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Revolução Russa completa centenário sem historiografia ser traduzida

Apesar do interesse renovado das editoras, principais livros de historiadores, pesquisadores e estudiosos do evento não têm previsão de publicação no Brasil

Marcelo Godoy , O Estado de S.Paulo

18 Março 2017 | 16h00

Revoluções têm duas vidas. Em seu livro The Russian Revolution, publicado em 2008, a historiadora Sheila Fitzpatrick diz que a primeira dessas vidas é parte inseparável do presente, da política contemporânea. “Na segunda vida, ela cessa de ser parte do presente e se move para a história, para as lendas nacionais”. Sheila saiu do St. Antony’s College, de Oxford, em 1967, para iniciar sua vida como pesquisadora nos arquivos soviéticos em uma época em que a URSS era assunto para cientistas políticos, como Leonard Shapiro, da London School of Economics. O mundo da Revolução Russa ainda era presente e não havia alcançado a sua segunda vida, aquela reservada aos historiadores.

Essas duas vidas das revoluções estão em parte refletidas nos lançamentos que as editoras brasileiras programaram para este ano, o do centenário do evento. São mais de 50 títulos que casas como Record, Companhia das Letras, Perspectiva, Boitempo, Editora 34, Rocco e Sundermann devem lançar até o fim do ano de historiadores como Orlando Figes, Robert Service, Marc Ferro, Tamáz Krausz, Daniel Aarão Reis e de jornalistas, políticos e teóricos como Anne Applebaum, David Remnick, John Reed, Leon Trotski, Vladimir Lenin e Evgeni Pachukanis.

“Nosso esforço é garantir, por meio dos nossos selos, uma visão pluralista e preencher parte da lacuna existente sobre o período no País”, disse o editor Carlos Andreazza, do Grupo Record, que controla selos como a Civilização Brasileira e Paz e Terra. Entre os títulos que o grupo prepara estão História Cultural da Rússia (Natasha’s Dance), de Figes, e A Verdade sobre a Tragédia dos Romanov, de Marc Ferro. A Boitempo trará a biografia de Lenin do marxista húngaro Tamáz Krausz (Reconstruindo Lenin), assim como as traduções do russo de duas obras de Lenin (Escritos Filosóficos e O Estado e a Revolução). A Companhia das Letras relançará os clássicos Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson e Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo, de Reed, e publicou O Túmulo de Lenin, de Remnick. A Perspectiva trará O Ciclo do Totalitarismo, de Ruy Fausto, e a Três Estrelas lançou A Cortina de Ferro, de Anne Applebaun. 

Apesar do esforço das editoras, permanecem fora das livrarias brasileiras obras clássicas sobre a revolução, de autores como Alexander Rabinowitch, Sheila Fitzpatrick e Oleg Khlevniuk. Professor na Universidade Estatal de Moscou, Khlevniuk é editado no EUA pela Yale University Press. Foi ali que, em 2004, publicou The History of the Gulag, from Collectivization to the Great Terror, dentro da série Anais do Comunismo – que tinha entre os coordenadores editoriais o cientista político Zbigniew Brzezinski e a própria Sheila. Sua obra é a mais completa e rigorosa pesquisa feita sobre o terror estatal na União Soviética – o prefácio é do historiador Robert Conquest. Khlevniuk mostra como Stalin, por meio da OGPU (depois KGB), transformou o sistema penal em peça fundamental da industrialização do país por meio do trabalho escravo de milhões de prisioneiros dos campos e de camponeses exilados em áreas longínquas a partir de 1929.

Ainda sobre os anos de Stalin, o leitor brasileiro passará 2017 sem ver nenhuma das obras de Sheila. São livros como Everyday Stalinism: Ordinary Life in Extraordinary Times ou On Stalin’s Team, The Years of Living Dangerously in Soviet Politics. O leitor ficará ainda distante de teses de sua obra. Próxima do grupo que editava, nos anos 1960, o jornal Novy Mir, como o poeta russo Aleksandr Tvardovsky – responsável pela publicação de Um Dia na Vida de Ivan Denisovitch, de Alexander Soljenitsyn, durante o Degelo da era Khruchev – Sheila defende a ideia de que a revolução de 1917 só se completou com os grandes expurgos de 1937-1938. Crítica do marxismo, ela e outros historiadores sociais foram buscar nos arquivos a vida cotidiana capaz de ajudar a decifrar a sociedade soviética. Sua experiência como pesquisadora sob a vigilância da KGB está descrita em outra obra: A Spy in the Archives, que traça um retrato da vida em Moscou nos anos da estagnação de Leonid Brejnev (1964 a 1982).

Outra ausência no País são os clássicos The Bolsheviks Come to Power e Bolsheviks in Power, de Rabinowitch, nos quais o historiador – com extensa pesquisa documental – desmonta mitos comunistas e conservadores a respeito do papel de Lenin, da disciplina do partido e sobre o apoio popular ao seu programa. Ele mostra como Lenin estava distante de ser um líder inconteste no partido – esteve em minoria várias vezes em 1917 –, explica como o partido saiu de poucos milhares de militantes para se tornar uma agremiação de massa e, como o programa radical aliado ao uso do terror foram responsáveis pelo sucesso bolchevique e pela vitória na guerra civil, que duraria até 1921, impedindo a formação de um governo de coalizão com outros partidos socialistas.

“Há limitações no Brasil. Mesmo nas universidades há poucos pesquisadores de história russa. Isso ajuda explicar as lacunas”, disse o professor de história da USP Sean Purdy, que espera um dia ver em português o livro Revolution and Counterrevolution: Class Struggle in a Moscow Metal Factory, de Kevin Murphy. Para Alvaro Bianchi, professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp, são poucos os livros importantes sobre a URSS editados no País. Como exceção, destaca O Século Soviético, de Moshe Lewin, da Record. “Há um predomínio de autores conservadores, como Richard Pipes ou Service.” Este terá a biografia de Trotski publicada pela Record. Mas, se nenhuma editora se interessou pela biografia de Trotski do marxista Pierre Broué, também ninguém publicou o clássico antibolchevique Terrorismo e Comunismo, do social-democrata Karl Kautsky.

Para a editora Ivana Jinkings, da Boitempo, cabe às editoras “criar a demanda”. “Marx, é o exemplo. Quando decidimos editar, diziam que não havia mercado.” Ivana, Andreazza e outros importantes editores bem que se esforçaram para preencher as lacunas. Mas a historiografia da revolução russa, cujo significado permanece fortemente disputado em seu centenário – e assim deve se manter –, continuará pouco traduzida no País.

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