Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Ritual de moagem

Veteranos exacerbam para os calouros seu desdém pela ordem e regulamentos vivendo poder que não têm e autoridade que carecem

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 16h00

As celebrações inaugurais de anos letivos nas universidades, entre as quais o trote é a mais notória, tem funções sociais indiscutíveis, apesar da compreensível onda de apreensão e crítica em face da violência que as vem caracterizando. Um simples arrolamento do que nelas acontece já indica que são um modo, frequentemente tortuoso, de quebrar o liame entre a nova geração da classe média e a geração de seus pais. Mas também entre os que deixam a adolescência e se defrontam com as instituições que definirão a teia de enquadramentos que os fará adultos, cidadãos e profissionais. Dois conflitos lançam o jovem ingressante da universidade numa relação de desacordo com seu passado recente e de descontentamento com seu futuro próximo, no próprio limiar desse novo tempo de sua vida. Trotes de calouros e celebrações de veteranos são expressões rituais desse curto tempo da vida de um jovem universitário, que a realidade social condena a viver as incertezas do provisório e a tocar a vida entre parênteses, entre o que já não é e o que ainda não se tornou. Esse é o tempo da angústia de toda transição.

Já não são crianças e ainda não são adultos, um privilégio e um fardo para os que têm a adolescência prolongada pelo mero ingresso na universidade. Não é estranho, portanto, que muitos se comportem como imaturos, embora a maioria consiga agir com a sabedoria própria dos que têm esperança e não se deixe abater pelas adversidades próprias dessa idade da incerteza.

Desafiar, desrespeitar e destruir são formas negativas de encontrar rumo numa sociedade que se propõe às novas gerações como um monturo de carências morais, de bastardias políticas e de desrespeito à figura referencial, ainda que meramente doutrinária, do cidadão e da pessoa de bem. Nesses ritos de passagem uma geração exercita-se ritualmente na iniciação nas misérias do contemporâneo, exacerbando o que de pior há no mundo que lhes chega ao horizonte. E desse modo apresentando-o aos recém-chegados, seus companheiros de idade e de pós-adolescência. 

Mas há modos civilizados e incivilizados de fazer essa passagem. O trote, tal como o conhecemos, é o modo incivilizado de introduzir os calouros na sociedade transitória e precária da vida de aluno da universidade. A via do deboche, da humilhação do outro, pode ser também indicativa de que os praticantes desses trotes perfilham e aplaudem o que há de pior na sociedade em que vivemos. Não apenas ironizam, mas de fato acreditam que o mundo deveria ser assim. No elenco dos trotes e festas inaugurais deste início de ano letivo destaco alguns que expressam a selvageria da mentalidade reacionária e ultradireitista dos que nesse agir mostram-se continuadores da cultura do capitão do mato. Os calouros de arquitetura da Universidade Federal da Bahia foram recebidos por um boneco enforcado, negro, recoberto com seus nomes. O negro vitimado pelo tronco e pela chibata ainda pena no imaginário de gente que, 127 anos depois da Abolição, pensa como pensava o senhor de escravos. Na Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo, as calouras foram leiloadas no “leilão dos bixos”, tendo que declarar publicamente atributos e preferências de natureza íntima, tornando-se apadrinhadas de quem as arrematasse. A mesma mentalidade escravista do mercado de cativos do Valongo persiste e insiste. A mentalidade do pelourinho está no centro da cultura do trote. Tivemos mais de um século para aprender a respeitar as diferenças como legítimo direito de cada um e ainda há entre nós quem insista em tratar o outro como peça e mercadoria. 

Nessas “cerimônias”, os veteranos exacerbam para os calouros seu desdém pela ordem e pelos regulamentos, vivendo o poder que não têm e a autoridade de que carecem e na universidade é assegurada unicamente pelo trabalho intelectual sério e pela sequência de teses e concursos que, ao longo de uma vida mal paga e mal reconhecida, qualificam os docentes e diferenciam quem ensina de quem aprende. Desdém que se enraíza na prática dos novos alunos, muitos dos quais e cada vez mais tratam hoje seus professores como tratam em casa suas empregadas domésticas e como seus bisavós tratavam os escravos. 

A descontinuidade entre as gerações é um traço característico da sociedade moderna, em grande parte porque os que vão chegando têm como quadro de referência de sua socialização interferências de todo tipo, estranhas à família e estranhas à escola. Elas são infiltradoras de significações e até mesmo de uma lógica de vida completamente divorciada das tradições de família e das tradições acadêmicas, que, mesmo não sendo conservadoras, implicam o pressuposto da continuidade própria da produção do conhecimento e de sua difusão. Se nos ativermos à ciência, ela muda a vida e muda o mundo, mas muda no marco de um essencial que permanece: cognitivo, ético, social, lógico. As revoluções copernicanas no campo do conhecimento são menos frequentes do que se imagina e do que até mesmo se pode querer. É próprio da revolução científica a prudência, a regra, o critério, o método. 

Evidência dessas interferências impróprias e invasivas e, ao mesmo tempo, altamente significativas pode ser vista na foto, publicada pelos jornais, do grupo de estudantes da Unesp de Bauru que promovia uma disputa de bebedeira, de que resultaram vários rapazes e moças levados em coma para hospitais, um deles morto depois de tomar 25 copos de vodca. A camiseta amarela que vestiam tinha no dorso, bem ostensiva, a marca de conhecida cerveja, apoiadora do evento. Bebida é para ser bebida, se muita ou pouca depende do bom senso de cada um, é verdade. Mas a lógica da empresa que produz bebidas é a da quantidade que seus clientes e patrocinados bebem e não a moderação. Moderação no beber é coisa de religião e não do fabricante de bebida. São hipócritas e enganosas frases de propaganda como “beba com moderação”, “se beber, não dirija”. 

A lógica autodestrutiva das festas de bebedeira está numa inserção que o próprio estudante falecido havia feito na internet: “É melhor morrer de beber vodca do que morrer de tédio”. Mesmo que seja brincadeira, há um conteúdo suicida nessa afirmação, confirmada pela descabida morte de quem a fez. Caso extremo e trágico do ímpeto de ruptura que nas celebrações inaugurais de ano letivo, à luz de outras ocorrências do mesmo gênero, dos últimos anos, indica quanto uma certa tendência à autodestruição está presente nessas festividades, na morte própria e na morte do outro. É o tudo ou nada do radical descompromisso com a sociedade atual, tanto importa viver quanto morrer. 

Por mais que a universidade seja o lugar por excelência de formação dos agentes da inovação em todos os campos do conhecimento. Portanto, como lugar da ordem que cria a desordem da mudança. Só que seus personagens mais numerosos, os estudantes, são também personagens da crise de gerações. Mesmo os mais conformados com o já existente, em algum grau foram socializados pelos valores invasivos que, na sociedade de consumo, são sobretudo os valores do agora, do instante, e não os valores do sempre, do que permanece e muda ao mesmo tempo. Os trotes e as celebrações inaugurais acabam se tornando momentos rituais da absolutização da recusa do existente. O que não tem como ganhar corpo em casa e na família explode na universidade, entre nós positivamente regulada pelos valores da liberdade. Porém, essa liberdade necessária é capturada pelas motivações e impulsos da negação do que se é.

A universidade é lugar e momento de ritos de passagem, em que o adolescente se torna adulto, perde sua identidade difusa e constrói sua identidade nova, aquela que dirá a todos quem ele é e será ao longo da vida. A sociedade de consumo e seus valores corrosivos desconstroem o modo de ser, mas também a identidade possível dos que estão chegando ao mundo adulto. Ao mesmo tempo, desconstroem o ser possível da identidade que poderiam ganhar se mergulhassem no espírito da universidade.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO. PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP. AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE LINCHAMENTOS - A JUSTIÇA POPULAR NO BRASIL (CONTEXTO, 2015)

Mais conteúdo sobre:
Aliás trote

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.