Sai, zika

Brasileiro acha que transgressor é o outro, que o mosquito só ataca o outro. Falta combinar isso com o Aedes, que, aliás, não distingue classe

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 16h00

Não é a primeira vez que o mosquito Aedes aegypti distribui inquietação em solo brasileiro. Tornou-se famoso há mais de um século como agente da febre amarela no Rio de Janeiro. Não sei se estamos aprendendo com o passado. Deveríamos estar. Apesar da gravidade das doenças de agora, especialmente a microcefalia decorrente da ação do zika, estamos longíssimo da severa e eficaz atitude das autoridades sanitárias de então, dirigidas pelo competente sanitarista e médico paulista Oswaldo Cruz, que colocou sob controle a febre amarela no Rio de Janeiro no começo do século 20. Apoio à ciência e lucidez sociológica quanto aos fatores da doença e quanto aos fatores da resistência social ao seu tratamento científico foram decisivos para debelar a doença. Uma combinação virtuosa que parece distante dos dias atuais, apesar de vivermos em tempos de maior conhecimento científico e de maior rapidez na sua difusão. Mas o senso comum ainda é, entre nós, poderosamente eficaz contra o conhecimento científico.

Na época, os responsáveis pelas medidas preventivas sabiam perfeitamente que a urgência da ação e a distância cultural da população quanto ao que a ciência poderia fazer impunham medidas drásticas, até mesmo sua militarização e, quando necessário, medidas repressivas. Antes dos interesses individuais e privados vinha o interesse coletivo e social como dever do Estado. Mesmo assim, Oswaldo Cruz foi objeto de ridicularização e hostilidade até mesmo por parte de médicos, sem contar jornais e revistas cheios de caricaturas e de textos debochados. Isso só servia para que a população pusesse em dúvida a competência do sanitarista, embora não pusesse em dúvida a competência dos charlatães.

As dificuldades brasileiras para implantar políticas de saúde pública e de medicina preventiva ficaram sociologicamente evidentes em 1904. Aprovada a lei de vacinação obrigatória contra a varíola, explodiu a revolta popular, a chamada Revolta da Vacina, que durante uma semana inteira tumultuou a vida da cidade do Rio de Janeiro com depredações e até violência contra pessoas. Foi necessária a decretação do estado de sítio para viabilizar medidas que fizessem a revolta cessar. A vacinação obrigatória foi cancelada. A vacina já era conhecida e usada no Brasil havia um século.

A militarização de medidas no âmbito da saúde pública não tem sido rara na história do Brasil contemporâneo. Ainda agora, em vários lugares, os educadores sanitários se fazem acompanhar de soldados do Exército. O caso mais emblemático foi o do chamado Serviço da Malária, cujos agentes, no caso da Amazônia, eram popularmente conhecidos como soldados da malária. A doença era transmitida pelo mosquito Anopheles. Conheci de perto a eficaz e patriótica ação desses soldados da malária nos anos 1970, quando estava fazendo uma pesquisa na Amazônia sobre tensões na frente pioneira. Tinham organização e disciplina militares, vestiam farda e eram encarados como militares pela população, o que dava credibilidade ao que faziam. Sendo agora muito mais grave a ação do mosquito é, no entanto, muito menos radical a guerra contra ele.

Hoje causaria tensão adotar medidas compulsórias como essas. Fomos convencidos, nas últimas décadas, de que sabemos defender a liberdade com responsabilidade, o que com frequência não se confirma. Qualquer um de nós sabe perfeitamente o que deve fazer para combater o mosquito e sua ação, a partir das informações sanitárias já difundidas. Sabemos, mas não fazemos. Há poucos dias minha casa foi visitada por dois agentes de saúde (uma educadora sanitária e um acompanhante, perfeitamente identificados). Inspecionaram o quintal para ver se havia águas paradas ou algum ambiente propício à reprodução do mosquito. Não havia. Como no bairro há piscinas, mostrou-me o agente de saúde um tubo de ensaio com água de piscina de uma das casas próximas, na qual se viam as larvas vivas. Conversamos um pouco. Não só o empoçamento de água cria um ambiente próprio para a reprodução do mosquito, mas o matagal dos terrenos baldios cria o abrigo do mosquito, que faz suas revoadas de manhã e à tarde.

Em geral se supõe que os pobres são mais desleixados quanto aos cuidados a tomar, muitas vezes rodeados de objetos que podem ser considerados lixo, mas que na verdade são materiais de reserva para uso eventual nas necessidades da casa. Muitos desses objetos servem para o acúmulo de água e para a reprodução do mosquito. Mas os ricos também são desleixados, como no caso dos vasos e das piscinas. Minha rua é de mão única. No entanto, um bom número de meus vizinhos prefere trafegar na contramão, como se a rua fosse só deles. Com essa mentalidade, é pouco provável que se interessem por regras de saúde pública que protejam a vida de vizinhos e a sua própria. O brasileiro invariavelmente acha que transgressor é o outro, que o mosquito só ataca o outro. Falta combinar isso com os mosquitos, que não fazem distinção de classe social.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS SOCIÓLOGO, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE UMA SOCIOLOGIA DA VIDA COTIDIANA (CONTEXTO

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