Se meu Porsche falasse

Disputa de carros superesportivos a 300 km/h ocupa pista de pouso da Embraer

Juliana Sayuri / Enviada a Gavião Peixoto (SP), O Estado de S. Paulo

31 Maio 2014 | 16h00

 Meu caro, prefiro “Porsche”. Nome próprio, alemão, simples e sonoro. Aliás, no idioma original, pronuncia-se “porch-a” - e não “porch-i”. Se quiser, pode me dizer “máquina”, mas se realmente quiser me reverenciar, privilegie “poderoso” - “poderoso” é top. Não tenho mecânica para falsa modéstia. “Carro” vá lá, mas tente não me ultrajar com genéricos como “automóvel” e “veículo” e, por favor, sob quaisquer circunstâncias, jamais me diga “carroça”. Você, meu caro, deve saber meu valor. Engatou?

Pois Porsche 997 GT3 preto na estrada, 415 cavalos, 6 cilindros, motor 3.6, prestes a riscar a SP-348 e a SP-310 Washington Luís rumo a Gavião Peixoto - de São Paulo capital, uns 320 km de asfalto. Acelero: sábado de céu nublado, sabático ligeiro das angústias metropolitanas. Os arranha-céus, as construções modernosas e as favelas vão ficando para trás, enquanto à frente brotam árvores, caminhos alternativos, campos e mais campos, passa boi, passa boiada, passam carangas, uns possantes e outros tais “veículos”, uns meros mortais. Eu, como viajante vip a bordo de uma transportadora especializada. O boss, J.P. Corazza, ao volante de uma Prado Toyota. 

J.P. é um sujeito simpático de Paulínia, cidade com um dos maiores PIBs do Brasil. Vou preservar seu nome, para não ficar visado por aí. Empresário, 35 anos de estrada, 4 comigo, cachos grisalhos, olhos castanhos e óculos. Para me dirigir, traje a rigor: camiseta branca e macacão azul da Porsche. Meu amigo, esse cara sabe como tratar uma máquina como eu - “um trator”, diz, orgulhoso. Só gasolina premium, os melhores mecânicos e a melhor garagem (uma só para mim, outra para os outros: um Fusca 67 conversível, um Mercedão 57, uma Kyron e uma Prado). E sabe que sou um cupê de alta performance, fui desenvolvido para a pista mas fui parar nas ruas. Num minuto acelero a uns 310 km/h, noutro posso tranquilamente passar no mercado à tarde, na festa à noite, enfim, pau para toda manobra. Assim, J.P. quis me manter todo original. “Não gosto de alterações, perde a identidade. E a identidade é tudo num carro. No mundo do automobilismo, só a sigla diz tudo. Meu Porsche é um Porsche, um trator. Em qualquer canto do mundo, você dirige seu GT3 e já é respeitado. É um carro, digamos, diferenciado. Os alemães são foda, né? Muito perfeccionistas”, baliza. Na verdade, Ferdinand Porsche era austríaco, mas na alemã Volkswagen inventou o clássico Fusca, meu primo. Na década de 1930, o doktor ingenieur Ferdinand e o filho Perry fundaram a marca Porsche. “A gente sempre diz: com um alicate e um pedaço de arame, um Fusca te leva a qualquer lugar. Com o Porsche, é a mesma história. Foi feito para não quebrar”, diz J.P.

Retorno feito, volto ao nosso trajeto. A parada final é Gavião Peixoto, cidadezinha de 4 mil habitantes esquecida no interior paulista, municipalidade por muito tempo movida a laranja, mas que desde 2001 abriga impressionantes aeronaves da Embraer, a Empresa Brasileira de Aeronáutica. Desde 2009, o altivo aeródromo recebe a Driver Cup, uma disputa de carros superesportivos. Meu caro, esse é o meu clube. 

Cá estamos entre os nossos. E, entre os nossos, Decio Rodrigues e Dennis Rolim são os caras. Por volta de 2007/2008, os empresários largaram nessa história liderando “passeios” com uns 70 superesportivos na estrada a partir de Vinhedo, um tipo de Alphaville com garagens invejáveis a cada esquina. Depois, decidiram organizar competições para pilotos amadores, mas de alta classe e estrutura profissa. Atualmente, os encontros desses amantes da velocidade acontecem nos aeródromos de Gavião Peixoto e Itirapina, e nos autódromos de Interlagos, Limeira e Velo Città. Se quiser tecnicalidades: há dois tipos de provas - flying lap (volta rápida) e top speed (velocidade máxima)- e três classes de carros (performance, sport e turismo). Se preferir a realidade, a ideia é muito mais simples: acelerar, você veloz, eu furioso, ver o velocímetro ultrapassar os 350 km/h - você extasiado, eu, confesso, às vezes exausto. Mas o diretor Decio Rodrigues buzina: “Acelerar, mas com segurança. Inicialmente queríamos tirar todo mundo das ruas, dos rachas. E ir para as pistas, com total segurança - com regras, estrutura, bombeiros”. 

Nessas corridas já passaram mais de 800 pilotos, perfil AAA, tipo você, meu amigo. Entre os meus, obviamente só a nata automobilística entre superesportivos (Ferrari, Lamborghini, Porsche) e esportivos (Camaro, Mustang, BMW versão M, Mercedes-Benz versão AMG), despachados além do eixo Rio-São Paulo, de cidades como Cuiabá, Goiânia, Poços, Recife, Vitória. “A Driver é uma ótima oportunidade para tirar nosso quarto, quinto carro da garagem. É um carro diferente, que não usamos no dia a dia, mas perfeito para sentir a adrenalina da velocidade”, diz o veterano Matheus Maccari, empresário de 45 anos, 6 de Driver, no seu Corvette 2014. J.P. vai na mesma direção: “Te dizer: todo mundo quer se livrar do stress do dia a dia. Acelerar é incrível para aliviar essa tensão, especialmente no universo masculino. É viver no limite. Dá uma sensação de poder”. 

Eis a linha de largada: Gavião Peixoto, Driver 3000, dia 24 de maio, 109 competidores na prova de alta velocidade na quinta maior pista de pousos e decolagens do mundo, com 4.967 metros de extensão por 95 de largura. É o encontro mais glamouroso da Driver. O protocolo: nós, máquinas potentes, ficamos enfileiradas. Um cara dá o sinal e, dois a dois, disparamos na pista. Após uns 3 km de aceleração, cruzamos a linha de chegada, um radar marca a velocidade máxima e temos mais uns mil metros para o piloto pisar no freio e finalmente parar. 

Ao volante, participar de uma Driver pode custar uns R$ 9 mil (R$ 1,1 mil a inscrição, R$ 1,9 mil para transportar o carro e, para o piloto apressado, R$ 6 mil no mínimo para o traslado São Paulo - Gavião Peixoto de helicóptero, se você não tiver um jatinho particular). Para assistir, R$ 350 - cá entre nós, uma bagatela. Antes das “puxadas”, um buffet com quitutes como pudim de leite condensado e presunto pata negra - álcool está fora do menu e é expressamente proibido fumar na Embraer. Na trilha sonora no hangar, pop rock - se bem que, puxando pro meu lado, não há som melhor que o ronco do motor. Enquanto J.P. socializa entre jovens estilo esporte fino e tiozinhos orgulhosamente vestindo macacões antichamas, todos muito discretos, fico à espera só ouvindo os palpiteiros: “Cara, só a roda esquerda desse Corvette deve valer mais que meu carro inteiro”, “Lembra a Ferrari do Thor Batista que parou na blitz no Rio logo depois da Driver de 2012?, que maré”, “É verdade que um Nissan GTR rodou na estrada pra cá?”, “E a Ferrari do Ricardão que rodopiou na Driver de 2013?”, “Viu o Mustang novo do Batistinha?”

Batistinha é Luiz Fernando Baptista, empresário, ex-piloto de Stock Car e dono de duas oficinas paulistanas, a Batistinha Garage (para restauração e customização de carros antigos) e a BTS Performance (para preparação de esportivos de luxo). Com potencial de galã, já participou da série Rides, do Discovery Channel. A pedido dos clientes, preparou um Camaro, um Corvette e sete Mustangs para a Driver. E sábado lá estava, a postos para eventuais pit stops na Embraer. Primeiro no pódio com a marca de 361.807 km/h, o Mustang Shelby GT500 vermelho, dirigido por Luiz R.R., foi obra de Batistinha, que calibra: “Foi uma ‘zebra’. No top speed, o cara precisa pensar na combinação: potência e aerodinâmica. O Mustang tem potência, mas não tem aerodinâmica como uma Ferrari ou um Porsche. Para disparar mesmo, precisa de um upgrade. E, para apostar nessas alterações, cada carro tem um truque”. Diga-se de passagem: o investimento nessas garagens pode variar entre R$ 2 mil e “o infinito”. 

Turbinar não é tanto a vibe do J.P., que, como disse, prefere me manter 100% original. “Pô, marquei 311 km/h no painel, mas o radar oficial só registrou 292 km/h”, disse o boss, bravo, mas brincando. No fim do dia, fiquei na 47° posição, mas fiz o meu melhor: 295.805 km/h é um bom número. 

J.P. financiou R$ 650 mil nesse bibelô. Pensando alto no preço, trava: “Carros são caríssimos no Brasil. É fora de propósito. É culpa do PT. Meu padrinho, Gustavo Sá e Silva, um dia diretor da FGV, dizia: ‘O país cresce enquanto o governo dorme’. Bom, antigamente o governo dormia e o país crescia. Agora nem isso, o governo acordou e o país parou. Mas não me sinto mal por dirigir meu Porsche por aí. Eu trabalhei, ué”.

No retrovisor, lembro que tempos atrás pegou mal para o jogador Ronaldo Nazário, que desfilou uma Ferrari avaliada em US$ 500 mil em 1998. Em 2010, revirou a história na revista Isto É: “Te digo que esse carro me deu muito mais dor que prazer. Na Europa e nos Estados Unidos, quando você compra um carro bacana, as pessoas ficam felizes por você estar se realizando profissional e financeiramente. No Brasil, não. Dizem que é exibicionismo.” 

Exibicionismo é, vale admitir. E aí o radar dispara, meu caro. O filósofo Eduardo Giannetti pisa no freio: “Carros são símbolos dos bens posicionais. Imagine só a situação. Compro meu carro dos sonhos - um Porsche, por exemplo - e, de repente, tenho um estalo: ‘Eu sou especial’. As meninas vão ver um brilho diferente no meu olhar, os amigos vão me invejar, os outros vão me respeitar ao passar na rua. Mas, na manhã seguinte, acontece uma coisa estranha: todos os carros da cidade se transformaram em Porsches idênticos ao meu. E aí? Será que esse carro ainda tem o valor que tinha aos meus olhos e aos olhos dos outros? Ou será que o poder que ele me conferia simplesmente desapareceu? Pois é, desapareceu.” E dá marcha à ré: “Uma máquina dessas deve dar a sensação de poder, de arriscar e superar limites - o que é muito enraizado na psique humana. É interessante, pois, apesar da alta tecnologia, estamos respondendo a impulsões humanas muito primitivas. Tem ainda um sentimento de juventude implícito, como se a máquina fosse uma extensão do corpo, mas… quem compra um carro desses geralmente tem certa quilometragem de vida”.

No Brasil, afortunados atualmente possuem 7.378 Porsches, 4.359 Camaros, 1.417 Mustangs, 603 Ferraris e 151 Lamborghinis - segundo informações da consultoria Jato Dynamics. “O mercado de luxo cresceu. Muitos ‘não pilotos’ passaram a querer carros de luxo só para ‘brincar’. Há diversos fatores na hora de escolher um carro desses: design, mecânica, performance etc. Ferrari e Lamborghini são excepcionais, mas ainda muito intangíveis no Brasil; Porsche é até mais ‘acessível’, digamos. Mas, no fim, escolher o ‘melhor’ carro é uma questão de bolso”, diz Raphael Galante, da Oikonomia, consultoria especializada na indústria automotiva. Aí, meu amigo, as montadoras também correm. “Para fidelizar os clientes, as marcas tentam inventar uma série de atrativos, benesses e clubes. Por exemplo, quem gosta mesmo de moto não gosta de Harley Davidson. Quem gosta de Harley é ‘harleiro’. Quer dizer, você compra um estilo de vida, um espírito da marca. Isso vale pra moto, pra carro e por aí vai.” 

Após as arrancadas de J.P., paro perto do hangar, esperando os caras aferirem nossas marcas. Viro à esquerda, céu ainda nublado no fim de tarde de Gavião Peixoto, e fico só ouvindo os pilotos animados com as performances nas pistas, comentando “puxadas” dos amigos e detalhes das máquinas, observando miniaturas de Ferraris como garotos fascinados. No fim, fico pensando cá com minhas quatro rodas: será que sou só mais um brinquedo? 

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