RONALDO SCHEMIDT | AFP
RONALDO SCHEMIDT | AFP

Quem é o monstro?

Trump tem sido comparado a Frankenstein, espúria criatura que se rebela contra o partido criador. Mas é ele a real aberração, ou a multidão que o apoia?

Ariel Dorfman, O Estado de S.Paulo

27 Março 2016 | 06h00

Quem diabo criou Donald Trump? Para explicar as origens da espantosa candidatura do bilionário de Nova York à presidência, muitos políticos e especialistas remeteram-se frequentemente à figura de Frankenstein, um dos mitos fundamentais da modernidade, a história de um monstro colossal que se rebela contra o cientista seu criador. Esses observadores enfatizam a atmosfera tóxica gerada pelos republicanos ao longo de várias dezenas de anos, e Trump como a encarnação extrema de forças que atiçam as chamas do medo, do racismo e da xenofobia, um monstro espúrio que agora é impossível controlar.

Essa fórmula fácil, essa equação que compara Trump ao monstro e seu partido ao seu criador, embora irrefutável, não nos ajuda a resolver o problema mais urgente de como enfrentar o beligerante bilionário, nem tampouco a frear sua catastrófica corrida para a Casa Branca.

Para tanto, precisaríamos recorrer ao romance Frankenstein, concebido há dois séculos no lúgubre verão de 1816 por uma jovem chamada Mary Shelley, uma leitura que nos permitiria ir além da simplificação à qual sua fábula completa e esclarecida foi apequenada pela cultura popular. Admito ter sucumbido, quando criança, ao prazer dessa simplificação.

Conheci o monstro em 1949 no filme Abbott e Costello Contra os Fantasmas. Tinha sete anos de idade na época; lembro que segurei firmemente a mão de minha mãe durante todo o trajeto de volta do cinema, em Manhattan, até a nossa casa no bairro de Queens, onde morava também Donald Trump, que acabara de completar três anos. Imagino que Trump teria nocauteado o gigante cadavérico com um soco na cara, só para citar uma das fanfarronadas que ele profere contra os que protestam em seus comícios, mas confesso que eu tremia de medo. Embora ao mesmo tempo estivesse fascinado, decidido a vencer minha apreensão com visitas às suas múltiplas representações, desde Frankenstein, a versão cinematográfica de James Whale, até A Noiva de Frankenstein e O Filho de Frankenstein, e inclusive O Fantasma de Frankenstein, em que Lon Chaney substituiu o eterno Boris Karloff.

Minha mãe não se importava em me acompanhar a todos esses espetáculos, desde que eu prometesse que, no futuro, leria o romance original, onde iria descobrir que Frankenstein, como ela explicitava, “não é o monstro; o monstro é o gênio arrogante que o inventou. E isso vai despertar em você dúvidas que não será fácil solucionar”. E, de fato, ao beber dessa fonte na tardia adolescência, fui atormentado por uma pergunta que deve ter assombrado Mary Shelley quando, ao passar as férias numa mansão suíça, com Lord Byron e seu futuro marido, Percy Bysshe Shelley, começou a escrever Frankenstein: quem é o verdadeiro monstro, a criatura disforme que, contra sua vontade, adquire vida, ou o seu criador excessivamente ambicioso?

Voltar a fazer hoje essa pergunta angustiante nos permite aprofundar o que é realmente aterrador no surgimento de Trump: o fato de legiões de cidadãos votarem num homem que se nutre do medo e tripudia com a tortura e com as deportações maciças. Sem essas multidões perturbadoras que projetam sobre ele suas incertezas, pesadelos e desejos, Trump não existiria. Os verdadeiros monstros não serão os homens e mulheres encantados com seu carisma e beligerância, sua incessante celebração da avareza e do machismo?

A tentação de construir um muro imenso ao redor desses inimigos, afastando-os de nossa vida e de nossa vista, frequentemente é avassaladora. Com mais razão é preciso ter o cuidado de não imitar os seguidores de Trump, degradando-os e demonizando-os como se fossem uma horda maligna de invasores.

É precisamente essa desumanização do Outro que o romance de Mary Shelley critica. Embora a maioria das versões cinematográficas emudeça o monstro, no livro, ele tem uma alma frágil e desesperançada, capaz de articular sua solidão, exigindo que não o julguemos por seu exterior disforme. Estarei delirando, sendo demasiado ingênuo por sugerir que o que devemos sentir diante dos partidários de Trump é antes pena e compaixão? Deixando de lado os violentos e irredimíveis fanáticos neonazistas que ocupam as margens do movimento, acaso a imensa maioria dos que votam em Trump não residirá numa desolação existencial que pode ser sintetizada na epígrafe de Paraíso Perdido, de Milton, citada na primeira página de Frankenstein, a invocação de Adão ao Deus que o criou: “Acaso Te pedi/ Que da escuridão me tirasses?”

É possível que suas hostes tenham criado Trump e alimentado sua revolta, mas, que Deus desprovido de misericórdia as terá erguido da escuridão, fazendo com que se sentissem tão desamparadas e indefesas, tão raivosas e angustiadas pela crise econômica, a ponto de precisarem endeusar um demagogo que apela para seus instintos mais vis e se serve da tristeza e da insegurança alheias para aumentar o seu poder?

Ainda que Trump termine finalmente derrotado, esses cidadãos confusos irão permanecer por muito tempo entre nós. São eles que constituem o verdadeiro desafio. Se a zona mais obscura da história americana lhes deu origem, estimulando seu anseio por um super-homem como Trump que os salvaria, teria de ser então a parte mais luminosa desta América que, após olhar-se intensamente no espelho, deveria responder à frustração dos revoltados, convencendo-os a não mais conjurar falsos demônios do abismo e a lutar contra os demônios muito mais concretos da guerra, a pobreza, o racismo, a desigualdade de gênero e o cataclismo ecológico que nos ameaça a todos, os verdadeiros terrores e monstros que só poderemos vencer se permanecermos lado a lado.

Somente se acharmos um modo de despojar os seguidores de Trump de suas quimeras e medos, um modo de incluí-los na solução dos dilemas do nosso tempo, somente nesse caso poderão tornar-se maravilhosamente proféticas as últimas palavras de Mary Shelley em seu romance, quando se despede do monstro, e do que há de monstruoso em todos nós: “E logo as ondas o levaram, e ele se perdeu na escuridão e na distância”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.