Religião no meio

O maniqueísmo marcou a cena política brasileira nos últimos anos; a novidade é a introdução por Marina do discurso religioso no embate

Joel Birman, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 16h00

Não resta a menor dúvida de que o maniqueísmo está na crista da onda. Da política às relações amorosas, passando pelo campo das artes e das práticas científicas, principalmente na esfera das ciências humanas e sociais, o maniqueísmo se dissemina de maneira vertiginosa e assustadora. Sem esquecer, é claro, práticas jornalísticas que se acreditam defensoras do bem contra o mal, assim como o vasto campo das religiões, no qual o dito maniqueísmo se constituiu historicamente. Com efeito, foi nesse registro que o combate sempre recomeçado do bem contra o mal ganhou forma e fôlego em diferentes tradições culturais. Sempre que o maniqueísmo é relançado no espaço social, como categoria do pensamento e como prática discursiva, devemos ficar atentos para os traços eloquentes de religiosidade que ele revela. 

É em decorrência disso que os fundamentalismos ganharam tanta força e presença na atualidade. Se a evocação do fundamentalismo foi lançada pelo Ocidente para se referir às práticas teológico-políticas da tradição muçulmana, caracterizadas como bárbaras e retrógradas, o mesmo fundamentalismo se encontra nas práticas políticas ocidentais, evidente na retórica protestante das políticas salvacionistas norte-americanas no Oriente Médio e em outros campos do tabuleiro internacional. Também está presente no campo do catolicismo, pelo menos desde o papado de Bento XVI, assim como na recente tradição judaica. Nas diversas manifestações monoteístas, portanto, o fundamentalismo ganhou corpo e colorido, sempre relançando o confronto entre o bem e o mal no contexto histórico-social de desmantelamento dos Estados-Nação e na quebra do poder soberano em escala global. 

Assim, é possível afirmar que a disseminação do maniqueísmo na contemporaneidade implica razões de ordem moral e religiosa em diferentes campos sociais, a começar pelo registro político. A disseminação da corrupção na contemporaneidade tem seu papel nisso. Ela ganhou novos contornos e fronteiras com a expansão da globalização neoliberal, de forma que o capital financeiro, na sua voragem pela riqueza, passou a regular a totalidade das práticas sociais. A resultante foi a transformação da sociedade em mercado. Todo e qualquer bem passou a ser considerado mercadoria, tal como a saúde, a educação, a ciência e as artes.

É nesse contexto que lemos certas retóricas políticas marcadas pela religiosidade que se disseminam na atualidade brasileira e se fazem presentes na campanha presidencial em pauta. Não obstante a República nacional se dizer laica, sempre tivemos no Congresso a representação de grupos religiosos. Podemos afirmar ainda que nos últimos anos esse processo se intensificou, delineando a pauta dos candidatos à Presidência. As políticas sobre o aborto e a condição de gênero foram marcadas pela incidência efetiva dessas representações religiosas. Contudo, algo de novo se apresenta na atual campanha.

É preciso dizer, antes de mais nada, que a candidata Marina Silva se inscreveu na dita campanha de maneira francamente messiânica. Numa de suas primeiras declarações após o acidente aéreo que tirou a vida de Eduardo Campos, foi a graça divina que a salvou da tragédia. Marina Silva se apresentou imediatamente ao eleitorado como uma enviada de Deus para salvar o Brasil de todas as suas catástrofes. É claro que esse estilo apocalíptico incidiu no imaginário religioso brasileiro como um rastilho inconfundível de salvação, que afeta corações e mentes de maneira fulgurante. Marina Silva se transformou da noite para o dia num fenômeno eleitoral, capaz de catalisar a seu favor todas as insatisfações e demandas presentes na sofrida população brasileira. O discurso fundamentalista foi certamente o gesto inaugural de sua campanha.

Evidentemente, esse tom fundamentalista-messiânico se articula na figura de Marina Silva e sua origem pobre, representando o Brasil profundo dos seringais da Amazônia. Ela ecoa em todas as periferias das grandes cidades como uma vencedora inconfundível, promovendo uma aura de encantamento coletivo que reforça as marcas do messianismo. Suas vestimentas evocam permanentemente suas origens sociais e geográficas, uma aura de autenticidade, de alguém que ritualiza o tempo todo de onde veio, não obstante ter sido senadora da República e ministra de Estado. É o seu corpo ornamentado por tais figurinos que fala de maneira estridente.

Além disso, quando a candidata Marina Silva afirma que a Bíblia é sua maior fonte de inspiração e de consulta quando tem que tomar decisões importantes no que concerne ao espaço público, não resta a menor dúvida de que lança mão de razões de ordem religiosa para pensar a sociedade política. Contudo, se a Bíblia admite diversas interpretações e se essas variam de acordo com as mais diferentes tradições religiosas – da mesma forma aliás que a leitura do Alcorão pelas diferentes tradições muçulmanas –, não resta dúvida de que estamos confrontados aqui com as marcas inconfundíveis do fundamentalismo evangélico no campo político brasileiro, que se faz presente de maneira eloquente no discurso da candidata. O fundamentalismo marca de maneira indelével o discurso da candidata, na sua leitura literal da Bíblia, de forma que o dito fundamentalismo se transforma num obstáculo crucial para resolver os grandes impasses presentes na atualidade brasileira, que exigem outros referenciais teóricos para seus devidos encaminhamentos.

No entanto, esse estilo fundamentalista –messiânico se conjuga intimamente com o discurso sobre a nova política. Essa pretende refundar a política brasileira em novas bases, deixando para trás as marcas torpes da velha política. Se a nova política deseja atingir a pureza da transparência e fazer declinar desenvolvimento com sustentabilidade, não resta dúvida de que a crítica à corrupção é o ponto nevrálgico que orienta o discurso de Marina Silva no estabelecimento dessa oposição. Mas é evidente também que a oposição entre o bem e o mal é o eixo constitutivo desse discurso, que além disso orienta de maneira patente sua leitura sobre a subjetividade.

A nova política se desdobra em outras dimensões, nas quais o confronto entre o bem e o mal se faz também presente. Assim, Marina Silva pretende se associar com todos os homens públicos de bem existentes no País, independentemente de suas filiações partidárias. De Lula a Fernando Henrique Cardoso, todos os homens de bem são bem-vindos para participar da governabilidade em crise e à beira do abismo, com a exclusão daqueles que, a seu ver, representam o mal, como os atuais presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Vale dizer, a representação partidária não é considerada por essa retórica salvacionista. É o maniqueísmo moral que se apresenta aqui com uma nova face, de maneira explícita. Não podemos esquecer que, no recente aniversário do Banco Itaú, o sr. Setúbal saudou a candidata como a esperança de um país melhor, de forma que devemos concluir que o capital financeiro se inscreve decididamente no campo dos amigos do bem da candidata.

No entanto, se pegou mal para a candidata da nova política a mudança significativa de sua política sobre o casamento gay e a criminalização da homofobia, pela pressão ostensiva que recebeu do pastor Malafaia, é evidente que essas mudanças se fundem de maneira orgânica aos credos fundamentalistas que orientam as convicções básicas de Marina Silva.

É claro que o maniqueísmo marcou indelevelmente a cena política brasileira nos últimos anos em outras representações políticas, opondo o bem e o mal de maneira marcante. O embate entre o PSDB e o PT foi também permeado pelo maniqueísmo, se bem que sem as marcas religiosas. A novidade introduzida pela candidata do PSB foi o discurso religioso e messiânico na cena política da República, indicando uma inflexão decisiva no espaço social brasileiro bastante inquietante para os destinos de nossa sociedade política. Para resolver os graves problemas do País precisamos de menos maniqueísmo e messianismo e mais participação dos cidadãos na cena pública, para forjarmos instituições consistentes que não fiquem sujeitas ao fisiologismo do mercado partidário.

O messianismo é inquietante, pois qualquer fundamentalismo é maniqueísta. O mundo é mais nuançado que isso. No espectro das cores entre o branco e o preto existem outras colorações.

JOEL BIRMAN É PSICANALISTA, PROFESSOR TITULAR DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA UFRJ E PROFESSOR ADJUNTO DO INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL DA UERJ

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