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Retrospectiva lança luz sobre Henri Fantin-Latour

Pintor contemporâneo de Manet e Renoir não obteve o mesmo reconhecimento que seus pares

Andrei Neto, O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2017 | 05h00

Ano após ano, livros escolares da França reproduzem uma obra de arte na qual Édouard Manet (1832-1883) aparece ao lado de seu cavalete, liderando um grupo de pintores de vanguarda. Ao seu lado estão outros expoentes vanguardistas, como Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), que também introduziram um toque de academicismo na arte pictural, da mesma forma que o escritor Émile Zola fez na literatura. Quem imagina a cena no ateliê de Manet é alguém bem menos conhecido: o francês Henri Fantin-Latour (1836-1904), objeto de retrospectiva no Museu de Luxemburgo, em Paris, até 12 de fevereiro.

O quadro Un atelier aux Batignolles, de 1870, é uma das obras-primas de um pintor pouco conhecido por seu nome, mas célebre por seu trabalho. Foi ele quem ao longo de sua carreira registrou mestres das artes plásticas, da literatura e da ciência em telas que se tornaram célebres, não só pelo seu valor histórico, mas também artístico. 

Menos famoso que seus contemporâneos, Fantin-Latour foi um jovem inseguro sobre o seu talento, obcecado por aperfeiçoar-se pintando de forma recorrente um mesmo modelo, ele próprio, o único que considerava paciente o suficiente para aturar tantas horas de estudos. O resultado se vê em telas como Autoportrait Tête Baissée (Autorretrato com a Cabeça Abaixada).

Se sua obra foi marcada por uma profusão de autorretratos, retratos e naturezas-mortas também testemunham o virtuosismo foi reconhecido por seus contemporâneos, como o próprio Manet. O resultado pode ser apreciado no Museu de Luxemburgo, a primeira instituição de peso internacional a lhe consagrar uma exposição de envergadura desde a mostra de 1982, realizada no Grand Palais.

Na releitura idealizada por Laure Dalon, curadora da exposição, e pelos conservadores Xavier Rey, do Museu d'Orsay, e Guy Tosatto, do Museu de Grenoble, Fantin-Latour é apresentado primeiro como um jovem obsessivo em relação à arte, angustiado pela insegurança sobre sua habilidade e originalidade, e a seguir como um homem maduro, cosmopolita, pintor afirmado e retratista concorrido que preferia não aceitar encomendas para preservar a independência e liberdade de seu espírito criativo.

A exposição se centra em quatro grandes características: o retrato, a reprodução de naturezas-mortas, sua fase onírica – que tem vínculos surpreendentes com o interesse do pintor pela fotografia – e, claro, sua predileção por registrar grandes mestres em cenas ficcionais, mas que poderiam ter acontecido. 

Pintor de veio poético, Fantin-Latour tinha um quê de simbolista, outro de um realista, por seu interesse em reproduzir a sociedade e representar a vida cotidiana. Mas seus retratos de situações banais, como a leitura de um livro ou de homens em torno de um piano, se passam no interior de residências e em salas fechadas, como em Léon Maitre ou La Lecture. Suas telas não dão dimensão épica aos personagens, o que lhe valeu críticas até em Coin de Table, onde os protagonistas são membros da elite parnasiana do século 19, como os poetas Paul Verlaine e Arthur Rimbaud.

Fantin-Latour preferia uma gama de cores limitada, variando de tons de cinza e de marrom, o que confere aos quadros uma certa referência a renascentistas como, por exemplo, o alemão Hans Holbein le Jeune, autor de Retrato de Sir Thomas More, ou de Antonello da Messina, autor de Le Condottiere.

Seu gosto pelo desenho, pelo refinamento técnico, pela recusa – na maior parte de sua obra – de pintar a céu aberto e sua resistência às cores o faziam um autor de perfil clássico, do tipo formado pela Academia Real de Pintura e Escultura de Paris, referência da época em bom gosto e virtuosismo. Como Degas o fez com mais sucesso, em parte de sua obra, antes de participar da fundação do impressionismo, Fantin-Latour preferia os padrões de beleza da época, optando por uma linha artística menos focada na inovação, como seus contemporâneos de maior êxito.

Em mais de 60 obras e 30 litografias, além de desenhos e de estudos preparatórios, a mostra revela parte do processo criativo de Fantin-Latour, ao mesmo tempo em que segue um percurso cronológico de sua vida. Um dos méritos da exposição é fazer refletir sobre como um artista de imenso talento, mas que não se inscrevia em nenhuma tendência intelectual de vanguarda, pôde acabar quase esquecido pela história.

Embora fosse próximo ou amigo de grandes artistas, como Edgar Degas – um de seus mestres –, ou dos escritores Charles Baudelaire ou de Émile Zola, e fosse admirado por seus pares, como o próprio Manet, Fantin-Latour acabou lembrado nos livros escolares como um ilustre coadjuvante. A mostra em cartaz em Paris, e que parte a seguir para o Museu de Grenoble (a partir de 18 de março), é uma oportunidade de descobrir um artista cuja obra foi muito além da celebridade de seu próprio nome.

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