Isaak Brodski
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'Reconstruindo Lenin' é biografia intelectual do líder soviético

Historiador húngaro Tamás Krausz testa limites da ortodoxia em livro que chega ao Brasil

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2017 | 16h00

Uma piada popular dos anos 1920 e 1930 na União Soviética contava que um grupo de coelhos apareceu na fronteira russo-polonesa. Queriam entrar na Polônia. Quando o guarda polonês lhes perguntou por que deixavam a URSS, disseram: “A GPU (futura KGB) deu ordens para prender todos os camelos na União Soviética.” “Mas vocês não são camelos!”. “Bom, tente dizer isso para a GPU.” Historiadores na antiga União Soviética se viam às vezes na pele do coelho, tentando explicar suas pesquisas ao partido e testando limites da ortodoxia e da polícia. O húngaro Tamás Krausz foi um deles.

E ele não perdeu esse hábito de nadar contra a corrente. Historiador próximo dos críticos que dissentiam da ortodoxia durante o regime comunista, esteve em apuros uma vez porque carregava um livro de Trotski na Moscou dos anos 1970. Com a queda do regime, manteve-se contra a corrente – e marxista – para se opor ao regime de Viktor Órban (líder do partido de centro-direita), na Hungria. E, de fato, é preciso querer nadar contra a corrente para escrever hoje em dia uma biografia intelectual de Lenin, a exemplo do que fez Krausz.

A publicação de Reconstruindo Lenin no Brasil busca reequilibrar a bibliografia existente sobre o bolchevique no País. Até agora, predominam trabalhos dedicados a desconstruir a imagem do líder da Revolução Russa, escritos por conservadores como Richard Pipes e Robert Service ou pelo russo Dmitri Volkogonov. Lenin é nesses relatos um ditador cruel, sedento de poder, que pouco se importava com o destino do povo e cujo reinado de sangue foi apenas continuado por Stalin – sua obsessão pela revolução não via limites. Essa visão tem como pressuposto que o socialismo e a democracia são impossíveis de conviver, sendo uma utopia desastrosa pensar o contrário. No outro extremo, as visões hagiográficas ligadas à ortodoxia soviética pouco acrescentavam à pesquisa histórica para a construção do personagem.

O leitor de Krausz não encontrará o relato fascinante de um grande escritor. Acontecimentos da vida do líder soviético ocupam as primeiras cem páginas da obra. Ali estão sua relação com a amante Inessa Armand, a amizade com o liberal Piotr Struve, sua origem judaica e outros fatos escondidos pela historiografia soviética. Krausz se insere na tradição do russo Vladlén Lóginov, que nos anos 1980 buscava desestalinizar Lenin, durante a glasnost, para retirá-lo do beco sem saída da história.

O autor relata as ordens de execuções assinadas por Lenin e é crítico da adoção do terror como política revolucionária, mesmo no contexto da guerra civil russa. A execução de sacerdotes e de reféns de famílias burguesas, além da expulsão de intelectuais e de socialistas moderados do país são explicadas pela concepção finalista da ação política para Lenin. Este admitia que a revolução era “a coisa mais autoritária que há”, um ato no qual “parte da população impõe sua vontade à outra com o auxílio de fuzis (O Estado e a Revolução)”. Essa violência se tornou desenfreada e tragou tudo, inclusive seu partido, que acreditara dominar essa força.

O capítulo sobre Lenin e o antissemitismo é um ponto interessante da obra. Krausz mostra como e por que o socialismo atraiu os intelectuais judeus na Rússia ao se opor ao antissemitismo de monarquistas e nacionalistas (“Derrote o judeu e salve a Rússia”, diziam) – 200 mil judeus foram massacrados na guerra civil. É óbvio que a presença de protofascistas, como Simon Petliura e Nicolai Ustraylov, entre os exércitos brancos não apaga os crimes vermelhos. Pode-se dizer que, enquanto Pipes e outros historiadores conservadores subestimam ou escondem o contexto em que Lenin agiu, Krausz parece usá-lo para justificá-lo. Falta compreender os mecanismos do uso da violência para estabelecer uma verdadeira crítica do terror.

Seu objetivo no livro era expor o método de Lenin como pensador e as conexões de sua obra teórica com sua prática. Krausz busca revelar uma constante na vida do revolucionário que permita estabelecer um fio condutor nas diferenças entre “o Lenin autocrático de O Que Fazer e o Lenin libertário de O Estado e a Revolução”. Esse fio, para ele, é que a “ciência e a teoria eram ferramentas da realização de metas políticas e sociais”. A incompreensão dessa questão levaria a interpretações de caráter anistórico sobre o soviético. Tanto para Lenin quanto para Marx a teoria seria “apenas um guia da ação”. Seus escritos não teriam função normativa, pois dependeriam das condições históricas.

Por fim, ao desafio imposto aos historiadores pela “neutralidade valorativa”, o conceito pensado por Max Weber contra o uso da ciência para justificar opções políticas, Krausz responde com um ataque: “Esses cientistas sociais em geral se apresentam como se estivessem acima das perspectivas de classes e do sistema estabelecido e veem a si mesmo no papel de juízes”. Tudo porque, para Krausz, a figura de Lenin ainda é objeto de luta, embora considere sua teoria “única e irrepetível” na história. De fato, o autor não pretende que seus valores sejam neutros. Sua proposta de reconstruir Lenin tampouco é. Resta saber se sua tarefa ainda é exequível um século depois da revolução bolchevique.

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