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Série da Netflix aborda muito mais do que suicídio

Próxima a 'Kids' e 'Trainspottin', '13 Reasons Why' exercita a empatia do espectador

Felipe Cherubin*, Colaboração para o Estado

06 Maio 2017 | 16h00

O perturbador filme Kids (1995), do diretor Larry Clark, fez um retrato cruel da adolescência nos anos 90, nos colocando como observadores dos fatos e afastando julgamento de valores e contestação de normas. Cabe ao espectador, então, exercitar sua empatia para compreender as raízes dos eventos, que, de banalidades, passam para um total descontrole, escancarando a invisibilidade absoluta dos personagens que buscam autotranscendência na decadência de sua própria geração.

O filme, considerado um marco cultural, foi produzido pelo cineasta Gus Van Sant, conhecido por obras como Gênio Indomável (1997) e Milk (2008). Van Sant estenderá essa forma do cinema underground, desta vez como diretor em sua Trilogia da Morte, fortemente influenciada pelo cineasta húngaro Béla Tarr. Iniciada em 2002 com Gerry, história bem similar ao livro O Duplo do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), é seguida de Elefante (2003), relatando o famoso caso de Columbine e Últimos Dias (2005), onde acompanhamos Blake (Michael Pitt), um famoso músico antes de cometer suicídio, em alusão à morte de Kurt Cobain (1967- 1994). A transmutação da paz em violência compõe o bojo da trilogia, seja pela rivalidade, a alienação, o homicídio ou suicídio e serão marcas registradas de Van Sant. Em 2015, o cineasta volta a esses temas em O Mar de Árvores, história de um norte-americano que, inconformado com a morte da esposa, decide tirar a própria vida em viagem à Aokigahara (Japão), local conhecido como “a floresta dos suicidas”, localizada aos pés do Monte Fuji.

Nessa jornada, o personagem interpretado por Matthew McConaughey encontra um interlocutor e a viagem acaba sendo uma longa discussão metafísica sobre o valor da vida. No sentido dialético, O Mar de Árvores soa como síntese pessoal de Van Sant em relação à sua Trilogia da Morte. O filme nos passa a mensagem de que todos os nossos temores, como morte, violência e loucura, são secundários diante do maior dos medos, que o filósofo Søren Kierkegaard (1813-1855) tão bem trouxe à tona: A aniquilação metafísica, verdadeira matriz do terror e da ansiedade.

Kids retrata uma geração vivendo sob a sombra onipresente da Aids e do abuso de drogas. Uma geração desprovida de qualquer “educação sexual” rendida aos impulsos de prazer e morte rumo ao colapso neurótico, como demonstrado por Sigmund Freud (1856-1939) e, posteriormente, Wilhem Reich (1897-1957), dissidente da psicanálise. Essa luta descontrolada entre Eros e Tânatos aparece em outro filme dos anos 90, Trainspotting, que este ano ganha uma sequência.

Trainspotting e Kids falam da escória da sociedade? Talvez essa resposta esteja na série 13 Reasons Why, recém-lançada pela Netflix em coprodução com a atriz e cantora Selena Gomes, baseada no romance homônimo de Jay Archer (Ed. Ática, R$ 53) e que vem causando alvoroço na opinião pública. Assim como Kids, tem todos os elementos para ser um marco geracional, desta vez da geração dos millennials, grupo social nascido e absorvido pela revolução tecnológica do século 21, onde a internet e os smartphones se tornaram extensões naturais de nosso próprio corpo.

Em determinado momento de 13 Reasons Why, é lido em sala de aula um trecho do livro Além do Bem e do Mal, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. E será essa máxima nietzschiana que de fato conduzirá a série.

13 Reasons Why parece nos ludibriar, aparentando, num primeiro instante, uma série sobre suicídio. O suicídio é a tentação da “certeza” pela "mórbida incerteza" de não saber se o amanhã será alegre ou completamente miserável quando o sono passar, e é este o sentimento que acompanha a protagonista Hannah Baker (Katherine Langford), que, antes de se matar, deixa registrado em fitas cassete 13 razões que a levaram ao suicídio. Ao longo da série Hannah não apresenta apenas sinais “depressivos” do seu transtorno psiquiátrico, a verdadeira e ignorada origem de seus atos, mas também uma estranha atração pelo “caos”, simbolizada nas recorrentes festas que causam tal fascínio em Hannah, ao ponto de sua capacidade de dizer “não” desaparecer em meio a uma euforia incontornável.

O outro protagonista e conarrador Clay Jensen (Dylan Minnette), o “amigo” mais próximo de Hannah, representa na série uma espécie de “consciência moral” e a cada fita ouvida, vai revendo seus conceitos existenciais. Não à toa, Clay em inglês significa “argila” e assim como a argila, o conarrador é constantemente impactado por tudo ao seu redor, encarnando o herdeiro da mensagem de Hannah. Em várias situações em que Clay se coloca em risco de morte, a sobrevivência se transmuta em alegria e o amor à vida vai florescendo no coração do jovem tímido que luta para expressar a complexidade de seus sentimentos.

Os ruídos de linguagem são tema importante da série. A incapacidade de comunicação dos afetos são uma das razões da alienação social e desamor ao próximo, refletidas em 13 Reasons Why por meio de ações triviais como apelidos despretensiosos e comportamentos torpes como estupro, o “stalking”, o “cyberbullying” e, sobretudo, um dos grandes tabus da nossa sociedade, onipresente na série: o abuso de bebidas alcoólicas. Se em Kids o grande problema girava em torno da falta de uma “educação sexual”, em 13 Reasons Why é escancarada a falta de uma “educação afetiva”.

Nem instituições como “família” e “escola” são perdoadas e isso tem seu apogeu no que seja uma das cenas mais fortes da série, quando Sr. Porter, o orientador do colégio, que conversou com Hannah poucas horas antes de seu suicídio, reconhece, em diálogo com Clay, que cometeu um erro crasso, mesmo tendo visto todos os sinais à sua frente: Hannah clamou desesperadamente por ajuda. Na série, o silêncio até das instituições competentes falham, e falham de forma canhestra.

Nós odiamos os outros assim como odiamos a nós mesmos e 13 Reasons Why nos joga isso na cara. Em tempos que o termo “inteligência emocional” faz parte do nosso vocabulário, estamos longe de sermos emocionalmente inteligentes. Nessa cultura do Zé Ninguém, para citarmos o famoso livro de W. Reich, com um fascismo embutido em nossas entranhas, testemunhamos uma total “inversão de prioridades sociais”, como diz o próprio personagem Clay para Hannah. Contudo, nem o bom rapaz Clay escapará de ser um monstro, já que outra história, paralela a de Hannah, começa a frutificar sem que ninguém se dê conta.

Percebemos em cada personagem de 13 Reasons Why o quão emocionalmente estupeficados nos tornamos. Interessante notar que todos os personagens, ao desenrolar dos episódios, assumirão propositalmente o protagonismo da narrativa e isso é claro quando a “teoria do caos” (ou “efeito borboleta”) é mencionada na série.

Em todos os sentidos, 13 Reasons Why não é uma série sobre “suicídio”, mas sim sobre nosso papel íntimo e singular diante dos rumos da humanidade e como nos esquecemos de amar uns aos outros.

*É jornalista, escritor, filósofo e autor do livro 'O Homem de Duas Cidades' (Amazon)

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