Racistamente correto

Racistamente correto

Uma das formas que o racismo assume é a idealização do outro e depois a perda da esperança quando ele se revela apenas humano

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2014 | 16h00

Uma coisa estranha está ocorrendo na mídia americana desde que Barack Obama foi eleito presidente, há seis anos. Naquela época, os liberais americanos não tinham uma única palavra de crítica a dizer sobre Obama como candidato presidencial, ou como líder recém-eleito. Falhas em seu currículo político – por exemplo, o fato de ele geralmente se abster em votações polêmicas quando era senador pelo Estado de Illinois, e não ter experiência – ou falhas nas escolhas que fez como pessoa – por exemplo, suas amizades com um pastor negro racista e com um radical ligado ao underground político americano dos anos 1960 – passaram batidas. Mas o fato de os Estados Unidos terem seu primeiro presidente negro fez a maioria dos liberais chorar muitas públicas e demonstrativas lágrimas de crocodilo. O que a eleição de Obama significava, eles disseram com voz trêmula, era que o racismo branco nos EUA fora vencido de uma vez por todas.

Saltemos seis anos para frente e os liberais estão cantando uma canção muito diferente. Agora, declaram, o racismo branco está disseminado e profundamente enraizado. O país ter seu primeiro presidente negro na Casa Branca continua não sendo mencionado e reconhecido. Em vez disso, o fato de um policial branco ter morto a tiros um jovem negro chamado Michael Brown em Ferguson, Missouri, levou os liberais a condenarem o país inteiro como racista.

Votei em Obama, e fiquei tão comovido como qualquer outro pelo fato de os EUA, onde negros haviam sido escravizados por quase cem anos, e torturados e linchados por quase outros cem, ter eleito um presidente negro. Mas vi Obama primeiro como um homem, depois como um símbolo histórico, e sempre senti que, embora ele parecesse um sujeito decente, carecia da coragem e da ambição para ser presidente. Parecia se contentar em ser um símbolo sagrado e tratado assim, e parecia totalmente hostil à noção de que teria de arregaçar as mangas e chafurdar na lama da política cotidiana.

Nunca aceitei tampouco a ideia de que sua eleição tenha significado o fim do racismo branco. Eu achava, e escrevi, que ela inspiraria uma reação de racismo branco, o que de fato ocorreu. O racismo branco, especialmente no sul, estará entre nós por muito tempo. Mas também é verdade que a potencialização dos negros em cada área da vida americana remonta há décadas. A eleição de Obama não foi algo novo. Foi fruto do status quo dominante. Tenho dificuldade em compreender por que a revelação de que o departamento de polícia e a estrutura de poder branca em Ferguson são racistas surpreendeu alguém. As cidadezinhas no sul são assim. Generalizar daí para todo o país, onde pessoas negras ocupam postos proeminentes e poderosos em cada âmbito da vida americana, é absurdo.

Ao mesmo tempo, a cegueira da mídia liberal para os fatos dos disparos em Ferguson é incrível. Um vídeo claramente mostra Brown roubando uma loja e empurrando o dono violentamente e depois ele e seus amigos saírem caminhando tranquilos do local. Testemunhas oculares e relatórios médicos atestam que Brown bateu a cabeça do policial de Ferguson contra o interior do carro de polícia, tentou agarrar seu revólver e socou-lhe o rosto antes de ser baleado. Testemunhas dizem também que o Brown desarmado estava investindo sobre o policial quando foi baleado.

Apesar de jornais liberais como o New York Times terem reportado os fatos tal como ficaram conhecidos, especialistas e comentaristas liberais brancos os ignoraram. Para eles, Ferguson é uma prova do revigorado racismo branco dos EUA. Sua resposta politicamente correta beira a histeria.

Uma matéria de capa na revista Atlantic pede o pagamento de reparações a descendentes de escravos negros e alega, falsamente, que a seminal Lei de Direitos Civis de 1964 não teve virtualmente nenhum efeito positivo para os negros dos EUA. Uma jornalista branca do New York Times chamada Alessandra Stanley escreve uma resenha zombando sardonicamente do estereótipo da “mulher negra zangada” e é acusada pelos leitores liberais do jornal de estar fornecendo esse mesmo estereótipo. Ela e seu editor foram sumariamente conduzidos para a página do chamado “editor público” (o ombudsman), como num farsesco julgamento stalinista, e levados a pedir desculpas por ofender leitores do jornal – apesar de Stanley estar condenando o estereótipo que os leitores alegavam que ela estava aplicando. O colunista Nicholas Kristof, do New York Times, escreveu nada menos que quatro artigos de opinião denunciando os EUA por serem racistas, atacando, em particular, o que ele vê como políticas fascistas de escolas públicas americanas. Kristof, é bom que se diga, mora em Scarsdale, Nova York, um dos subúrbios mais exclusivamente brancos do país.

E tudo isso no New York Times, que tem estado na vanguarda dos direitos civis dos negros desde sua origem. A ideia de que qualquer um dos redatores, repórteres ou editores do jornal seja racista é ridícula.

A situação dos negros nos EUA não é simples. Quase metade da população carcerária é negra. Isso tem várias razões: uma imagem injusta dos negros, punições draconianas por posse de droga, racismo institucional. Mas também porque há uma cultura entre muitos jovens negros que celebra ou tolera a violência, o ódio à autoridade, a misoginia e punições corporais duras para crianças. Falar de uma causa excluindo as outras é tratar as pessoas negras como caricaturas unidimensionais.

Para mim, os liberais brancos, embora impelidos com frequência por vaidade moral, estão respondendo a uma circunstância mais ambiental. O presidente negro que eles um dia reverenciaram sendo condescendentes com ele, apadrinhando-o e ignorando sua humanidade falível, os decepcionou. A última vez que o sentimento politicamente correto levantou sua cabeça odiosa e irracional foi nos anos 1990, quando havia outro presidente, Clinton, um ícone liberal que também decepcionara os seguidores. Em ambos os casos, os sentimentos politicamente corretos são um ódio deslocado para os fracassos do liberalismo político.

No caso de Obama, há também a vergonha dos próprios liberais por se voltarem contra um presidente negro, vergonha que projetam em outros brancos, aos quais acusam de racismo incurável. Mas o racismo toma muitas formas. Uma delas é idealizar o outro e depois perder a esperança nele quando se revela tão humano como todos nós. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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Lee Siegel é escritor e crítico cultural americano. Escreve para The New York Times, The New Yorker e The Nation

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