CARLOS LORDELO/ESTADÃO
CARLOS LORDELO/ESTADÃO

Saber e poder

Ao rejeitar a cátedra Foucault, PUC-SP injeta fundamentalismo na espinha dorsal da universidade brasileira, avalia professor

Joel Birman, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2015 | 16h00

A concepção de universidade pode ser evidenciada pela sua conjunção e declinação com a ideia de universalidade, que se enunciou desde a sua constituição histórica ocorrida no final da Idade Média e com o advento do Renascimento. Em decorrência disso, como representação privilegiada e eloquente do universal a universidade não poderia ser identificada com o discurso do particularismo, nem tampouco com os do autoritarismo e do totalitarismo, que seriam então desdobramentos daquele. Além disso, o significante universalidade se articulava com a constituição do conceito de universo que indicava, como espaço aberto e infinito tal como foi definido pelo discurso da astronomia, a sua oposição à ideia antiga do cosmos fechado e finito. É claro que a Igreja, como discurso e como instituição hegemônica, se opunha como podia à abertura dos novos mundos possíveis representados pelas linhas de força delineadas pela universidade e pelo discurso da nova física, de forma que a Inquisição era a encenação maior deste obstáculo.

Contudo, com o Iluminismo e a modernidade, nos séculos 18 e 19, ocorreu uma radicalização do projeto da universidade pela multiplicação dos discursos científicos e filosóficos nesta presentes, de maneira que se intensificou a perspectiva universalista pela configuração de novos espaços para a disseminação do saber. Desta maneira, a universidade passou a ser permeada pela polifonia discursiva, onde as diversas modalidades de saber puderam dialogar ativamente entre si nas suas diferenças, sendo inclusive este permanente confronto polivalente a condição concreta de possibilidade para a expansão e a disseminação das ciências e da filosofia, independentes de qualquer filiação religiosa, de forma que ao longo do século 20 a universidade se manteve fiel ao seu projeto originário.

Porém, este projeto passou a ser frontalmente ameaçado pela difusão do fundamentalismo na contemporaneidade, não apenas no Oriente como também no Ocidente, pois o que caracteriza o fundamentalismo é a impossibilidade de conviver com as diferenças. Com efeito, se anteriormente estas eram não somente suportáveis mas também a matéria-prima para os desenvolvimentos nos campos científico e filosófico, assim como constituía o solo alteritário para a construção dos discursos ético e político, com o fundamentalismo, em contrapartida, a diferença foi francamente diabolizada, de maneira que o diferente se deslocou da posição de adversário para a do inimigo, que como tal deveria ser combatido e eliminado.

É no contexto sinistro do fundamentalismo contemporâneo que se inscreve o que ocorreu há poucas semanas no Brasil, onde a Cátedra Michel Foucault não pôde ser instituída na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com as alegações de que Foucault era homossexual e crítico do catolicismo. Assim, as gravações originais dos cursos proferidos por Foucault no Collége de France, que seriam doados para a dita cátedra, não poderão mais estar à disposição dos professores, pesquisadores e alunos interessados no estudo da obra de um dos maiores filósofos do século 20 e que continua ainda sendo uma referência fundamental em todo o mundo. 

É uma lastima que algo de tal gravidade acadêmica, ética e política tenha ocorrido hoje, principalmente numa universidade que ocupou uma posição relevante de resistência no Brasil nos anos de chumbo da ditadura militar, sendo um dos espaços de oposição ao regime de exceção então implantado. Trata-se então de um ato obscurantista que é inesperado na tradição universitária, que não se coaduna, além disso, com as vigas mestras da democracia brasileira em curso, que se caracteriza pela abertura ética de cada cidadão para o que há de diferente no outro, como condição política que isso é não apenas para a tessitura dos laços sociais como também para o desenvolvimento científico e filosófico da sociedade brasileira. Enfim, o ato absurdo da PUC-SP é um retrocesso terrível para a tradição brasileira - nos registros político, ético e científico -, pois inscreve o fundamentalismo na espinha dorsal da universidade, marcada que esta deve ser pelo universalismo e pela diferença, confirmando assim pelo absurdo o filosofema fundamental do pensamento de Foucault que enuncia as relações cruciais entre saber e poder.

JOEL BIRMAN É PSICANALISTA E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

Mais conteúdo sobre:
PUC foucault faculdade universidade

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.