Sam Hodgson/The New York Times
Sam Hodgson/The New York Times

Produtor de David Lynch e irmãos Coen vira diretor aos 82 anos

Ben Barenholtz inventou o filme da meia-noite com 'El Topo', de Jodorowsky e produziu obras dos irmãos Coen

John Anderson  , The New York Times

05 Agosto 2017 | 16h00

Os muitos créditos de Ben Barenholtz, embora ele os rejeite, incluem a arrancada que deu nas carreiras de David Lynch, dos irmãos Coen e John Sayles.

Ben às vezes foi produtor, mas, com mais frequência, foi distribuidor de filmes e dono de cinema. Apostou em Eraserhead, trabalho de estréia de David Lynch (1977) depois de ver apenas metade do filme e transformá-lo depois num Cult. 

Antes disso, ele inventou o fenômeno conhecido como “filme da meia-noite” com a estreia de El Topo (O Topo, clássico filme de 1970 dirigido pelo cineasta surrealista chileno Alejandro Jodorowsky) que teve lotação esgotada no cinema Elgin durante seis meses, seguido por Pink Flamingos (que estreou em 1972, pelo diretor John Waters) e por The Harder They Come (Balada Sangrenta, também de 1972, dirigido por Perry Henzell). 

Barenholtz administrou o Village Theater, que se tornou o Fillmore East, local de encontros antiguerra e de concertos de nomes como Ornette Coleman. Bebia na Cedar Tavern com o pintor Franz Kline. Interpretou um zumbi no filme Dawn of the Dead (Madrugada dos Mortos) de George Romero.

Hoje, aos 82 anos, Ben Barenholtz dirige seu primeiro filme dramático. “Eu nunca serei um Kubrick”, ele disse. E, com um sorriso, afirma: “E não entrei em pânico.”

O filme Alina, estrelado por Darya Ekamasova, narra a história de uma russa de olhos grandes na selva de pedra da Manhattan dos imigrantes. “É um filme antiquado”, disse o seu diretor e roteirista, figura fisicamente imponente, cabelos brancos e barba hirsuta. “Não tem super-heróis, nem efeitos especiais. Amo a direção. Mas não sabia se gostaria de dirigir um filme. A pior coisa é a papelada burocrática. Ainda estou às voltas com ela.”

Embora Alina já tenha sido exibido no Metrograph em uma quarta-feira à noite, ainda é um filme sem distribuição. Barenholtz pagou o cinema do seu próprio bolso. (“Na minha idade, como eu poderia pedir dinheiro para alguém? Ririam de mim.”) 

Barenholtz não conta com nenhuma agência de publicidade, nem mesmo distribuidora, apenas com um plano vago para o filme, o que é estranho no caso de alguém que orquestrou os destinos de tantos filmes e, por extensão, os de seus criadores.

O diretor David Lynch lembra que “na verdade, vivi durante dois meses num quarto na casa de Ben em 1977 porque o laboratório não conseguia tornar Eraserhead escuro como deveria. Foi um pesadelo.” 

E ele acrescenta: “finalmente conseguimos uma impressão excelente e estava prestes a ser lançado quando Ben disse que ‘não vou gastar mais um tostão’. Não fizemos muita promoção, mas depois de dois meses em cartaz, as filas davam volta na esquina.”

Lynch disse que gostou muito do filme de Barenholtz. “Acho que Ben e Daria Ekamasova realizaram um grande trabalho, a personagem é excelente, uma grande interpretação.”

O primeiro filme de John Sayles, Return of the Secaucus Seven (O Retorno dos Sete Amigos, de 1979) foi co-distribuído por Barenholtz. “Ben era bom nessa área de distribuição. Se não funcionasse daquela maneira, naquela cidade ele dizia, ‘vamos tentar de outro modo’”.

Barenholtz distribuiu também o primeiro filme dos irmãos Coen, Blood Simple (Gosto de Sangue) de 1984, e foi produtor executivo dos primeiros filmes deles, Miller’s Crossing (Ajuste Final, de 1990) e Barton Fink (Barton Fink, Delírios de Hollywood, do ano seguinte).

“Mas a situação mudou radicalmente. Hoje o mais difícil é conseguir um cinema em Nova York”, diz Barenholtz.

“Eram três ou quatro amigos chegados que ajudavam muito”, diz ele durante um almoço num restaurante de Manhattan, acrescentando que “É o showbizz, você sabe. O que vocês têm feito por mim atualmente? Quero dizer, o que vocês vão fazer? Da próxima vez não vou ajudá-los”, ele diz rindo, enquanto saboreia um prato de espaguete.

Daria Ekamasova conheceu seu diretor no Russian Samovar, na Rua 52 West, (onde muitas das cenas foram gravadas), por meio de um músico bêbado que lhe disse que o produtor dos irmãos Coen “tinha assistido meu filme”, Once Upon a Time There Lived a Simple Woman (em tradução livre, “Era uma Vez uma Simples Mulher”, de 2011), que propiciou a ela um Nika, prêmio russo equivalente ao Oscar.

“Ele desejava falar comigo. Achei que era piada”.

Daira diz que a idade de Barenholtz é irrelevante. “Estou pronta para apoiá-lo em tudo. Mesmo se ele tiver cem anos e me quiser como extra”.

Nascido em uma região da Polônia que pertence hoje à Ucrânia, Ben, sua família e outros judeus da sua comunidade fugiram para a floresta quando os alemães chegaram em 1941 e a solução final “tomou forma”, como ele escreveu em uma série de postagens no seu blog em 2010. Seu pai foi morto durante um ataque perpetrado por fascistas ucranianos ligados aos nazistas. O jovem Ben e sua família viveram na floresta até a chegada dos soviéticos, que os libertaram. (O primeiro filme que ele viu, Chapaev, era um filme de guerra soviético exibido para um batalhão de soldados prontos para partir para a frente de guerra. Esta foi a primeira película que exibiu no Elgin; ninguém apareceu para assistir).

As postagens no blog foram uma revelação, mesmo para pessoas que o conheciam há anos. “Passei momentos terríveis, mas não inusitados. Muitas pessoas também sofreram. Não sou uma pessoa especial. Claro que sou um ateu convicto. Estou vivo porque o ucraniano que atirou contra mim provavelmente estava bêbado. Mas eu me cansei falar a respeito disto. Então, passei a dizer que nasci no Brooklyn. Quando as pessoas me perguntam: ‘o que você faz?’, respondo que sou contador. Quando digo isto ninguém me dá um roteiro para ler. E de repente, não há mais ninguém à minha volta.”

O importante é confiar em si mesmo e não ter medo, diz ele. “Você é humano, não vai estar bem o tempo todo, mas se perder sua paixão, então o que você é?

“Esses jovens saem da escola e ficam à procura de fórmulas. Digo a eles que não sei nada. Eles me olham e pensam, “o senhor sabe, mas não quer me contar. Não quero. Eles têm de encontrar seu próprio caminho”. / Tradução de Terezinha Martino

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