entre os Brics e outras economias emergentes - 110 pessoas controlam 35% da riqueza do país - e na 127ª economia mais corrupta do mundo, numa lista de 177 feita pela ONG Transparência Internacional. Um grupo que não teria sucesso sem a cumplicidade de democracias ocidentais que, além de fechar os olhos para a corrupção nas transações com os oligarcas, abrigaram de bom grado frutos financeiros do tesouro russo.

Karen Dawisha dirige o Centro Havighurst de Estudos Russos e Pós-Soviéticos da Miami University, em Oxford, Ohio, e seu livro está sendo apontado como o mais completo documento publicado no Ocidente sobre o saque sistemático da Rússia, que os donos do poder hoje começaram ainda nas barbas de Mikhail Gorbachev, às vésperas do colapso da União Soviética. 

A trajetória de Vladimir Vladimirovich Putin de baixo funcionário da KGB na antiga Alemanha Oriental onde, afirma a autora, pedia a membros do grupo terrorista Baader Meinhoff para roubar alto-falantes, a bilionário que, segundo a inteligência norte-americana, tem uma fortuna de mais de US$ 40 bilhões, é uma narrativa que desafia a credulidade. Mas, argumenta Dawisha, não há nada de acidental nesse percurso, como querem muitos acadêmicos que ela critica por manterem o foco excessivo na dificuldade de democratização da Rússia. Do envio de vastas somas do Partido Comunista para o exterior ao completo controle da economia, ela apresenta no livro o que considera provas cabais da existência de um esquema para controlar o acesso à privatização e concentrá-la em poucas mãos, restringir a democracia e restaurar o poder da Rússia - esquema que viria de antes mesmo de Putin obter seu primeiro mandato, numa eleição roubada, diz ela, em 2000. A autora afirma que Putin não se perdeu no caminho para a democracia porque simplesmente nunca tomou esse caminho.

Dawisha reage com sarcasmo às pesquisas que dão 86% de popularidade ao presidente, dizendo: “Logo ele vai passar de 100% de aprovação”. O amplo controle da informação na Rússia, inclusive a criação de falsos canais de oposição, segundo ela, lança dúvida sobre o real descontentamento, que dá sinais de aumentar com a recente deterioração econômica. As somas citadas em Putin’s Kleptocracy são vastas. É um sistema em que a propriedade existe como um direito condicionado à lealdade ao regime, em que empresários veem suas companhias tomadas por estatais controladas por asseclas de Putin sob acusações fabricadas, geralmente associadas a fraude fiscal. Um exemplo conhecido foi a Yukos, de Mikhail Khodorkovski, solto no ano passado depois de dez anos de prisão. A Yukos foi engolida pela gigante do petróleo Gazprom, votada a companhia “mais mal gerida do planeta” pela revista Barron’s. A seguir, trechos da entrevista da professora Dawisha ao Aliás sobre o país que estuda e visita há 40 anos.

Os passos da cleptocracia russa

“Frequento a União Soviética e a Rússia desde os anos 1970. Conheço muita gente, inclusive os que se tornaram desencantados com o país, os novos dissidentes. Alguns tinha se tornado a elite sob Yeltsin e foram expurgados. Conhecia jornalistas, analistas políticos, e eles me apontavam: você está pesquisando na direção errada, tome esta outra. Fiz farto uso de cobertura de jornalistas especialmente no breve período de liberdade de imprensa - e vários morreram para a contar a história. Muitos documentos foram apagados da internet, embora seja difícil sumir com algo depois que entra online. Havia documentos infectados com vírus que provocavam crash no computador. Minha pesquisa para o livro levou mais de sete anos.

Depois das sanções

“Entrevistei ex-membros do governo americano e todos os ex-embaixadores dos EUA e Grã Bretanha na Rússia. Sabia que Washington tinha começado a se interessar pelo assunto já no governo de Yeltsin, em que seus asseclas estavam enriquecendo ilegalmente, mas não sob um plano mestre. As sanções revelam um quem-é-quem no círculo de Putin. A frase mais importante contida nos anúncios do governo americano é: “Vladimir Putin tem ações da Gunvor e pode ter acesso a fundos da empresa”. A Gunvor é a maior comercializadora de petróleo do mundo. Putin nega a conexão, mas a Gunvor não é uma companhia com ações públicas. Foi registrada inicialmente por três proprietários, o sueco Torbjörn Törnqvist, o russo Gennadii Timchenko e um terceiro “em São Petersburgo”. Timchenko vendeu suas ações pouco antes se tornar alvo de sanções americanas, em março.

Bush, Obama e Putin

“Ficou claro para mim, nas entrevistas com gente que formulava política externa aqui e na Inglaterra, que sempre houve tentativa de se priorizar a questão da corrupção. Houve um breve período em que Bush começou a examinar isso. Mas veio o 11 de Setembro e Vladimir Putin passou a ser o aliado contra o terror. Ele nos passava informações sobre rebeldes da Chechênia envolvidos com a Al-Qaeda. Assim, fazíamos o trabalho sujo para ele, como fazemos agora no combate ao Estado Islâmico. Quando Bush já era um “pato manco” em 2006, mencionou cleptocracia numa viagem a São Petersburgo, mas não citou a Rússia especificamente. Já Obama queria acima de tudo, com sua política de reset (‘zerar’), arrancar um acordo de controle de armas estratégicas. Não posso condenar o objetivo de promover estabilidade internacional, mas agora estamos vendo do que Putin é capaz.

O plano mestre do Kremlin em 1999

“Em maio de 2000, antes de Putin tomar posse, o jornal Kommersant publicou, ao longo de três dias, documentos vazados do Kremlin, logo apagados do website do jornal. Eu sei quem foi responsável pelo vazamento e verifiquei a autenticidade dos papéis, intitulados Reforma da Administração do Presidente da Federação Russa. Eles revelam um plano assustador. A partir da posse de Putin, haveria funções secretas para cada divisão do Kremlin. Então, temos a função de fachada, pública, e a função secreta exercida por profissionais da FSB, que substituiu a KGB. Essas funções incluíam suprimir dissidência, criar partidos de oposição leais, ocupar a mídia. O lendário ex-relações públicas de Putin Gleb Pavlovski disse, em 1999, que era necessário “restaurar o hábito da obediência” no povo russo.

O Círculo do Lago

“É um artifício muito simples e consiste em dois esquemas. Há o Banco Rossiya, que depois do colapso da União Soviética passou a ser controlado por amigos de Putin. O Banco não era apenas um veículo de investimento para esse grupo. Era também a conexão com o crime organizado em São Petersburgo, como o mafioso Gennadii Petrov, que chegou a controlar mais de 18% de ações do banco. E há o condomínio fechado na área de São Petersburgo, com suas dachas, seu lago e o campo idílico. A palavra cooperativa é chave, porque a lei das cooperativas foi instituída para outro objetivo por Mikhail Gorbachev. Então, o grupo de Putin usou uma lei do tempo da União Soviética para que ele pudesse ter acesso a fundos depositados em nome da cooperativa.

A impunidade do presidente

“Putin não teria escapado, antes de chegar à presidência, sem o apoio das forças de segurança, desde o começo. Ele foi encarregado do Comitê de Ligação Exterior da prefeitura de São Petersburgo, entre 1991 e 1996. No começo dos anos 1990 a cidade sofria séria crise de abastecimento de comida e óleo para aquecimento. Putin foi investigado em 1992 por autorizar um esquema de troca de matérias-primas por comida no valor de US$ 100 milhões. Só que a comida nunca chegou. Lembro que houve a tentativa de golpe em agosto de 1991. Os derrotados nunca pararam de preparar sua volta. Eles ocuparam postos estratégicos em administrações municipais. Tinham eficácia em seus métodos furtivos, em levantar fundos. Putin passou de funcionário desempregado a presidente em pouco tempo. Quando veio a eleição de 2000, sua primeira, que já foi roubada, o público mal sabia quem era ele.

A riqueza do presidente 

Há uma diferença entre o que ele controla como presidente, como mais de 20 residências, e o que pode ter acumulado secretamente em ações e companhias offshore. Por exemplo, a mansão apelidada de Palácio de Putin, perto de Socchi, está no nome de seu amigo Nikolai Shamalov, mas tem todas as caraterísticas de uma residência oficial e foi construída com desvio de dinheiro de um fundo de hospitais públicos.

Alguém da comunidade de inteligência vazou para o New York Times este ano a estimativa de US$ 40 bilhões sobre a fortuna do presidente, feita em 2008. De lá para cá, é difícil ter diminuído. Num telegrama de 2010 vazado pelo Wikileaks, o embaixador americano em Moscou escreve ao Departamento de Estado que há testemunhas de gente entrando com frequência no Kremlin com guarda-costas e malas de dinheiro. Mas Putin não toca em dinheiro, aliás ele é um legalista. Aceita presentes, como relógios - tem uma coleção avaliada em US$ 700 mil. Um de seus quatro iates, o Olympia, foi presente do bilionário Roman Abramovich. No começo da década de 1990, ele já tinha uma dacha e um apartamento em São Petersburgo, propriedades incompatíveis com seu salário de funcionário público. 

O ‘triângulo de ferro’

“São empresários corruptos, funcionários corruptos no governo e crime organizado investindo na economia global. O Ocidente tem sido cúmplice desse triângulo. Só na City de Londres, as ofertas públicas de ações de quase 70 companhias russas renderam uma média de US$ 300 milhões por ano. As regras de transparência lá eram menos estritas e, para atrair capital russo, a bolsa de Nova York começa a relaxar as próprias regras. Pense que 70% das pensões dos trabalhadores americanos consistem em investimento no mercado de ações. Veja o que aconteceu em 2008: sofremos grandes perdas quando há um crash, quando o valor de ações, por má gerência de companhias, cai. Os trabalhadores da economia globalizada pagam a conta.”

*

Karen Dawisha é cientista política, é diretora do Centro Havighurst de Estudos Russos de Miami University

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.