Academia de Belas Artes da Pensilvania
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Romance de Walt Whitman ficou perdido por 165 anos

Livro tem pistas para 'Folhas de Relva'

Jennifer Schuessler, The New York Times

25 Fevereiro 2017 | 16h00

Leitores que leram The New York Times de 13 de março de 1852 podem ter visto um pequeno anúncio na página 3 falando de um folhetim cuja publicação começaria no dia seguinte em um jornal rival. “Uma rica revelação”, começava o anúncio, procurando chamar para uma história mirabolante sobre “os Modos e Morais de Casas de Pensão, algumas Cenas da História da Igreja, Operações em Wall Street”, e “ilustrativos Esquetes de Homens e Mulheres” (apresentados, fiquem tranquilos, com “explicações necessárias para uma apropriada compreensão do que se trata”).

A mistura foi pouco empolgante, talvez. O relato, que nunca foi revisado ou reimpresso, parece ter afundado como uma pedra.

Mas agora nos chega outra revelação rica: a história anonimamente publicada era nada menos que um romance completo de Walt Whitman.

Life and Adventures of Jack Engle, de 36 mil palavras, descoberto no verão americano passado por um estudante de pós-graduação, está sendo republicado online na segunda-feira pela The Walt Whitman Quarterly Review e na forma de livro pela University of Iowa Press. Relato quase dickensiano das aventuras de um órfão, nele figuram um advogado pelintra, Quakers virtuosos, políticos hipócritas, uma dançarina espanhola sedutora e muitas peripécias improváveis e mudanças de narrativa desconexas.

“É a abordagem de Whitman do romance de mistério urbano, um gênero popular do momento que opunha os 10 mil do topo – os que poderíamos chamar de 1% – ao um milhão de baixo”, disse David S. Reynolds, um especialista em Whitman no Graduate Center of the City University of New York.

Mas, como dizem Reynolds e outros pesquisadores que o viram, o relato também oferece pistas para outro mistério: como um jornalista prosaico e poeta bastante convencional se transformou no autor dos versos livres sensuais, filosóficos, violentamente experimentais e totalmente inclassificáveis de Leaves of Grass. “É como ver a oficina de um grande escritor”, disse Ed Folsom, o editor de The Walt Whitman Quarterly Review. “Estamos descobrindo o processo da descoberta do próprio Whitman.”

Essa foi uma transformação que o próprio Whitman desejou ocultar. Ele falou pouco sobre o início dos anos 1850, quando trabalhou como carpinteiro no Brooklyn e não publicou quase nada, trabalhando no que veio a ser a primeira edição de 1855 de Leaves of Grass.

Mais tarde, ele praticamente rejeitou seu bem-sucedido romance sobre temperança (movimento contra o consumo de bebidas alcoólicas) de 1842, Franklin Evans; or The Inebriate, e teve pouco interesse de ver sua ficção contista revivida. “Meu sério desejo”, ele escreveu em 1882, “era que aquelas peças toscas e pueris caíssem silenciosamente no esquecimento”. Em 1991, quando um crítico estava planejando republicar alguns de seus primeiros contos, ele foi categórico: “Eu quase fiquei tentado a atirar nele se tivesse a oportunidade.”

Isso não perturbou Zachary Turpin, o estudante de pós-graduação que encontrou Jack Engle. Aliás, esta é a segunda vez que um “raio de arquivo” atingiu Turpin. No ano passado, ele anunciou a descoberta de Manly Health and Training, um tratado até então desconhecido de autoajuda de 47 mil palavras que Whitman publicou no The New York Atlas em 1858. “Um amigo brincou que era isso que estaria inscrito em minha lápide”, disse Turpin.

A biblioteca de literatura americana perdida inclui muitos “desconhecidos conhecidos”, como Turpin os nomeia (parodiando Donald Rumsfeld), como The Isle of the Cross de Herman Melville (o oitavo e último romance que ele pode, ou não, ter acabado) e The Sleeptalker de Whitman, um romance aparentemente completo de 1850 que ele discute em suas cartas, mas que não sobreviveu.

Turpin fez da busca dos “desconhecidos conhecidos” uma especialidade, usando enormes bases de dados online que compilam milhões de páginas de jornal do século 19. Um dia de maio passado, ele introduziu alguns nomes e frases de anotações fragmentárias para uma possível história envolvendo um advogado corrupto chamado Covert e um órfão chamado Jack Engle – um de muitos itens nos volumosos cadernos de Whitman que o Walt Whitman Archive online julgava não ter nenhuma conexão evidente com qualquer material publicado conhecido.

Apareceu o anúncio contendo o nome Jack Engle. O folhetim deveria sair em The Sunday Dispatch, um jornal de Nova York para o qual Whitman comprovadamente havia contribuído. “Meu instinto de aranha estava realmente tinindo”, disse Turpin.

Turpin pediu para escanearem a primeira página do jornal na Biblioteca do Congresso que conserva a única cópia conhecida (e ainda não digitalizada ou microfilmada) do Dispatch daquele dia. Um mês depois, ele ficou estupefato ao abrir um arquivo mostrando uma página amarelada contendo “Jack Engle” e outros nomes das anotações de Whitman. “Eu estava na casa de parentes montando um cercadinho de bebê quando chegou o e-mail”, ele recordou. “Daquele dia em diante, fiquei fervendo por dentro.”

O relato de 36 mil palavras, publicado em seis capítulos repletos de erros tipográficos pode não pertencer ao cânon literário americano. “Não é um grande romance, mas não é uma leitura ruim tampouco”, disse Reynolds, o autor de Walt Whitman’s America. Turpin o chamou de “mirabolante, interessante, belo, belo e bizarro” com reviravoltas grotescas, nomes hilários e conspirações reveladas subitamente que lembram “um Thomas Pynchon pré-moderno” ou mesmo, ele arriscou, o filme Deu a Louca no Mundo.

Isso pode parecer muito distante de Leaves of Grass. Mas Jack Engle e os outros personagens masculinos jovens desajustados, disse Reynolds, são reminiscentes da persona do homem das ruas – Walt Whitman, an American, one of the roughs – que ele criou com Leaves of Grass.

E há o Capítulo 19, que Folsom chamou de “um momento mágico”. Neste, Jack entra no cemitério da Trinity Church em Lower Manhattan, e a trama maluca vai parando lentamente em favor de um devaneio sobre natureza, imortalidade e a unidade de ser que ecoa fortemente o imaginário da grande obra de Whitman. “Long, rank grass covered my face”, diz Jack, o narrador em primeira pessoa. “Over me was the verdure, touched with brown, of trees nourished from the decay of the bodies of men.” (Em tradução livre, “Relva longa, malcheirosa, cobria meu rosto. Sobre mim estava a verdura, tingida de marrom, de árvores nutridas da decomposição de corpos humanos”.)

Jack perambula por entre esses corpos de homens, copiando as inscrições das lápides de Alexander Hamilton, do herói da Guerra de 1812 Capitão James Lawrence (famoso pela frase “Não abandonem o navio!”) e outras vidas perdidas. Em seguida, ele sai para as ruas, onde “para dentro rolava a ampla, brilhante corrente”; e rapidamente e com muita indiferença arremata sua própria história. “Por todo o romance, vê-se constantemente Whitman divagando para fora do enredo, olhando para a vida em todos os recantos e fendas da cidade”, disse Folsom. “Com a visita ao cemitério, onde terminam todos os enredos, é como se ele subitamente perdesse o interesse em todos os enredos; ou, pelo menos, neste enredo.”

Hoje, nós pensamos no verso livre radicalmente expansivo de Leaves of Grass com seu “Eu” errante que “contém multidões” como um dos marcos da história literária americana. Mas em seus cadernos do começo dos anos 1850, observou Turpin, Whitman estava brincando com outras formas para sua obra maior. “Você o vê perguntar, Deveria ser um romance? Ou uma peça de teatro, com milhares de pessoas no palco, entoando em uníssono?” ele especula. “É admirável pensar que Leaves of Grass poderia ter tomado uma forma completamente diferente.”

Turpin disse que o capítulo do cemitério trouxe à sua lembrança “Crossing Brooklyn Ferry”, um dos poemas mais famosos de Leaves of Grass, no qual Whitman declara, “I am with you, you men and women of a generation, or ever so many generations hence” (Em tradução livre, Estou com vocês, vocês homens e mulheres de uma geração, ou mesmo de tantas gerações futuras).

Mas quando perguntado como era ser o primeiro de muitas gerações a ler o romance recém-ressuscitado de Whitman, Turpin recorreu a outra linha quase mística. "Whitman disse algo realmente grande: 'Nada está ou pode estar realmente perdido para sempre'", ele disse. “A gente realmente começa a acreditar nisso depois de um tempo.”/Tradução de Celso Paciornik

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