Daniel Roland | AP
Daniel Roland | AP

SENHOR ESTADISTA

Popular e politicamente incorreto, ele talvez não fosse (re)eleito chanceler. Mas o povo certamente o alçaria a rei

Jochen Bittner, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2015 | 07h00

Helmut Schmidt, ex-chanceler alemão e respeitado estadista durante o pós-guerra, morto essa semana aos 96 anos, teria odiado ler os obituários bajuladores que jorraram sobre ele. Certa vez Henry A. Kissinger, um dos seus amigos mais próximos, disse que esperava que Schmidt sobrevivesse a ele porque “o mundo sem Helmut ficará muito vazio”.

Helmut Schmidt seria o primeiro a discordar disso. Teria descartado a ideia com um aceno de mão, deixando a fumaça do seu onipresente cigarro cobrir seu rosto de ar enfezado. Homens como ele não eram heróis para serem adorados. “Vocês estão definindo os políticos em termos psicológicos”, diria.

Como editor do semanário Die Zeit, desfrutei do prazer de regularmente passar algum tempo com ele, que ingressou no jornal como coeditor em 1982, depois de ser destituído como chanceler. As duas profissões tinham muito em comum, disse ele. “Políticos e jornalistas compartilham um triste destino. Eles precisam falar sobre coisas hoje que só compreenderão plenamente amanhã.”

Tendo sobrevivido ao Terceiro Reich e à 2a. Guerra, governado a jovem República Federal da Alemanha durante seus dias mais negros, ele instigava constantemente sua equipe a pensar em categorias práticas, tangíveis, racionais. O amor não era certamente uma delas.

Entretanto, apesar de todas as lições que deu para nós, editores, jamais imaginei o quão profundamente vazio um enorme edifício como o do nosso jornal repentinamente ficaria quando uma pessoa como ele o deixasse, um homem que continuou capitão da nação, mesmo sem o comando político. Schmidt figurava em primeiro lugar nas pesquisas como o alemão mais popular, e isso muito tempo depois de deixar o cargo. Talvez o público não votasse nele para chanceler, mas certamente o elegeria rei.

O que explica essa adoração? Uma explicação, com a qual ele provavelmente concordaria, é que seu sucesso se baseava em demonstrar uma confiança perene e sólida como uma rocha.

Quando o vi pela primeira vez, eu ainda era uma criança assistindo à TV sentado no carpete da nossa sala de estar na Alemanha Ocidental, no final dos anos 70. E então compreendi que aquele era um homem no qual os alemães poderiam instintivamente confiar: seguro de si, claro, sério, apaixonado pelo seu trabalho, com um rosto esplendidamente esculpido, não muito diferente dos corajosos heróis de filmes policiais tão populares na época. Talvez seja por isso que, com frequência, se afirmava que ele foi o último de um tipo autêntico de político alemão.

Ele rosnaria contra essa explicação, eu sei, então eis uma segunda.

Experiências existenciais levam a convicções fundamentais, e os eleitores apreciam essa combinação. Schmidt foi tenente da força aérea alemã durante a 2a.Guerra, lutando nas terras cobertas de sangue da Frente Oriental. Jamais falou em público, ou em nossas reuniões, sobre essas experiências, mas elas influenciaram tudo o que ele realizou posteriormente.

Por exemplo: Helmut insistia na cooperação, mesmo com nossos adversários. Quando Angela Merkel adotou uma posição extrema contra a Rússia, no ano passado, ele insistiu no caminho contrário – não porque aprovava as ações de Putin, mas porque, se o governo alemão não tentasse dialogar com a Rússia, a Europa poderia caminhar na direção de uma nova guerra.

Mas ele não era um pacifista. Em 1979 defendeu a decisão da Otan de instalar centenas de mísseis nucleares em solo alemão. Embora a medida tenha provocado um dos maiores protestos de massa já observados na Alemanha, Helmut nunca abandonou sua crença de que os mísseis eram necessários para impedir uma outra guerra mundial.

Os alemães amavam essa independência intelectual. Quando você não se incomoda com quem poderá se irritar com sua opinião, você é livre. Schmidt foi livre o bastante para com frequência irritar seu partido Social Democrata, fato que lhe rendeu ainda mais respeito da sociedade alemã. E ele se mostrou indiferente diante da marca nacional do “politicamente correto” que domina a esfera pública alemã.

Muito depois de o ato de fumar em público ser considerado incômodo, ele continuou a fumar, fosse num teatro ou diante das câmeras de um talk-show. As lojas de departamento alemãs vendem pequenas placas de metal em que se lê: “Helmut Schmidt fumaria aqui, também”. Numa sociedade que se baseia em regras como a nossa, a afeição era por um homem que não se baseava nas regras, mas nunca rompeu com seus princípios.

Muita coisa explica o respeito que inspirava, mas ele próprio concordaria que há coisas – sobre arte ou pessoas – que nos fascinam como humanos e não podem ser explicadas. A mágica da música de Bach, a calma inspirada pelas pinturas de Caspar David Friedrich ou a beleza de Stopping by Woods on a Snowy Evening, de Frost, um dos seus poemas favoritos.

Às vezes, quando o momento era propício, ele citava o final do poema: “O bosque é belo, escuro e profundo. / Mas tenho promessas a cumprir / E milhas a percorrer antes de dormir / E milhas a percorrer antes de dormir”.

Você cumpriu suas promessas, Helmut Schmidt. Agora pode dormir. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

JOCHEN BITTNER É EDITOR POLÍTICO DO SEMANÁRIO "DIE ZEIT". ESCREVEU ESTE TEXTO PARA O "THE NEW YORK TIMES"

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