Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Sem lenço, sem documento

Haitianos foram iludidos pela propaganda de uma prosperidade que não está à altura de absorver excedentes populacionais

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2014 | 02h07

É compreensível o nervosismo do governo do Acre com a ingrata tarefa de literalmente deportar para São Paulo os imigrantes senegaleses, dominicanos e, predominantemente, haitianos que atravessaram a fronteira do Brasil com a Bolívia e estão se amontoando em Brasileia. O Acre é um Estado pobre e sem condições de emprego para assimilar da noite para o dia milhares de pessoas que lá buscam refúgio simplesmente porque a fronteira é vulnerável. O ingresso de estrangeiros em território brasileiro é uma questão federal. O problema social e humano desses imigrantes só se configura porque, nessa questão, o governo do Acre foi abandonado à própria sorte pelo governo da União. Talvez desse melhores resultados espernear em Brasília, que se omite, do que em São Paulo, que improvisa às pressas o recebimento dos inesperados chegantes. Certamente, não é política de acolhimento de imigrantes nem é política de imigração a de fretar 50 ônibus para transferir o problema do Acre para a capital paulista.

Louve-se a Congregação dos Missionários de São Carlos Borromeu, a dos padres scalabrinianos, que, na sua Igreja de Nossa Senhora da Paz, na Baixada do Glicério, estão fazendo o que podem para acolher e abrigar os imigrantes e ajudá-los a obter documentação e emprego. Os carlistas têm mais que secular história de apoio e acompanhamento de migrantes e imigrantes em todo o mundo. A tradição de sua generosidade missionária no Brasil é conhecida. Sorte que, acima do descabido bate-boca que o governo petista do Acre trava com o governo tucano de São Paulo e com a administração municipal petista da cidade, tenham os refugiados encontrado abrigo e apoio na Pastoral dos Migrantes. Não fosse isso, estariam passando por maus momentos.

O Brasil tem uma história de recebimento organizado e racional de imigrantes estrangeiros que começou com a preparação da abolição da escravatura, no século 19. Particularmente São Paulo, a província cuja economia poderia ser mais afetada pelo fim da escravidão, organizou na Europa o recrutamento de imigrantes e preparou aqui a infraestrutura de acolhimento com a edificação da Hospedaria dos Imigrantes, inaugurada em 1888. Por ali passaram dezenas de milhares de imigrantes estrangeiros, e mesmo nacionais, destinados aos cafezais paulistas. Foi aquele o primeiro endereço de tantíssimos oriundi, cujos filhos nasceriam brasileiros e eles próprios se tornariam brasileiros com a naturalização geral efetuada pela República. Cidadãos ilustres e brasileiríssimos dos nossos dias descendem de avós que dormiram sua primeira noite de Brasil no que é hoje o Memorial da Rua Visconde de Parnaíba, na Mooca.

Mas o Brasil sabia o que estava fazendo com sua política imigratória bem organizada, que se estenderia, em São Paulo, até os primeiros anos posteriores ao fim da 2ª Guerra Mundial. Foi quando recebemos inúmeros imigrantes e migrantes, ali mesmo na hospedaria, trabalhadores qualificados, já não para puxar enxada entre as leiras de café, mas para o trabalho especializado nas fábricas do boom industrial dos anos 1950.

O que mudou no fluxo imigratório de agora é que já não se trata de imigrantes à procura da prosperidade do café ou da indústria, mas de imigrantes que buscam refúgio da miséria de países de economias arruinadas. Foram iludidos por uma propaganda internacional de prosperidade que de fato aqui não houve nem há na escala capaz de absorver excedentes populacionais de outros países. Muita gente alcançada pelo noticiário ufanista, até mesmo em países prósperos, ficou encantada com o suposto salto quase milagroso de multidões ontem famintas para uma classe média consumista, beneficiadas por um programa de ficção política, o Fome Zero. Na verdade, ilusão gerada pelos poucos reais de programas como o Bolsa Família, que permitem empurrar, estatisticamente, pobres dos estratos econômicos inferiores para estratos médios, o que está muito longe de configurar ascensão social e menos ainda a classe média.

Um documentário sobre haitianos levados para cidades médias de Santa Catarina, para trabalhar na indústria têxtil e de vestuário, mostra o desapontamento de alguns ao chegarem ao lugar de destino e descobrirem que não estavam chegando a uma Nova York dos trópicos. Embora sejam excelentes cidades, com um nível de vida muito bom, como é próprio daquela região, ficou evidente a súbita descoberta do engano.

Para compreender o cenário de uma imigração como essa, não se pode deixar de levar em conta o que tem ocorrido com os bolivianos em São Paulo há um bom número de anos: o trabalho servil na indústria de confecções reiteradamente constatado e combatido pelos fiscais do trabalho. Que, no entanto, não cessa. Se considerarmos o que acontece com os africanos clandestinos na Espanha e na Itália, fica evidente que falta um acordo internacional para criar alternativas de vida e de trabalho nos países de onde tentam escapar e esperam encontrar em países como o Brasil.

*José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP, autor, entre outros, de A sociologia como aventura (Contexto).

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