Rebelde com causa

Entrevista com

Igor de Melo

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2014 | 16h00

Lá vai o Igor. Estatura baixa, barba desbotada do sol forte, olhos cor de mar, tatuagens nos braços, nas costas e nas pernas. Move-se desapressado. Meio largado, meio despreocupado. Mas não se deixe enganar pelo quê de serenidade no semblante. Quem tem pressa são as retinas, eufóricas, maratonistas, que correm sem trégua. Igor de Melo Venâncio, 31 anos, fotógrafo profissional há 6, é um homem de espírito inquieto. Já sentou nos bancos de tantas graduações que recorre aos dedos das duas mãos para contabilizar: Ciências sociais, publicidade e propaganda, engenharia de pesca, música, tecnologia em desporto e lazer, artes visuais e jornalismo. Na busca por se assentar, esbarrou na fotografia – ainda analógica – no curso de publicidade. “Tudo me fascinou, do momento do clique à imagem surgindo na bandeja dos químicos no laboratório.” O dinheiro da primeira câmera fotográfica, em 2007, veio de uma bolsa de pesquisa sobre tubarões e arraias, na engenharia de pesca.

Numa pausa na itinerância de cursos, deu os primeiros passos na carreira fotografando eventos e esportes. Por quatro anos, emprestou seu olhar ágil ao jornal O POVO, em Fortaleza, e conquistou prêmios importantes, entre eles a 3ª colocação na categoria Cor do 10º Concurso Leica-Fotografe. Na contumaz insatisfação, o fotojornalismo deixou de bastar. E assim Igor se transformou num rebelde com causa: queria tempo para a fotografia livre, autoral e documental. Descobriu-se um fotógrafo de pessoas e enveredou pelos retratos íntimos do cotidiano. Hoje fotógrafo na comunicação social da prefeitura de Fortaleza, divide-se entre trabalhos para revistas nacionais, agências de publicidade e projetos pessoais.

Convidado a produzir um ensaio sobre dança durante a IX Bienal Internacional de Dança do Ceará, no ano passado, o Igor inquieto deu de ombros para os grandes palcos e teatros. Em sinal de respeito e admiração, voltou-se para bailarinos da periferia de Fortaleza, integrantes da ONG Associação Vidança. Deles, quis saber: “Onde vocês ensaiam?”. Na rua de terra batida, na calçada de casa, no meio da sala apertada, no quintal fervente a mormaço. Do contraste entre a crueza dos ambientes de ensaio e a delicadeza natural do balé, o fotógrafo captou, ao mesmo tempo, os bastidores e o palco de cada um deles. 

Por que fotografar bailarinos da periferia?

Recebi o convite da revista Olho de Peixe (publicação do curso Pensar Fotografia, realizado pelos fotógrafos Ademar Assaoka e Celso Oliveira, com apoio do governo do Estado do Ceará) para participar de uma edição especial sobre dança. Nesse período, estava acontecendo a Bienal de Dança. Os olhares estavam todos voltados para esse evento e sabia que muitos fotógrafos, também convidados pela revista, estariam lá fazendo seu material. ‘Não é isso que estou procurando’, pensei. Certamente, os grandes espetáculos serão fotografados. Resolvi fotografar bailarinos que não fariam parte da Bienal, que não estavam nem no mainstream local. Procurei na periferia porque sei de projetos sociais que usam a dança como ferramenta de inclusão. Chegava nas comunidades e os moradores me indicavam alguém ou algum projeto. Outro motivo é que gosto muito de fotografar em cores. O mestre Walter Firmo despertou isso em mim. E encontro as cores que me atraem na periferia. Lá as pessoas usam cores fortes na casa, nas roupas, no rosto. O resto da cidade, na maioria das vezes, é muito pastel.

Qual é a principal dificuldade em fazer fotos posadas?

É quando o fotografado não é um modelo profissional ou quando não existe cumplicidade entre o fotógrafo e quem está diante da lente. Para mim, o retrato posado tem que ser construído por ambas as partes. Nesse ensaio pude conhecer os bailarinos e explicar a proposta, visitando-os mais de uma vez em alguns casos antes de fotografar. Isso me possibilitou criar uma intimidade e deixá-los à vontade na sessão de fotos. O respeito vem em primeiro lugar. Respeitei os nãos que recebi e busquei retratar de maneira digna aqueles que aceitaram participar.

Você parece ter predileção pelo alto contraste nas imagens. Existe alguma razão para essa preferência?

É verdade. Gosto de sombras fortes e sou um grande admirador da obra de Caravaggio. Acredito que, por ser nascido e criado no Ceará, meu olhar busque imagens muito contrastadas. Na maior parte do ano, a luz aqui é bem forte, dura, e as cenas que cresci observando são de luz e sombra bem acentuadas.

O que você costuma registrar quando não está a trabalho?

Sou um fotógrafo de pessoas. Tenho me dedicado à fotografia de retrato, mas tudo que tem a presença do ser humano me atrai. Sou fascinado por pessoas pelo simples motivo de serem únicas. Sempre acabo me entendendo um pouco melhor quando vejo uma fotografia que fiz. Acho melhor dizer então que, no trabalho ou fora dele, fotografo para me encontrar.

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