Relação indelicada

Logo a criança percebe que a babá pode entrar nos lugares, desde que esteja higienicamente disfarçada de branco

Lidia R. Aratangy,

31 Maio 2014 | 16h00

Elas estão em todos os lugares: pracinhas, clubes, portão de escolas, sala de espera de médicos e dentistas. Parecem não ter rosto nem nome - e se esforçam por não se fazer notar, envoltas na nuvem branca de seus uniformes engomados. Crianças bem-vestidas e bem nutridas buscam segurança em seu colo ou suas mãos, enquanto as mães conversam com as amigas, exercitam-se na academia de ginástica, falam ao celular.

Esse cenário jamais seria visto na pequena aldeia camponesa do século 18, quando as crianças eram educadas por toda a comunidade, e dela emanava a autoridade. Parentes idosos e irmãs mais velhas ajudavam as mães nas tarefas de cuidar das crianças, num misto de assistência e controle, para garantir que fossem criadas dentro dos costumes e tradições da aldeia. 

No século 19, quando as pessoas foram atraídas para as cidades, as aldeias se transferiram para bairros próximos, pois os aldeões, uma vez instalados, ajudavam os parentes a se mudarem para casas próximas. Então as rodas de comadres e vizinhas passaram a auxiliar as jovens mães a cuidar dos filhos. 

Nessa época, pequenos comerciantes, artesãos e profissionais liberais trabalhavam em casa, como se a oficina ou o escritório fossem um anexo da residência.

Com o advento da Revolução Industrial, o local de trabalho migrou para longe da família. Para lá foi o homem, armado com os atributos fundamentais para a competição (frieza, objetividade, coragem). Em casa ficou a mulher a cuidar dos filhos. Com isso, aumentou a responsabilidade sobre os seus ombros, pois agora, isolada das comadres e vizinhas, passava a ser a única responsável pela saúde e desenvolvimento dos filhos. 

Essas mulheres precisavam de ajuda. Começaram, então, a importar do interior jovens para “ajudar a olhar as crianças” e auxiliar em pequenos serviços. Mais tarde, quando a mulher foi participar do mercado de trabalho, a ajudante passou a exercer a função de substituta quando a mãe se ausentava. É então que essas meninas perdem o nome próprio e passam a ser chamadas de Babás. De uns tempos para cá, as babás (agora em minúscula, como um substantivo comum) tornaram-se complemento obrigatório da família. 

Todos os relacionamentos são movidos por afetos. O afeto que permeia o vínculo entre a babá e a família à qual serve, muitas vezes verdadeiro, resulta de uma conjuntura montada pelo acaso. Não é fruto da convivência e das afinidades que reúnem os amigos. A escolha baseou-se em parâmetros definidos para contratar um funcionário, não para escolher um amigo. Por isso, o vínculo é facilmente rompido, substituído e esquecido.

A frase: “Ela é como se fosse da família!” é uma meia verdade, que se sustenta até que um objeto de valor desapareça da casa e a “parente” se transforme na principal suspeita. Pois a relação entre a babá e seus empregadores esteia-se no paradoxo de viverem em extrema proximidade, sem que isso resulte em uma intimidade verdadeira. Rara a patroa que conhece a família da babá, dificilmente alguma patroa sabe dos gostos e da história de sua empregada ou dos problemas pelos quais ela passa. Essas questões não fazem parte da entrevista de seleção.

É inevitável que uma estrutura formada por três pessoas gere ciúmes, que cria conflitos de intensa carga emocional. A mãe gostaria de fazer da babá uma cópia de si mesma, para que siga suas regras e seus valores. Se conseguir que, além disso, a babá ame a criança com um amor desvelado e desinteressado, a mãe ficará mais tranquila. Será? Ou isso vai provocar uma sensação de desconforto, um medo de que a auxiliar acabe por lhe roubar o lugar de protagonista - e o afeto da criança? Como garantir que a criança não se apegue “demais” à babá (quanto será demais?) e depois venha a sofrer com uma eventual separação? Sim, porque a possibilidade de ruptura está sempre presente nesse enredo que se sabe transitório.

Essas contradições provocam brigas e tensões, que a criança percebe e com os quais sofre. É desolador sentir-se em um conflito de lealdade entre duas pessoas amadas. “Ponha-se no seu lugar!” é uma frase que deixa a criança assustada e perdida. Que lugar será esse?, pergunta sua alminha aflita. Rapidamente, ela percebe que sua babá pode entrar nos lugares, desde que sua presença seja higienicamente disfarçada de branco.

Há hoje uma figura nova, que realça paradoxos e conflitos: a folguista, substituta da babá em suas folgas, para que “a mãe também possa descansar”. Essa nova personagem tem menos intimidade com a criança e amplia ainda mais a distância entre a mãe e sua cria. Quem era mesmo aquela que exercia uma função sem folgas, férias ou licenças médicas? Aquela que padecia num paraíso?

A mãe também tem direito a descanso. Mas recentemente entraram em cena novos personagens para mudar o panorama. As avós e os avôs estão mais próximos, mais saudáveis e mais dispostos a colaborar na educação dos netos. E estamos começando a viver, na área doméstica, uma batalha semelhante à que viveram as mulheres quando passaram a se dedicar a uma carreira: há um novo pai, que luta por seu direito de ser parceiro na criação dos filhos. Bem-vindo seja!

Um rumor surdo e contínuo acompanha o pequeno ser em sua noite de nove luas, enquanto se apronta para a vida. Talvez seja o único elemento que o bebê reconhece quando sai de sua concha de sangue para enfrentar o frio e o calor, a luz e os ruídos, e a terrível sensação desse sopro que irrompe em seus pulmões. Esse rumor é o som das batidas do coração da mãe.

Talvez por isso o recém-nascido fique tranquilo ao se aconchegar no regaço da mãe. Não é manha. É que somos, os humanos, como os cangurus, que, ao sair do útero, precisam se acomodar por alguns meses naquela bolsa protegida.

Nisso as mães são insubstituíveis!

Lidia R. Aratangy é psicóloga e escritora, autora, em parceria com Leonardo Posternak, de 'Livro dos Avós' (Primavera Editorial)

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