Radicada em Portugal, Andréa Zamorano retrata opressão no País

Radicada em Portugal, Andréa Zamorano retrata opressão no País

Em 'A Casa das Rosas', escritora brasileira demonstra que a opressão pode estar nos mais sutis gestos

Faustino da Rocha Rodrigues*, Colaboração para o Estado

28 Outubro 2017 | 16h00

Para enxergar melhor, às vezes é preciso distância. Não sei dizer se A Casa das Rosas é um livro sobre o Brasil. Sei apenas que a autora, Andréa Zamorano, brasileira, de tanto viver longe do País, demonstrou acuidade visual. Sendo fiel à história, escreveu um livro atualíssimo.

Zamorano, falando desde Lisboa, tornou-se observadora privilegiada. Encontrou os óculos que, na face, procuramos por toda a casa. Percebeu a dimensão da opressão não notada por quem vive cotidianamente com ela, a ponto de não se dar conta de sua existência, da condição de oprimido. 

A Casa das Rosas foi considerado pela revista TimeOut, de Lisboa, o melhor romance de 2015 – publicado agora no Brasil, pela Tinta Negra. É a história de Eulália. Os fatos acompanham os movimentos pelas Diretas Já, em 1984, quando a personagem completa 18 anos. Em certa medida, sua saga se confunde com a ânsia popular pela democratização do Brasil.

Criada sob a severa “proteção” paterna, Eulália de repente foge do pai. Até então, sua personalidade era pacata, tranquila, infensa a acontecimentos externos, além dos muros de sua casa, em São Paulo. A docilidade de seu comportamento pode ser vista, por exemplo, na maneira como se relaciona com a empregada, Cesária. Entre as duas, há desmesurado afeto, a ponto de Cesária sequer perceber sua condição de empregada.

Já no princípio do século 20 Gilberto Freyre sublinhava o suposto traço “afetivo” do brasileiro. Discursava sobre a harmonia das raças em uma sociedade escravocrata. Disso, subentende-se a mitigação dos conflitos sociais, gerando uma “paz” singular a reinar no Brasil, relativizando o peso da escravidão em nossa história. A opressão é minimizada pela afetividade. 

Aos poucos percebemos como A Casa das Rosas não é ingênuo. Parte de sua atualidade está na capacidade de a autora conseguir abordar sutilmente um tema como a opressão. Mobiliza fatos históricos, a relação patrão-empregado e, como dito, a questão dos afetos. Estes deixam aquela característica positiva a pressupor a paz entre os opostos, revelando-se, na verdade, como o ethos propício para que ocorra a naturalização da opressão. No princípio, Eulália não percebe seu opressor. Tampouco se percebe como oprimida. É necessário um choque. Diante de um tabu a ser rompido, foge. 

E perde-se na multidão. Vaga por São Paulo, em meio ao povo. Na vida real seu afeto é redimensionado, colocado em novo patamar. Toma consciência da necessária distância de seu opressor. Irresoluta, não fraqueja. 

Interessante como Zamorano manipula os fatos ao jogar com recursos da narrativa. Nos capítulos centrados em Eulália, predominam a primeira pessoa. É apresentado ao leitor uma percepção extremamente afetiva do mundo por meio da exposição de suas impressões pessoais. 

Neste momento tem-se uma dimensão do olhar do oprimido quanto ao mundo. O leitor é levado a perceber como, a despeito da sufocante condição, é possível extrair sentido para as coisas ao redor, que, graças aos afetos, contribuem para justificar internamente o opressor. É como se Eulália, por meio da expressão em primeira pessoa, naturalizasse a opressão sofrida. 

Entretanto, progressivamente, vemos Zamorano dar destaque ao outro extremo, o do opressor, narrado em terceira pessoa. Desse modo, expõe o conservadorismo do personagem. Por exemplo: o povo nas ruas pelas Diretas Já, aos olhos de Virgílio, pai de Eulália, é comparado a ratos a se apertarem nas passagens do esgoto. Os acontecimentos ao redor são filtrados por sua consciência conservadora. 

Aliás, é interessante como o Brasil desponta pelo olhar do conservadorismo autoritário. É por este prisma que o leitor tem contato com grande parte dos fatos históricos. O mesmo recurso de terceira pessoa é utilizado nos capítulos a tratarem um outro personagem, o delegado Dias. Descrito como oprimido, tem como opressor a corrupção de sua corporação em plena ditadura. E sua marcante honestidade se faz visível como reação, revelando um homem que desconfia de tudo e de todos, chegando a agir de modo violento. Estará inconscientemente tornando-se um opressor?

Zamorano sugere que a relação oprimido-opressor pode ser vista na política conservadora a investir contra a manifestação popular. Porém, ela é igualmente notável na insistente tentativa de apropriação dos recursos públicos, na justiça brasileira e até mesmo na relação entre empregados e patrões. Logo, sua raiz é mais profunda, remetendo à formação individual, chegando ao interior das residências, como no caso da conservadora e tradicional família de Eulália. 

Ao ler A Casa das Rosas, tive a sensação de que a opressão está logo ali, tão próxima, que não a enxergamos. Ela não vem apenas na forma de armas ou palavras de ordem contra o mais frágil – não está somente no monopólio legal da violência e nas falas em nome da tradição. Ela está onde menos se espera, podendo mascarar-se até mesmo em uma rosa ofertada. 

*Faustino da Rocha Rodrigues é jornalista, doutor em ciências sociais pela UFJF e pesquisador da obra de Antônio Vieira

A Casa das Rosas

Autora: Andréa Zamorano

Editora: Tinta Negra

172 páginas

R$ 42

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