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'Salvem o futebol das mãos da Fifa'

Andrew Jennings - O Estado de S. Paulo

14 Junho 2014 | 16h 00

Para repórter investigativo britânico, brasileiros devem aproveitar a Copa para cobrar transparência da entidade máxima do esporte

Nelson Almeida/AFP
Para repórter investigativo britânico, brasileiros devem aproveitar a Copa para cobrar transparência

Sepp Blatter não quer que saibamos, mas já está gastando com advogados em Zurique boa parte do dinheiro que levará do Brasil. O motivo? Desde novembro ele tenta impedir a publicação de um livro. 

Seria uma obra séria de jornalismo investigativo repleta de alegações de corrupção devidamente documentadas? Não. Acusações de que ele rouba o dinheiro do futebol? Não nessas páginas. Compra de votos? Isso aparece em outros textos. O conteúdo do livro é muito mais danoso a Herr Blatter, que se convenceu de que é o homem mais importante do planeta. Trata-se de uma coleção de caricaturas que não o levam muito a sério. É esse o “crime” que os advogados suíços tentam comprovar há sete meses. 

O ex-jogador dinamarquês Olé Andersen desenvolveu uma segunda carreira após aposentar-se e trabalhou por muitos anos na Fifa como artista gráfico. Lá, ele viu o mundo secreto de Sepp Blatter e produziu um divertido livro de caricaturas.

Não contem aos advogados do presidente, mas eu já vi o livro. As caricaturas são engraçadas. Não há nenhuma baixaria, nada de indecente. Então, o que elas mostram, afinal? Será que ouso revelar? Andersen cometeu o crime mais grave do futebol mundial: suas caricaturas demonstram desrespeito em relação a Herr Blatter, o deus-rei do futebol. Para Blatter, levar o caso aos tribunais não custa um centavo. Ele diz que, quando é insultado, a Fifa é insultada - e, por isso, a organização arca com a conta. Ótima jogada, Sepp! Um engradado de lagostas terá de ser subtraído da conta final da hospedagem no Copacabana Palace, e haverá menos pares de chuteiras infantis para os países pobres que Blatter diz amar.

O desrespeito está no fato de as caricaturas mostrarem o Blatter de verdade. A barriga imensa, os olhos pequenos e estreitos, sempre tramando algo, as papadas de peru, a palidez da pele antes de receber a maquiagem para as aparições perante o Congresso.

A equipe de Blatter é formada por mestres do Photoshop. Seu olhar sábio e benevolente está em todas as publicações da Fifa. Jamais adivinharíamos que ele tem 78 anos e traz as cicatrizes de uma tumultuada vida pública e particular. Quer que acreditemos que o futebol não pode sobreviver sem ele.

Blatter engana a si mesmo pensando ser o homem capaz de resolver a disputa entre israelenses e palestinos num campo de futebol, coroando sua carreira com um Prêmio Nobel da Paz. Esse é um dos motivos pelos quais quer mais quatro anos.

As caricaturas mostram esse homenzinho obeso e acabado, arqueado sob o peso dos anos de manipulação e mentiras para se manter no poder.

Olé gostaria de dar uma declaração, mas isso não seria prudente.

Na semana passada, os advogados de Blatter depositaram sobre a cabeça do cartunista um tsunami legal de 21 páginas externando o pesar do presidente. O tom se alterna entre o pomposo e o suplicante. Eles dizem ao tribunal: “O livro destruirá o nome de Blatter, arruinando sua reputação”. Seria de fato surpreendente se, após décadas de alegações de corrupção, ele ainda tivesse algo de positivo na reputação.

Como seus advogados conseguem manter uma expressão séria? Eles recebem muito dinheiro porque seu chefe reluta em ir aos tribunais para descrever a dor que sente. O drama dele seria objeto da atenção da mídia mundial e, principalmente, dos risos do público. Será que esse bebê chorão de pele sensível é a pessoa mais indicada para administrar nosso esporte?

O que deixou o ditador da Fifa mais irritado? Vou dar uma dica. Trata-se de uma caricatura mostrando Blatter como Charlie Chaplin no filme O Grande Ditador.

Quarta-feira telefonei a Olé Andersen para dar-lhe umas palavras de conforto. Alguns anos atrás, Blatter procurou secretamente seu tribunal favorito em Zurique, que prontamente proibiu meu livro Jogo Sujo. Sua triunfalista assessoria de imprensa me enviou um e-mail dizendo que o livro estava morto e, se eu insistisse na tentativa de publicá-lo, acabaria encarcerado na Suíça.

Meus advogados pediram para se reunir com o tribunal no dia seguinte e solicitaram a presença de Blatter para que explicasse o problema. Ele não o fez, retirou a queixa e ainda divulgou um pronunciamento mentiroso dizendo que a obra tinha sido revisada sob pressão dele e não era mais problemática. Foi bobagem, porque o livro já tinha sido impresso e nenhuma mudança poderia ser feita. Com o episódio aprendi muito a respeito da honestidade de Blatter.

Olé vai ganhar a disputa e, poucos dias depois, suas Caricaturas de Blatter estarão disponíveis no Kindle nos mais diferentes idiomas. Nem preciso dizer muito sobre o livro: as ilustrações são incríveis!

Vou acompanhar atentamente aquilo que minha televisão mostrar do Maracanã. Quero assistir ao futebol, mas meus olhos estarão sempre buscando o reluzir das joias atrás das janelas de acrílico dos camarotes VIP. Minha pergunta: será que José Maria Marin trará secretamente seu benfeitor, Ricardo Teixeira, com a cabeça escondida sob a bandeira nacional, para assistir ao jogo de um desses exorbitantes salões corporativos?

Os contribuintes brasileiros pagaram por esses camarotes, assentos que os fãs brasileiros jamais poderiam comprar. Em nome da família Blatter, gostaria de agradecer a vocês. E também um muito obrigado da empresa Taittinger, dona do contrato exclusivo de distribuição de champanhe. O contrato de hospitalidade corporativa de todos os estádios foi concedido por tio Sepp à empresa Match, da qual a empresa Infront, do sobrinho dele, Philippe Blatter, é dona de uma parte. Os proprietários majoritários da Match são os irmãos mexicanos Jaime e Enrique Byrom, trazidos para o mundo dos lucros do futebol algumas décadas atrás por João Havelange.

Os irmãos Byrom são sortudos. Eles têm também um contrato para fornecer todos os 3 milhões de ingressos da Copa do Mundo. Das entradas, 450 mil são reservadas para a elite nos camarotes com seus chefs, garçonetes e estacionamentos privilegiados. Aqueles que estiverem desesperados por um ingresso para a final podem se encaminhar para a Entrada dos Podres de Ricos e ver se algum dos 12 mil bilhetes entregues pelo tio e por Teixeira ao sobrinho e aos irmãos está sobrando.

Os brasileiros que percorrem grandes distâncias para assistir aos jogos precisarão de quartos de hotel, e nisso os irmãos podem ajudar. Tio Sepp deu a eles o contato da indústria hoteleira e, como perderam muito dinheiro na África do Sul em 2010, a Fifa concedeu-lhes um empréstimo sem juros da ordem de £ 6 milhões (cerca de R$ 22 milhões) para lubrificar a engrenagem comercial.

Caso Sepp Blatter queira sair inteiro do aeroporto do Galeão, o Brasil precisa ser campeão da Copa do Mundo. Por isso, se Neymar, Fred ou Hulk quebrarem a perna ou se Marcelo sofrer um mal súbito como ocorreu com Ronaldo, em 1998, não há motivo para preocupação.

Por pior que seja o desempenho da seleção nos campos, Blatter tem muito poder sobre o resultado. No passado, alguns juízes das partidas não passaram de fantoches interessados apenas em viajar pelo mundo, receber quantias vultosas e participar de intercâmbios culturais nos bordéis. Blatter encontrou dois capachos do tipo em Seul em 2002, demonstrando que nada tem a aprender com os criminosos responsáveis por resultados arranjados que ele tanto gosta de criticar.

Assim como a corrida de camelos parece ser o esporte preferido no Catar, a Coreia do Sul é fã do beisebol. Uma vez que a seleção do país fosse eliminada, os estádios ficariam vazios e as emissoras de TV do mundo inteiro ficariam constrangidas ao mostrar as fileiras de assentos vagos.

A Coreia do Sul conseguiu se classificar na fase de grupos e enfrentou a Itália, sempre uma adversária formidável. Mas, para os italianos, formidável mesmo foi o juiz Byron Moreno, do Equador. Ele apitou um pênalti duvidoso para a Coreia do Sul com apenas quatro minutos de jogo - mas o goleiro defendeu. Os minutos foram passando e a Itália foi melhor, com um gol de Christian Vieri. A aparente vitória foi impedida aos 44 minutos do segundo tempo, quando a Coreia do Sul empatou.

O jogo foi para a prorrogação e, pouco antes do intervalo, Francesco Totti foi derrubado na área coreana. Os replays mostraram que um pênalti deveria ter sido apitado em favor da Itália. Em vez disso, Totti foi castigado por simulação.

No segundo tempo, o gol de ouro de Damiano Tommasi foi anulado, mais uma vez deixando perplexos os fãs do mundo inteiro. Três minutos antes do final da prorrogação, Ahn Jung-hwan saltou mais alto do que a zaga italiana para marcar de cabeça o gol de ouro. A Coreia do Sul avançou para enfrentar a Espanha nas quartas de final.

A Espanha enfrentou três adversários. A Coreia do Sul, o juiz Gamal Al-Ghandour e o bandeirinha Michael Ragoonath, de Trinidad, escolhido para apitar no torneio pelo conhecidamente corrupto Jack Warner. A Espanha marcou no segundo tempo; o juiz anulou o tento. A partida foi para prorrogação. O espanhol Fernando Morientes fez gol, mas Ragoonath ergueu a bandeira. A Coreia cobrou um tiro de meta. Nos replays, vemos que o bandeirinha foi incompetente, na melhor das hipóteses.

A Espanha conseguiu um escanteio no último minuto da prorrogação, mas o juiz encerrou a partida um minuto antes do término do segundo tempo da prorrogação, antes que a seleção espanhola tivesse chance de cobrar o lance. A Coreia do Sul venceu nos pênaltis e se classificou para as semifinais. Os estádios continuaram cheios.

Assim, se a seleção não for capaz de avançar por mérito próprio, os juízes de Blatter resolverão o problema. Ele é mesmo um grande presidente!

Vamos torcer para que João Havelange tenha pedido aos seus sócios gângsteres naquilo que restou do clã Andrade no Rio de Janeiro que declarassem cessar-fogo durante o campeonato. Não precisamos de uma repetição de abril de 2010, quando uma bomba explodiu o jovem Diogo Andrade, morte seguida por outros assassinatos vingativos, numa disputa pelo controle da corrupção.

Graças à egocêntrica determinação de Blatter de se manter na presidência da Fifa, o futebol mundial apresenta hoje um amargo cisma. Jornalistas como eu, que revelam como ele e seus associados subornaram funcionários menos ricos na África e na Ásia, são denunciados como “racistas”. Ele não tem limites. Sem nenhum constrangimento, mais dinheiro é doado aos gananciosos funcionários para que comprem votos para Blatter.

Independentemente de ele vencer a eleição ou não, seu legado será marcado pela corrupção e pelo ódio. A Fifa é uma piada global, alvo da gozação de comediantes. Depois que nos livrarmos de Blatter a Fifa vai precisar de uma faxina, para que as feridas infligidas por ele possam cicatrizar.

A resposta mais fácil é aquela seguida por muitos governos. O Parlamento suíço deve anunciar que, antes do fim do ano, a Fifa deve usar os grotescos lucros obtidos no Brasil para tornar tudo disponível na web. Registros de reuniões, votações nominais, recibos de despesas, pagamentos “especiais” autorizados por Blatter e, especialmente, o grande segredo da Fifa: a quantia que ele recebe como salário e as bonificações que atribui a si.

Na rede podemos descobrir as atividades de nossos governos. A imensa corrupção comandada por Blatter contra o esporte das multidões só pode ser reparada com uma transparência proporcional. Se a Fifa não atender a essa demanda, será necessário expulsá-la do palácio de vidro e mármore nas colinas nos arredores de Zurique.

O que mais Blatter pode fazer? Bater em retirada rumo ao Catar? Até os xeques ficariam constrangidos com as gargalhadas do mundo.

Entre os fãs existe uma tradição global de vaiar Blatter. Este ano, insisto para que todos entoem um pedido de transparência na rede sempre que ele mostrar o rosto em público, para que o mundo ouça o que precisa ser feito para salvar o futebol das mãos da Fifa. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Andrew Jennings, escritor, repórter investigativo e documentarista britânico, é autor de 'Jogo sujo - o mundo secreto da Fifa' (Panda Books). Escreveu este artigo especialmente para o Aliás