Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Samuel Beckett é comparado a Allan Poe, Dostoievski e Saramago

Livro de Cláudia Maria de Vasconcellos explora tema do Doppelgänger na obra do autor irlandês

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para o Estado

13 Maio 2017 | 16h00

Samuel Beckett e Seus Duplos: Espelhos, Abismos e Outras Vertigens Literárias, de Cláudia Maria de Vasconcellos, discute aspectos estéticos não só da obra do escritor irlandês, mas também da produção de outros artistas considerados por ela duplos do autor de Esperando Godot. Entre esses duplos estão Poe, Dostoievski, Pirandello, Escher, Saramago, Perec etc. 

Portanto, o livro de Vasconcellos é como uma sala espelhada que, segundo Walter Benjamin, “aumenta os espaços de maneira fabulosa e dificulta a orientação”. Seu livro propõe um cruzamento de relações literárias bastante extenso, reunindo autores aparentemente heterogêneos e de épocas diferentes num vasto panorama difícil de ser resumido. 

Uma das epígrafes escolhidas pela autora dá a ideia da aproximação ou do diálogo que ela cria entre Beckett e esses artistas: “‘E se a gente se enforcasse?’, Samuel Beckett, Esperando Godot; ‘Nós queremos viver’, Luigi Pirandello, Seis Personagens à Procura de um Autor.”

Essas aproximações, diria, acabam induzindo o leitor a fazer as suas próprias relações. Como não pensar, depois de ler Samuel Beckett e Seus Duplos, em aproximar o escritor irlandês de minimalistas como Sol LeWitt ou Carl Andre, entre muitos outros artistas?

Para Cláudia de Vasconcellos, o duplo, tema central de seu livro, pode ocorrer por “1. duplicação do personagem, como Doppelgänger ou por cisão; 2. duplicação da própria obra, com ênfase no recurso da mise en abyme, que se define como um espelho interno à obra que a reproduz em miniatura; 3. duplicação do autor – tendência da literatura contemporânea; e 4. duplicação do leitor ou da plateia, os quais são assimilados pela fábula narrada, tornando-se, repentinamente, incômodos personagens”. Mas, a propósito do duplo como simultaneamente modelo e rival, a autora poderia ter explorado, a meu ver, as reflexões de René Girard, que são uma importante contribuição ao tema.

Essas formas de duplicação são analisadas não só nos textos de Beckett como também nas obras de seus duplos artísticos, que merecem a mesma reflexão atenta que ela concede ao autor irlandês. Assim, num primeiro momento, Vasconcellos analisa detalhadamente o conto William Wilson, de Edgar Allan Poe, e o romance O Duplo, de Dostoiévski, e compara-os com Improviso de Ohio, Companhia e Fim de Partida, de Samuel Beckett.

Obviamente a questão do duplo na obra do escritor irlandês deve muito aos românticos, como afirma Vasconcellos, e não só à literatura romântica, mas à música e às artes plásticas também: “Motivos românticos não são estranhos à obra de Beckett. Tome-se como exemplo a árvore descarnada no anoitecer, que remete a paisagem de Esperando Godot àquela de Dois Homens Contemplando a Lua, de Caspar David Friedrich, ou à canção de Schubert, Nacht und Träume.” 

É possível pensar ainda nos dois velhos idênticos sentados à mesa, em Improviso de Ohio, que se oferecem por 20 minutos à contemplação do público, como recriação cênica para aquilo que a literatura romântica batizou de Doppelgänger, a fim de qualificar a experiência do protagonista com seu duplo, ou seja, pessoas que se veem a si mesmas ou se ouvem a si mesmas, como no caso da duplicação por vozes acostumáticas, que soam ao redor do sujeito. Esse seria o caso, por exemplo, de A Última Gravação e Rockaby, de Samuel Beckett. Nessas peças veem-se as personagens, mas as vozes delas vêm de fora, de um gravador e de uma caixa de som, respectivamente.

De acordo com a estudiosa, autores com características estilísticas e temáticas tão diversificadas, como J. M. Coetzee, W. G. Sebald, Thomas Bernhard e Philip Roth, compartilham com Beckett “a prática de terem se duplicado em várias de suas obras, emprestando ao narrador (geralmente protagonista) atributos biográficos”.

Cláudia de Vasconcellos lembra que, em 1932, com o romance Dream of Fair to Middling Women, Beckett explorou em viés ficcional seus relacionamentos amorosos (ou quase) com Peggy Sinclair, Lucia Joyce e Ethna MacCarthy (as personagens Smeraldina, Syra-Cusa e Alba, respectivamente). 

Em Beckett, contudo, “os fragmentos biográficos não se organizam para a composição de um sujeito ou de uma história, antes são matéria para outro propósito: explicitar a mecânica imaginativa”, diz Vasconcellos.

Samuel Beckett e Seus Duplos explora ainda os lapsos, as incertezas e a instabilidade do real que desorientam o leitor do escritor irlandês e de seus duplos, o qual se pergunta: Quem fala? Onde fala? Do que fala? Perguntas essas levadas em consideração por muitos estudiosos de Beckett, como, por exemplo, Maurice Blanchot. 

O livro de Cláudia de Vasconcellos contém muitos livros num livro só, numa espécie de mise en abyme, como se o espelhamento e a duplicidade, estudados pela autora, fizessem parte também da estrutura de seu estudo.

*Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de 'Cenas do Teatro Moderno e Contemporâneo', da editora Iluminuras

Samuel Beckett e seus duplos

Autora: Cláudia Maria de Vasconcellos

Editora: Iluminuras

192 páginas

R$ 44

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Literatura Samuel Beckett

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