VALERIA GONCALVEZ | AE
VALERIA GONCALVEZ | AE

'Sex shops oferecem novas experiências, mas podem padronizar o erotismo', diz antropóloga

Para entender a relação das pessoas com o erotismo hoje é preciso olhar para o mercado. Mais especificamente, aos sex shops, que deixaram os becos obscuros e se tornaram butiques voltadas às mulheres, aponta a antropóloga da Unicamp Maria Filomena Gregori, em novo livro sobre a sensualidade contemporânea. “Por um lado, isso possibilita novas experiências. Mas pode padronizar a prática sexual”

Roberto Saraiva, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2016 | 17h00

Nem só de Woodstock, Beatles e LSD é feita uma revolução sexual. Segundo a antropóloga e professora da Unicamp Maria Filomena Gregori, a chave para entender como as pessoas se relacionam com o erotismo hoje passa necessariamente pelo mercado. Especificamente pelos sex shops, que nas últimas décadas começaram a ocupar, além de lojas obscuras cheias de filmes pornô em regiões degradadas das cidades, butiques de luxo repletas de brinquedos eróticos em endereços valorizados.

Esse movimento foi registrado por Maria Filomena no livro Prazeres Perigosos – Erotismo, Gênero e Limites da Sexualidade, recém-lançado pela Companhia das Letras. Integrante do Pagu, o núcleo de estudos de gênero da Unicamp, a antropóloga já investigou as experiências dos meninos de rua na obra Viração, lançada pela mesma editora, e a relação entre a violência contra as mulheres e o feminismo em Cenas e Queixas (Paz e Terra/Anpocs). Depois de mais de uma década de pesquisas, sai seu novo trabalho.

A mudança no perfil dos sex shops, segundo a antropóloga, foi uma aposta para atrair o público feminino, principalmente acima dos 30 anos de idade. Para a pesquisadora, se a elas não é mais tão tabu entrar em um comércio e sair com um desses brinquedinhos, o que se vê é um saudável “aumento das possibilidades de acesso de muitas mulheres não tão jovens à ampliação do escopo das suas experimentações corporais”.

Esse novo erotismo, focado nas mulheres e batizado pela autora de “politicamente correto”, também não é a panaceia que aparenta ser. “Acaba difundindo e instituindo a noção de que elas precisam descobrir novas formas de interessar seus parceiros para manter seus casamentos, como dizem, apimentados ou vivos”, observa Maria Filomena. Com o mercado democratizando a safadeza, outro efeito colateral é uma padronização das práticas sexuais. Paradoxalmente, o caráter transgressor do sexo vai sendo eliminado – pois práticas consideradas desviantes são colocadas à margem.

A antropóloga alerta ainda que esse momento de maior visibilidade dos direitos sexuais pode estar por trás do aumento de crimes sexuais, como estupros coletivos, registrados no País. “Sinto que aquilo que se consolidou como direito está passando agora por um processo de ‘backlash’, de reação”, diz ela, que está em Nova York iniciando uma nova pesquisa sobre essa relação entre erotismo e violência. A seguir, trechos da entrevista que a antropóloga concedeu ao Aliás.

ADEUS À OBSCURIDADE

“Antes dos anos 1990, sex shop era uma coisa meio clandestina, masculina, e ficava no centro da cidade ou perto de aeroportos. Em São Paulo, ainda há esse tipo de loja, mas a internet e o acesso a novas configurações eróticas, a partir dos anos 2000, mudaram totalmente o perfil. De repente, as sex shops passaram a constituir um segmento de mercado de luxo. Uma das primeiras do tipo foi a Club Chocolate, uma loja super chique do Rio de Janeiro e que depois abriu nos Jardins, em São Paulo. Era um espaço para meninas e tinha as lingeries, os sex toys, esses produtos que eu só tinha visto lá em 2001 nos Estados Unidos, quando passei a estudar o mercado erótico. Minha pesquisa começou explorando essa diferença, e o ponto de partida foi uma sex shop de São Francisco chamada Good Vibrations, aberta em 1977. A loja tinha um vidro jateado, um aroma de baunilha, manuais e os toys... No Brasil, ainda não havia aquilo, essa coisa meio feminista. Tudo o que se via era para reconduzir o jeito de pensar nos termos do politicamente correto. E em direção à saúde corporal: tenha orgasmos porque isso vai fazer muito bem à sua saúde, à sua autoestima.

SEXO ‘POLITICAMENTE CORRETO

“O mercado também é motor para mudanças de comportamento, é inegável. Ele tem essa capacidade de capturar o que é novo para criar nichos de consumo, mas ao mesmo tempo isso não oblitera a capacidade de contestação das pessoas. A gente tem que tentar entender na sua complexidade, de ampliação das possibilidades de acesso de muitas mulheres não tão jovens, principalmente com um poder aquisitivo maior, à ampliação do escopo das suas experimentações corporais. E isso é bom, claro. Mas há um preço a pagar também. Cria-se uma espécie de tripla jornada de trabalho. Acaba instituindo a noção de que as mulheres precisam descobrir novas formas de interessar seus parceiros para manter seus casamentos, como elas dizem, apimentados ou vivos. E sabemos que demograficamente, a partir de uma certa idade, elas têm mais chance de ficarem viúvas ou de serem substituídas por mulheres mais jovens. Então, além de trabalhar e cuidar da casa, elas têm que interessar seus companheiros para não serem trocadas. Há ainda uma padronização. É um jeito de apagar o lado disruptivo das mudanças. O “drive” daquilo que é arte abre para a imaginação. Enquanto a tendência de mercado é abrir para a normalização, porque assim vende mais. Transforma o erotismo clandestino e transgressor num erotismo politicamente correto.

O LUGAR DA TRANSGRESSÃO

“Ainda há lugar para transgressão, claro. Creio que, por usar produtos eróticos, as pessoas já transgridem. Meus entrevistados têm um modo de viver o erotismo e a sexualidade que é polimórfico. E isso já é uma transgressão. A teoria freudiana aceita, sobretudo na infância, esse polimorfismo sexual. É como se o sujeito fosse se orientando, como se houvesse um roteiro e a pessoa fosse ficando mais heterossexual. E o que as minhas entrevistas mostram é que não, as pessoas continuam polimorfas, elas continuam a fazer usos não só extravagantes, mas muito transgressores na relação com o próprio corpo ou com o corpo do outro, ainda que esse outro seja um objeto e esse objeto as possua.

RISCOS DE PADRONIZAÇÃO

“O que causa um pouco de espanto nessa estandardização promovida pelo mercado é que ela elimina uma parte importante do que é mais clandestino, uma parte do que é transgressor realmente se vai. O que eu quis mostrar no livro é que, na dimensão dos usos, das polimorfias, do sadomasoquismo como paródia, consigo enxergar muitas alternativas de mudança no sentido libertário. Mas também vejo uma série de pressões no sentido de constituir novos pânicos sexuais, novos pânicos morais, e com a ajuda de vertentes feministas e dos direitos humanos. O que passou a se desenvolver, simultaneamente, ao processo de consolidação de direitos sexuais é uma preocupação de proteção de determinados grupos de pessoas tomadas como vulneráveis, sobretudo no que diz respeito aos perigos em torno da sexualidade. Nesse contexto, ganham destaque movimentos contra a pedofilia, contra o tráfico de pessoas e o turismo sexual. O combate aos abusos é inegavelmente uma conquista. Porém, existem manifestações que no intuito de salvaguardar direitos tendem a deixar de tratar os vulneráveis como sujeitos, como pessoas com direito à voz. Por exemplo, existem vertentes do feminismo que advogam a abolição – e esse é o termo que empregam – da prostituição. São vertentes que, ao buscarem proteger, tendem a não admitir que as trabalhadoras sexuais têm direito à voz e lutam pela dignidade e pelo respeito ao direito de decidir.

RADICALISMO FEMINISTA

“Do final dos anos 1970 até os anos 1990, houve uma guerra entre vertentes do feminismo. Tem o que se chama de feminismo radical, um conjunto de grupos feministas contrário à pornografia, ao sadomasoquismo, à prostituição. Elas dizem que você não pode reduzir a mulher a um objeto do desejo de quem quer que seja, não só dos homens. Dizem que a pornografia é a ideologia e o estupro a prática. Eu comecei muito cedo a estudar o feminismo e a me indispor com essas vertentes. Elas não me parecem radicais, me parecem puritanas, moralistas. Parecem retirar da mulher justamente a qualidade de sujeito. Mas ainda bem que existem outras vertentes feministas, que eu chamo de libertárias, que vieram da tradição pró-sex, de liberação sexual dos anos 60. Neste caso, trata-se de grupos e manifestações que defendiam a expressão libertária da sexualidade em torno das homoafetividades, do sadomasoquismo, de uma pornografia não mainstream. Essas são expressões que, do meu ponto de vista, contestam as normas sexuais e produzem deslocamentos interessantes e inovadores.

NO BRASIL, FANTASIAS

“Aponto no livro que em sex shops brasileiros há mais fantasias. Esse é um achado empírico, não gosto dessa ideia de cultura erótica brasileira. Para pensar nele eu fui até o Carlos Zéfiro, e até o Nelson Rodrigues, para ver como isso se constituiu. Não é propriamente interpretar um papel, é a ideia de criar uma simulação que permita o despir. Você cria e simula uma posição parodística, são uniformes, enfermeira, bombeiro, policial ou animaizinhos, tipo coelho e gato. Está ligada à animalização e a posições de poder e como você produz essas inversões. Creio que têm a ver com uma certa tradição que se faz presente no carnaval. A fantasia tem a ver com inverter e desnudar.

UM NOVO ‘VULGAR

“Um dos temas que trato no livro é que a associação do sexo com saúde mental tem apagado a fronteira entre “mulher direita” e a “vagabunda”. Mas isso não é o fim do arquétipo dessa mulher vulgar. Estamos criando novos lugares para falar da vulgaridade. Porque quando se fala de vulgaridade está se falando de desigualdade social, não só de vulgaridade moral. Ao mesmo tempo em que eu noto a ampliação e consolidação de direitos sexuais, o que a gente começa a perceber, sobretudo nos últimos anos no Brasil, é o aumento da violência às minorias sexuais. Eu sinto que aquilo que se consolidou como direito está passando agora por um processo de backlash, de reação. E a gente está vendo essa intolerância em vários segmentos. Não é só homofóbica, com os rapazes na Avenida Paulista, ou com o espancamento brutal daquela trans que apareceu crucificada na Parada Gay. Os estupros coletivos ganharam uma intensidade nos últimos tempos que é atroz. Então as “vagabundas” ainda existem e estão sendo constituídas inclusive pela violência.

REAÇÕES VIOLENTAS

“Isso que aconteceu com essa moça no Piauí (em agosto uma mulher de 26 anos foi violentada por ao menos três homens, no quinto caso do tipo no Estado em um ano) e no Rio de Janeiro (uma adolescente de 16 anos teria sido estuprada por 33 homens, que divulgaram as cenas pelo WhatsApp)... Há uma certa constante de mulheres que namoraram e sofreram “revenge porn”, que está sendo estudado no Brasil. Não acredito que esse fenômeno seja a força da tradição, que sejam pessoas religiosas fazendo essa força para acabar com as discussões de gênero nas escolas, para não ter kit que discuta a homossexualidade, ou mesmo essa violência que acontece nas ruas. Creio que tem a ver com um processo muito amplo de mudanças, que causam uma reação de disputa. Tanto que quem comete essas atrocidades são pessoas muito jovens. Antigamente, a gente dizia que eram grupos nazistas, skinheads. Mas não dá mais pra dizer isso. Minha hipótese é a de que esses atos constituem reação à expansão de direitos. Esse é o tema das minhas pesquisas futuras, então ainda lido com hipóteses. Não acredito que exista um grupo específico por trás dessa reação. Mas me parece que ela é a expressão difusa de um descontentamento, de uma profunda intolerância. Chama a minha atenção o fato de esses atos serem cometidos em situações públicas, como a violência contra os homossexuais nas ruas. E mesmo quando não cometidos em cena pública, a tentativa é divulgar o abuso por imagens nas redes sociais, como no caso da moça estuprada coletivamente no Rio. Penso que eles resultam da intolerância de alguns diante do diferente e dos novos poderes conquistados pelos diferentes. É o que estou estudando para essa minha próxima pesquisa.”

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