Tiago Queiroz | ESTADÃO CONTEÚDO
Tiago Queiroz | ESTADÃO CONTEÚDO

Serviços gerais S.A.

Nos postes da Rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, a esperança de quem não quer começar 2016 sem emprego

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2016 | 16h00

Joaquim José dos Santos Silva, o Barão de Itapetininga, reencarna todo santo dia. É o Joaquim, auxiliar de cozinha; o José, da construção civil; o Santos, da portaria de prédio; e o Silva, ora, o Silva, que para evitar qualquer complicação escreveu logo SERVIÇOS GERAIS no alto do papel sulfite que chama de curriculum vitae. Sim, o latim do Silva é um diferencial, uma espécie de “inglês fluente” da velha guarda, all right?

Certo, são 10h da manhã, o termômetro da rua belisca os 30 graus, e as reencarnações do Barão saem da estação República. A maioria acordou antes das 6h, veio da zona leste, do extremo sul e até de outras cidades. Debaixo do braço, pasta azul, envelope bege, dados pessoais, formação acadêmica, experiência profissional, pretensão salarial e aquela esperança de quem repete o mantra “tô pegando qualquer coisa que aparecer”.

Logo no início da rua, bem na frente de um banco personnalité, um homem-placa cego (de um olho), um Ciclope do centrão, manda a real na lata dos barões: “Não tem serviço!”. Apesar do aviso, e dos dois dígitos na taxa de desemprego que os jornais também prenunciam, o profeta entrega o panfleto de uma lan house que confecciona currículos a partir de R$ 1,50. “Boa sorte”, repete com cinismo ou tristeza.

Mas a via é pública e os postes da Light prometem vagas de telemarketing, vigilante, atendente, copeira, auxiliar de manutenção, repositor, zelador, operador de cobrança e outros. Prometem também salários de 800 paus, 1.100, 1.200 e uns quebrados – isso fora os benefícios, o vale-transporte, o vale-refeição, o vale-alimentação, o convênio médico, o auxílio-farmácia, o uniforme, a premiação, a bonificação, ê vidão!

Os homens, os mais castigados, vão logo pra esquina da Barão com a Dom José de Barros. Eles têm um encontro marcado com o Jerônimo, o herói do sertão, o encarregado de obras que, diariamente, seleciona carne dura para a construção civil. Dessa vez é uma obra na cidade de Jandira, uma ponte pra subir ou consertar, trabalho que pode durar mais de seis meses, um salário garantido, menos de 1.000.

E os Joaquins Josés dos Santos Silvas vão cercando o Jerônimo. Quem não sabe anotar precisa de ajuda, pede uma caneta emprestada e se deixa rabiscar na palma da mão, bem em cima da linha da vida, indicações pouco precisas de um ônibus que vai sair às 8h da estação Santa Cecília em direção à obra. Quem vai? Quem quer? Quem tá precisando e não tem frescura?

O próprio Jerônimo diz que nunca ficou desempregado, que sempre gostou de trabalhar, que já cortou cana, plantou café, fez limpeza, pintura e, claro, que só não trabalha quem não quer. “Eu já arrumei trabalho para um sujeito que chegou bêbado no seu primeiro dia de obra, acredita?”

Acreditar a gente acredita, mas o que acontece depois parece inventado. O tal sujeito que chegou bêbado no primeiro dia de trabalho (ou um conhecido dele) emerge do meio do grupo com uma garrafa de Dreher nas mãos, assim como se empunhasse o martelo do Thor. “Mentira!”, grita. Segundo o dono do Dreher, os empregos do Jerônimo são uma furada. “Você chega lá, gasta o dinheiro da condução, perde o dia e não é nada do que ele falou. Sorte dele que em 2016 eu prometi não quebrar a cara de ninguém.” Deu duro, tome um Dreher.

Jerônimo, sujeito homem, não fica quieto e diz: “Experimenta, experimenta colocar a mão em mim, experimenta pra ver se eu não te deito aqui no meio da rua mesmo”.

A confusão faz o grupo dispersar. Jerônimo vai embora, diz que não tem mais vagas no canteiro, pensa ser aquele mais um bando de ingratos, de serventes sem serventia, uma gente que só ia dar dor de cabeça para o patrão, o patrão que ele diz ser tão gente boa, que tem um coração enorme.

No chão que Jerônimo prometeu “deitar” o bebedor de conhaque, jaz uma placa gasta, difícil de ler, datada de 1976, com a frase que o então prefeito de São Paulo, Olavo Setúbal, gostava de repetir em todas as suas inaugurações e aparições públicas: “Uma cidade menos dura. Menos fria. Menos materialista”.

Quando o diz que diz que daquela quase briga vira poeira, o povo volta a pisar no sonho do Setúbal. Faz bem essa gente toda, que só tem alma, que transborda de tanta alma, que toma Dreher, que procura vaga de serviços gerais olhando nos postes da Light, que entrega currículo em folha de papel sulfite e que não dá a mínima e que pisa mesmo (pisa firme ou trôpego) na frase gravada no chão da rua do (des)emprego. Gente que quer ser materialista, um pouquinho só, mas não consegue.

Gente como o Vitor dos Reis Bezinhame, 85 anos, apelidado de Vitão ou Vitinho (dependendo do grau de intimidade), mais de 40 anos de Barão de Itapetininga, o homem-placa mais velho do pedaço. “Quando eu conheci essa rua tudo aqui ainda era areia.”

Antigamente, segundo Vitão, arrumar emprego era moleza. “Você largava um trabalho e já tinha outro te esperando. Era só bater na porta de alguma loja, um armazém ou uma padaria e dizer ‘tô aqui ó’. Não tinha essa coisa de currículo. Era tudo olho no olho.” Tô aqui ó.

Vitão diz que crise igual só nos anos 80, que agora arrumar serviço é muito mais difícil, que fica com dó do pessoal, mas menos dos vagabundos, e que só de olhar reconhece quem é vagabundo e quem é trabalhador. “Já tirei muita gente da rua”, afirma. “E, às vezes, quem eu ajudei no passado vem até aqui pra me dar um presentinho, uma gratificação”, completa.

Daí a gente cai na tentação de perguntar o que ele sente quando veste aquela placa, quando se veste de oportunidades de emprego e propaganda de xerox, pergunta na intenção de tirar dali alguma epifania e tal e coisa. “Besteira, não sinto nada. É trabalho. O meu trabalho. Um monte de gente queria estar no meu lugar.”

Vitão tem oito filhos – com três mulheres diferentes. Recebe R$ 40 por dia e diz ser a única fonte de renda da família. Recentemente, conta, uma namoradinha de 40 anos teria se atirado de uma ponte “porque queria ele inteiro pra ela”. Coitada. Vitão só é inteiro naquela função. Assim como os outros, ele também é uma reencarnação do Barão, um legítimo Barão da Ralé.

Perto do Vitão passa o mais novo frequentador da Barão, o David. O menino dentro do carrinho de bebê só tem 1 mês. Ainda é estagiário nesse troço de ser gente. Ou nem isso. No currículo, só xixi, cocô e choro. Põe choro nisso. Não tem experiência, mas já teve que nascer pronto para um início imediato.

A mãe, Danielle, trabalha, quando trabalha, entregando jornalzinho de uma agência de empregos. Tira R$ 60 por dia – mas tem dias em que não pinga nada. “É que muitas agências de emprego quebraram no ano passado”. E Danielle tem que correr atrás. Tem 32 anos e nove filhos (o mais velho tem 16 anos). “São cinco de um pai; são quatro de um outro pai. O pai do David é o que tá preso.”

E aquela mesma tentação de uma resposta redentora aparece outra vez. “O que você sonha para o David, Danielle? O que você quer que ele seja no futuro? Vai, me diz, ele vai ser médico, engenheiro, advogado...” E Danielle responde: “Quero que ele se inspire em mim. Eu vou pra cima mesmo, faço panfletagem, divulgo Avon e tenho minhas correrias.”

As tais agência de emprego, como essas que dão trabalho para a mãe do David, estão espalhadas pelos prédios da própria Barão. Só muito raramente a pessoa que está procurando emprego sobe para os escritórios. O esquema-padrão é o seguinte: você entrega o seu currículo para um aposentado que passa o dia embaixo de sol (ou da chuva) e espera um retorno. Podem ligar amanhã ou depois de amanhã ou no Dia de São Nunca.

A maioria dos “receptores” da Barão está lá há mais de 10 anos. Quase todos são simpáticos e falantes. Tem o evangélico (que só não vai puxar assunto se a pessoa tiver cara de macumbeiro); tem o ex-dono de armazém (que desdenha o capitalismo e as grandes empresas); tem um contador de causo (que diz já ter limpado vidros de um prédio de 72 andares); tem o paquerador (que namora uma argentina banguela) e tem o ex-taxista (que trabalha de terno e gravata, que usa um pente Flamengo no bolso da camisa e que se penteia de 10 em 10 minutos como se fosse um TOC, mas que não dá entrevista porque não quer se meter em política).

Em um dia movimentado, cerca de 5 mil currículos vão parar nas mãos desses senhores. Trata-se de uma papelada inabraçável, que nem adianta apertar contra o peito. Nasceu para desmoronar, virar rascunho ou confete em noite de carnaval. Tem gente que fica brava, que pergunta o que eles fazem com tanto papel, se jogam fora, se vai direto para reciclagem ou algo do tipo. “Poxa, eu não sei. Minha função aqui é receber currículos. Não sou responsável pelo destino deles”, defende-se Gidalzo José Bonfim, um dos receptores. “Meu único conselho é: não coloquem RG ou CPF nesses currículos, sabe lá na mão de quem essa papelada vai parar.”

Se tudo der certo, o currículo entra em um dos prédios da Barão e vai parar na mesa de uma analista de RH. Em alguns casos, quando o perfil do desempregado bate com a vaga disponível, o interessado pode ser convidado a subir.

Foi o que aconteceu com o Levy, 44 anos, um tipo fortão e que estava de olho em uma vaga de vigilante. Apesar da aparência, um doce de pessoa, tão doce que levou a mãe para a entrevista. Deixaram (mãe e filho) os documentos com os seguranças do prédio, pegaram um elevador e subiram para a glória. A glória de um escritório apagado, com paredes cheias de fungo e dois funcionários sonolentos. A pergunta: “Tem CNH (Carteira Nacional de Habilitação)?”. Levy não tem. A mãe já teve. Sem habilitação não dá pra ser vigilante. Morar tão longe também não ajuda. Só estão pegando quem mora no centro ou na zona oeste. A aventura durou cinco minutos. Levy vai continuar procurando.

Fora do prédio, pesquisando vagas no poste, alguém que parecia deslocada daquela paisagem: Iraíbe Maria dos Santos, 56 anos. Porte de quatrocentona, elegante, bem-vestida, uma alienígena naquele contexto de “procuram-se vagas”. Mas, veja só, lá estava ela, atenta ao anúncio grudado no poste da Light.

Iraíbe, como era de se supor, já foi patroa, já teve sua própria empresa de doces (e distribuiu produtos para várias docerias de São Paulo). Só que o negócio desandou. Briga de sócios. Um clássico. Depois, teve aquela fase difícil, caiu em depressão e teve que partir pra outra. Refeita, recuperada, ufa, ela quer uma colocação no competitivo mundo do telemarketing. Ela já tem experiência na área – e como é sozinha acha que a grana pode ser suficiente. A deprê passou. Vida nova. Tomara que dê pé. “Tratem bem as moças do telemarketing”, pede.

O relógio da rua já avisa que são quase 15h. As reencarnações do barão seguem para a estação República. Vai o Joaquim, o José, o Santos e o Silva também. Quem sabe o telefone não toca amanhã? Ou aquela vaga de serviços gerais não pisca naquele poste bonito da Light. “Esperança tem que ter”, diz, meio que no escárnio, o tal homem-placa que é meio cego, meio profeta, meio economista e analista político.

E, quando as reencarnações entram na estação, a rua ganha outro movimento. É a vez dos ambulantes, do CD pirata, da coxinha de R$ 4, da fila na lotérica, do sex shop que também tira xerox, do pedinte boa praça, da polícia que faz a ronda, da propagandista do chip da operadora do celular e do vendedor da pasta mágica.

A pasta mágica, a magia da limpeza, o produto que limpa fogão, carpete, fórmica, sapato, tênis, panela, geladeira, pichação e qualquer sujeira que exista nesse ou em outro planeta. A pasta mágica, que é feita de água, sabão de coco, carnaúba e juá. A pasta mágica, que qualquer um pode comprovar sua eficácia – observando como o próprio chão da Barão de Itapetininga fica branquinho depois que o produto é derramado e esfregado e esfregado e esfregado. A pasta mágica, que é vendida em embalagens de R$ 5 ou R$ 10. A pasta mágica, que é o sustento do Argel dos Santos Silva, 52 anos, o homem que nunca mais ficou sem trabalho depois que descobriu os poderes da rua, da rua Barão de Itapetininga, e dos tais serviços gerais.

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