Relação entre intelectuais e o poder é analisada por Mark Lilla

Relação entre intelectuais e o poder é analisada por Mark Lilla

'A Mente Imprudente' e 'A Mente Naufragada' chegam ao País avaliando os "filotiranos" e os conservadores quixotescos

Martim Vasques da Cunha*, Colaboração para o Estado

28 Outubro 2017 | 16h00

“No eros começam as responsabilidades.” Eis a grande lição filosófica que nos ensina a obra de Mark Lilla, autor de dois livros fundamentais para se entender o que está a acontecer agora no Brasil e no mundo – A Mente Imprudente: Os Intelectuais na Atividade Política e A Mente Naufragada: Sobre a Reação Política, lançados recentemente pela editora Record (o segundo título sairá no início de 2018).

A frase acima é uma referência irônica a dois sujeitos que sempre viram como óbvia a relação entre a vida política e a vida do espírito. O primeiro era W.B.Yeats que, com seu famoso bordão “Nos sonhos começam as responsabilidades”, foi, além de poeta, senador na Irlanda independente em 1922, e sabia claramente que a confusão do parlamento era mais uma amostra daquele “fascínio pelo o que é difícil” típico de quem gosta de se intrometer nos assuntos dos homens. O segundo era ninguém menos que Platão, o filósofo a quem todos os filósofos posteriores devem se curvar, e que afirmava que o ser humano era dominado por uma paixão demoníaca – o eros – que o elevava às alturas ou, se não possuísse autodomínio suficiente, fazê-lo se comportar como o mais vil dos animais.

Mark Lilla narra a tensão erótica que existe quando os intelectuais praticam duas coisas extremamente perigosas – e que sempre foram as preocupações de um Yeats ou de um Platão, ambos, por coincidência, possuídos por seus demônios autoritários. Ela se manifesta no momento em que esses guardiões do “anseio pelo Belo” esquecem-se das suas responsabilidades concretas ao defenderem, direta ou indiretamente, tiranos de esquerda ou de direita, destruidores de vidas humanas – e também ao resolverem, justamente para permanecerem nessas realidades alternativas, enquadrar todo o curso da História em uma única corrente narrativa que reduziria a complexidade da nossa experiência neste mundo.

Para Lilla – nascido em Detroit em 1956 e discípulo de renomados professores como Daniel Bell e Irving Kristol –, tanto a vida política como a vida filosófica, tanto o filósofo como o tirano, estão ligados pela força de eros, como se fosse um “perverso truque da natureza”. É esta conexão secreta que dá sentido aos ensaios que contam as trágicas (e díspares) histórias de Martin Heidegger, Hannah Arendt, Karl Jaspers, Carl Schmitt, Walter Benjamin, Alexandre Kojève, Michel Foucault e Jacques Derrida – todos personagens de A Mente Imprudente, homens de pensamento seduzidos pela “filotirania” para justificar seus erros extremamente sofisticados. Na verdade, foram vítimas e, ao mesmo tempo, algozes daquilo que Eric Voegelin chamava de pleonexia – o desejo de poder, misturado ao desejo de conhecimento, e que faz o filósofo cair na ilusão de que, por meio de suas ideias, pode transformar a Terra em uma “casa bem-ordenada”.

Quinze anos depois de ter publicado A Mente Imprudente (lançado em 2001, dois dias antes do 11 de setembro), Lilla aprofundou-se nas características específicas deste drama com A Mente Naufragada (2016). Se, no livro anterior, a loucura de eros impulsionava a destruição lógica provocada por um pensamento rebuscado, agora a força demoníaca se aventurava no modo como construímos as nossas narrativas históricas. Usando a imagem do rio Nilo, Lilla descreve a História como uma série de estuários que se dirigem para um único fim – o oceano. O naufrágio espiritual acontece quando o intelectual estreita o curso do rio em um único afluente e preocupa-se somente com as ruínas de um passado inexistente, mas que, ainda assim, influenciará um futuro inatingível. 

A reação ideológica, algo comum às mentalidades apocalípticas de direita e de esquerda, vem justamente deste tipo de comportamento. Lilla não hesita incluir aí grandes nomes desta tradição alternativa ao status quo acadêmico, como Franz Rosenzweig, Eric Voegelin e Leo Strauss, que, de uma forma ou de outra, sofriam desta “nostalgia política”, iguais a Dom Quixote. Contudo, ao contrário do que fariam outros intelectuais liberais que desprezam esta linha de reflexão (e dos quais Lilla é um orgulhoso integrante), o autor de A Mente Naufragada analisa esses “reacionários” com a mesma delicadeza que encontramos nos “filotirânicos” de A mente imprudente. Seu intento é compreendê-los na sua tensão erótica, sem nenhum julgamento de caráter, e é dessa forma que, por exemplo, ele também consegue fazer excelentes introduções às obras intrincadas de um Voegelin ou de um Heidegger para o leitor comum.

O que Mark Lilla redescobriu de fato foram os princípios de uma filosofia política esquecida há muito tempo – e que nos afetam até hoje. Usando dos conceitos das mentalidades imprudente e naufragada, podemos aplicá-los a fenômenos recentes da política nacional e internacional – desde o “Make America Great Again” de Donald Trump (um exemplo clássico de “nostalgia reacionária”), passando pelo caso de “morde-e-assopra” entre Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho (a “imprudência” encarnada ora na retórica nacionalista, ora na retórica apocalíptica), até chegarmos à pretensa sofisticação de um Roger Scruton ou de um John Gray, respectivamente um pensador conservador e outro liberal, mas que mostram suas limitações espirituais ao não admitirem que nós podemos vencer a força demoníaca do eros por meio da consciência da nossa imortalidade (como provam os livros mais recentes de cada um, A Alma do Mundo e The Soul Of The Marionette).

Nesta “busca pelo eros perdido”, Lilla pretende mostrar que fazer filosofia política no século 21 é, antes de tudo, aceitar as coisas como elas são – mesmo que isto implique admitir a verdadeira tragédia de nosso tempo: a de que estamos abandonados, sem nenhum guia para nos orientar, e que, como diria o poeta inglês Geoffrey Hill, “Deus é difícil, distante”, pois “as coisas simplesmente acontecem”. Ter noção deste “desprendimento” (para usarmos um termo deste grande náufrago avant la lettre, Mestre Eckhart) é fundamental para não cairmos nas ilusões “filotirânicas” do desejo de poder ou nas alucinações coletivas do próximo Dom Quixote.

Neste ponto, deve se ressaltar o detalhe de que Lilla não está preocupado somente com a perversão erótica dos intelectuais ocidentais. Para ele, uma das evidências mais explícitas da mente naufragada está no “islamismo radical”. Partindo de uma análise magistral do romance Submissão, de Michel Houellenbecq, Lilla identifica, neste tipo de atitude, a estrutura-matriz da “nostalgia política” que domina os outros estratos da nossa sociedade. Em geral, o islamista quer restaurar uma Idade de Ouro que não tem como ser recuperada; e, ao saber disso, para escapar desta “ignorância” (jahiliyya), precisa impor sua visão de mundo como a única possível a ser realizada. Mas, como a realidade se impõe e o impede de fazer tal feito, ele opta pela violência política, com os ataques terroristas de praxe, mas que, no longo prazo, criam aos poucos uma “comunidade de sofrimento” que ocupará, quando menos se espera, todo o globo terrestre.

Aqui, o Cavaleiro da Triste Figura anda de mãos dadas com o Califa Nostálgico. E quando a imprudência e o naufrágio espiritual se encontram na vida política, o que temos é o pesadelo daquilo que tentamos despertar – o que James Joyce apelidava de “História”, mas que pode muito bem ser a nossa própria existência. Com seus livros precisos e elegantes, Mark Lilla nos orienta sobre como sobreviver neste caos que nos consome, sem perder de vista a esperança de que talvez a força benéfica do eros filosófico ajude-nos a assumir nossas verdadeiras responsabilidades.

*Martim Vasques da Cunha é autor dos livros 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial, 2012) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira' (Record, 2015); pós-doutorando pela FGV-Eaesp

 

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