Rebanho não tão uniforme

Evangélicos não votam em bloco; imaginá-los como marionetes é preconceituoso, diz historiador

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 16h00

 Um espectro ronda o Brasil: o voto evangélico. Há candidatos ligados a igrejas; uma parcela expressiva da população (algo entre 22,2% e 30%) se declara evangélica, e tem o peso da uma mídia ativa com capilarização notável. Desde o imponente Templo de Salomão, em São Paulo, a milhares de pequenas igrejas na periferia das cidades o mundo evangélico é um poderoso dínamo para as almas e para as urnas. 

Como toda novidade, a ascensão religiosa tende a causar estranheza. No pôquer da política, um novo jogador sempre incomoda. Proponho, para discernir alguns temas, uma reflexão sobre três erros comuns e três meias verdades. 

Erro 1: “A religião está começando a se meter em política”. As pirâmides do Egito, há quase 5 mil anos, mostram que poder, Estado e deuses são amálgama estrutural. Na Bíblia, Deus nomeia reis como Davi e destrói a oposição política a Moisés (Números, 16, 20-35). No Brasil, Estado e Igreja estiveram fundidos até a República. Podem variar os atores, o roteiro é muito antigo. Não há nada de novo sob o sol. O Estado laico é um sonho centenário, a teocracia, uma realidade milenar. 

Erro 2: “A religião é o ópio do povo”. A citação parcial de Marx remete a um senso comum. Sim, religião pode atenuar choques sociais. Porém, organizações religiosas podem embasar atitudes muito críticas (como a Revolução Puritana na Inglaterra ou o MST, nascido nas sacristias da Pastoral da Terra). Religião é um poderoso catalisador social que pode ser dirigido para qualquer vetor. Religião pode ser alienante ou revolucionária. A Bíblia foi a base do movimento de reforma agrária e social anabatista no século 16. A Bíblia serviu para Lutero recomendar matar camponeses. Religião não é nada em si, mas pode ser qualquer coisa, inclusive revolucionária. 

Erro 3: “Os evangélicos estão mudando a política brasileira”. Até o momento, isso não pode ser defendido com dados. As negociações de ministérios com lideranças evangélicas, a disputa eleitoral e os discursos mostram que a absorção dos políticos e do eleitorado evangélico é feita dentro da mais absoluta tradição tupiniquim. Seria possível dizer o contrário: a política brasileira está mudando os evangélicos. Reflexão interessante: Geisel era luterano, FHC, ateu, e Lula, católico. Alguém sentiu algo? Até o momento, a política parece estar alguns metros acima do Monte Sinai. 

Meia verdade 1: “O voto evangélico torna a agenda política conservadora”. Como tendência geral, os evangélicos valorizam pontos como críticas ao casamento homoafetivo. Porém, a agenda política já é conservadora, como em geral é o voto no Brasil. Se submetidos a plebiscitos, itens como pena de morte apresentariam uma chance grande de aprovação. O tom médio do eleitorado, especialmente em questões de ordem moral, é muito conservador e isso antecede a presença evangélica no Parlamento. Os evangélicos não criam, apenas reforçam um reacionarismo difuso. 

Meia verdade 2: “Marina representa o eleitorado evangélico”. Marina tem origem evangélica, mas o eleitorado evangélico também está pulverizado em outras candidaturas. Há tendência à solidariedade, mas há atomização das igrejas evangélicas. Também há uma migração interna de fiéis entre as diversas denominações, fenômeno que se acentuou na última década. Assim, não existe o voto evangélico “em bloco” no Brasil, e ele não está focalizado apenas em Marina Silva. 

Meia verdade 3: “O eleitorado evangélico vota em quem os pastores mandarem”. Pastores e bispos apresentam influência sobre o rebanho, mas essa ideia subestima a capacidade crítica dos evangélicos e omite a mudança na composição social do grupo. Esse controle pode até ser desejado pelas lideranças religiosas, mas não existe como dado absoluto. O chamado “crente”, com sua roupa típica e seguidor da vontade do pastor, não é mais o perfil de várias igrejas, especialmente neopentecostais. Advogados, médicos, professores e empresários engrossam as fileiras da Renascer e da Universal. Imaginar que todos sejam eleitores marionetes é uma construção do preconceito. 

Para encerrar: evangélicos não são obstáculo à democracia. Pelo menos, não constituem um obstáculo maior que a existência de centrais sindicais ou lobbies do agronegócio. O Parlamento é o local da diversidade da sociedade brasileira. Lá existe o pastor e o deputado ativista LGBT. Os evangélicos representam uma importante parcela da população e expressam suas posições através da mídia e da política. A diversidade faz parte do jogo e é saudável, ainda que eu possa não concordar com suas posições. Conviver com a diferença é um exercício árduo, tanto para evangélicos como para ateus e católicos. 

A intelligentsia nacional ecoa velhos preconceitos. A crítica de certo público de elite aos evangélicos é um pouco de demofobia, de horror ao povo e seus estereótipos. Ninguém parece temer que o senador Pedro Simon seja católico fervoroso e franciscano terciário. Tudo isso está em ebulição intensa. O que acontecerá no futuro? Com o risco de parecer estranho, só Deus sabe.

LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR E PROFESSOR DE HISTÓRIA CULTURAL DA UNICAMP 

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