Quer ser meu amigo?

As redes sociais são o sonho da cultura empresarial americana: você tem ‘conexões’, ‘network’ e ‘interesses’, mas chama tudo de amizade

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 16h00

“Não basta você ser bem-sucedido”, escreveu La Rochefoucauld no século 17. “Seus amigos também precisam fracassar.” A realidade na amizade, como a realidade no amor romântico, é sempre muito diferente do ideal. Mas, na moderna vida americana, a amizade muitas vezes pode parecer indefinível, como um dia sem mensagens de texto.

Há muito tempo a modernidade tensiona os laços da vida comunitária, e a amizade acabou mudando, assim como a natureza da comunidade. Entretanto, nos Estados Unidos, onde o culto do individual é mais forte do que em qualquer outro lugar do mundo, a amizade transfigurou-se em formas cada vez mais rarefeitas.

Vejamos algumas famosas representações culturais da amizade. A tensão começa no clássico romance americano As Aventuras de Huckleberry Finn. Huck tem uma forte amizade por Tom Sawyer, e principalmente por Jim, um escravo fugido – cada um deles não hesita em arriscar a própria vida pelo outro. Mas sua amizade é definida pelo mundo perigoso e sombrio ao seu redor, no qual a traição e a fraude são coisas comuns, e as profissões de amizade equivalem, se você acredita nelas, a uma sentença de morte.

Como se tivesse aprendido a lição da clássica história de Mark Twain, o herói de Hemingway é uma ilha. Ele mal esbarra nas outras pessoas, estabelece breves relações e depois, como um átomo que colide com outro átomo, repentinamente afasta-se ao sabor dos próprios interesses. Gatsby, uma figura americana arquetípica, não tem amigos. A única pessoa com a qual ele tem uma forte ligação, Nick Carraway, o narrador do romance, jamais consegue aproximar-se dele, a não ser estabelecendo uma vaga empatia à distância. Embora os personagens de Faulkner sejam largos rios revoltos de sentimentos apaixonados, esse sentimento raramente, ou quase nunca, chega à amizade. Pensando nisso, com algumas exceções como Henry James, só consigo lembrar um punhado de romances americanos significativos em que a amizade tenha um papel importante. D. H. Lawrence escreveu que “a alma americana é em essência inflexível, isolada, estoica e assassina. Ainda não derreteu”. Inúmeras pessoas ao redor do mundo, muitas delas por boas razões, concordariam com Lawrence. A terrível proliferação de assassinatos em massa neste país daria razão a ele. No entanto, sua declaração tem aparentemente um sentido romântico e ao mesmo tempo antirromântico. Prefiro a descrição que Melville faz dos seus personagens em Moby Dick como Isolatos, pois, como ele os define, “cada Isolato vive num continente próprio, separado”.

É que o capitalismo selvagem americano, sua competitividade implacável e sua ênfase no chamado “individualismo rude” são tão difundidos que um estilo antitético público foi emergindo gradativamente numa espécie de reação, assim como os cientistas mais cedo ou mais tarde encontrarão uma vacina contra um novo vírus. O fenômeno dos sitcons, por sua própria negação do individualismo que afasta o outro, é a prova de que ele existe como uma condição permanente. Na típica comédia de situação, o conflito é uma espécie de lubrificante da camaradagem, os egos não existem e todo mundo tem profundas e instantâneas afinidades com todo mundo. Somente nos Estados Unidos, onde a amizade frequentemente apresenta tensões e conflitos mais relativos ao antagonismo, seria possível criar uma prolongada série sensacional – atualmente encerrada – de sitcons intitulada Friends.

Por outro lado, somente nos EUA usa-se a moderna expressão frenemy (algo como aminimigo), que significa exatamente alguém que tem o status de amigo, mas que exerce a suspeita pressão desestabilizadora de um inimigo.

Em lugar da amizade, os americanos sentem-se em geral mais confortáveis estabelecendo com as pessoas relacionamentos baseados em interesses próprios que se harmonizam. A cultura empresarial americana é o único lugar em que a amizade prospera, simplesmente porque as convenções racionalizadas do lucro mútuo substituem os sentimentos abertos, espontâneos, que são a essência da verdadeira amizade. Você tem “amizades” em lugar de amizades, “conexões” em lugar de amigos, “network” em lugar de comunidades. O resultado final é o motivo pelo qual o calendário do Google nunca falhará em enviar-lhe calorosos parabéns no dia do seu aniversário, enquanto um amigo de muitos anos se esquecerá completamente da data.

O que nos traz aos nossos dias. Há gerações, os americanos viveram como indivíduos isolados, exaltados, associais.

Indubitavelmente, Facebook e cia. não deixam de ter suas conveniências e atrações. Mas alimentar e cultivar a verdadeira amizade, em que o interesse próprio é substituído por certo grau de envolvimento desinteressado e de preocupação com a vida de outra pessoa, não deve ser considerado uma delas. As redes sociais são o sonho da cultura empresarial. Todas as relações humanas se reduzem – ou, para ser menos pessimista, podem ser ampliadas – numa prazerosa manipulação rotariana de outras pessoas para gratificação ou interesse pessoal.

A cultura afavelmente impiedosa da rede social não está limitada aos domínios da rede social. Nas suas relações com os outros, as pessoas passaram a antepor explicitamente suas necessidades a qualquer outra consideração. “Não consegui ler seu novo livro”, um “amigo” me disse recentemente. “Me fez sentir ciumento demais.” Um vizinho vinha ignorando sistematicamente a mim e minha esposa até se dar conta de que eu poderia lhe fazer um favor. Seguiu-se um período de caloroso relacionamento e de interesse da parte dele por nosso bem-estar; passada a oportunidade, ele desapareceu. Assim como você pode “deixar de ser amigo” no Facebook, ou terminar a relação de amizade com um simples texto, as pessoas cortam num instante antigos laços que já não oferecem recompensas para o ego ou para o bolso. O psicólogo define a tendência de amar as pessoas num determinado momento e de odiá-las no momento seguinte como splitting (ruptura). É a característica dos gângsteres. Agora, quase todo mundo age como um gângster em relação aos “amigos”.

Digo quase todo mundo. O lado positivo de tudo isso é que o refúgio da transação em que tantas amizades se transformaram é, evidentemente, a amizade. “Devemos amar uns aos outros ou morrer”, escreveu W. H. Auden em 1939. No reino da amizade, a situação chegou a esse ponto, uma escolha difícil, que constitui mais uma pressão no clima de alta pressão da vida moderna. Entretanto, a coisa positiva de uma escolha difícil é que, se a escolha for correta, você conseguirá alcançar uma rara realização. E o sucesso em amar alguém por aquilo que realmente é, e não por aquilo que pode fazer por você, não depende do fracasso de outro – e muito menos de um amigo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

LEE SIEGEL ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL, ESCREVE NO JORNAL THE NEW YORK TIMES E NAS REVISTAS THE NEW YORKER E THE NATION. É AUTOR DE VOCÊ ESTÁ FALANDO SÉRIO? (PANDA BOOKS)

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.