Danilo Gonçalves
Danilo Gonçalves

Sexólogo pop star explica o sexo na era digital

Em um workshop na Columbia University, o sexólogo pop star Francisco Ramírez usa hit da cantora americana Beyoncé para explicar o sexo na era digital. “Mandar nudes, pode; compartilhar nudes, não pode; mandar um emoji de camelo e um ponto de interrogação, não pode”. Sobre emojis, aliás, o professor pede para evitar os fálicos

Juliana Sayuri, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2016 | 16h00
Atualizado 11 Junho 2016 | 18h10

O relógio marcava 15h29 quando Francisco Ramírez entrou a passos apressados no Buell Hall, um pomposo predinho de tijolo à vista dentro do campus da Columbia University, em Nova York. Francisco deslizou os sapatos no piso de madeira de 1885 e se posicionou num pequeno púlpito diante de 26 estudantes que o esperavam em uma sexta-feira de - 5°C no rigoroso inverno americano, inquietamente instalados em cadeiras de acrílico transparente e com os olhos vidrados nos smartphones.

“Antes de começar o show, vamos ouvir 60 segundos de Beyoncé. Porque sim”, disse Francisco, cantarolando Who Run the World? Girls! Who Run the World? Girls! e dançando, sozinho, tal qual a diva americana que, nos últimos tempos, se firmou como ícone feminista moderno. Os estudantes se entreolharam e lentamente deixaram de lado os celulares. Francisco deu de ombros: “Se há algo a aprender neste workshop, que seja isso: respeite a Bey (apelido da Beyoncé)”, declarou, virando-se de perfil para a plateia, posição em que se destacavam seu minimoicano milimetricamente armado e seu saliente nariz.

Formado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e com mestrado na Mailman School of Public Health, em Nova York, Francisco Ramirez, 37, é um sexólogo pop star com mais de 15 anos de experiência no curriculum. Neste semestre, ele foi convidado para ministrar três seminários na Columbia, que implementou o programa Iniciativa de Respeito Sexual (Sexual Respect Initiative) que visa conscientizar, controlar e prevenir assédios e agressões sexuais no campus – para os calouros, a presença era obrigatória.

Muitas universidades americanas estão investindo em programas de educação sexual (e sentimental, lato sensu) para oferecer referências, informações e assistência a estudantes. Não é pra menos: entre as estudantes, 23% já passaram por algum tipo de contato indesejado (do beijo roubado ao estupro violento), segundo um estudo de 2015 da Association of American Universities (AAU). Desde 2014, mais de 80 universidades americanas foram investigadas por ignorar denúncias de abuso sexual. Mas as meninas não ficaram paradas e agitaram diversos movimentos para discutir a cultura do estupro no campus, como Know Your IX, liderado por Zoe Ridolfi-Starr, vítima de violência sexual na própria Universidade de Columbia.

Nem tudo são flores, obviamente. Apesar das intenções da iniciativa institucional e da pressão de ativistas para consolidar o programa no campus, muitos estudantes não se animaram – tanto que o diário Columbia Daily Spectator reportou que os alunos ficaram apáticos, desinteressados e desengajados. Neste contexto, Francisco Ramírez deu uma mãozinha, convocado para dar um tom mais pop à questão que está dominando discussões mundo afora – hello, Rio!

“Sei que é duro, mas sejamos francos: vocês sabem de onde vêm os bebês, vocês sabem o que é sexo, vocês podem gostar ou não gostar de sexo, mas... cá estamos” foram as preliminares do workshop Sex in the Digital Age (“sexo na era digital”). “Vamos conversar como gente grande? É do interesse de vocês descobrir quais são seus limites sobre sexo”, introduziu o orador, que há pouco tempo lançou uma turnê de conferências com o excitante título How to F*** in College (“como f***** na faculdade”, literalmente). Nos anais de suas apresentações, estão Sexy Entrepreneur (“empreendedor sexy”) e Slutting Around (“vadiando por aí”), entre outras.

Desde 2005, o principal compromisso do premiado sexólogo é com as Nações Unidas, onde dá treinamentos para as agências Unicef e Unaids em diversos países, e lições sobre sexo seguro a soldados mandados para as missões de paz. Mas é um relacionamento aberto: o seminarista faz frilas para MTV, Instituto Hetrick-Martin, Durex e várias universidades. Nos finais de semana livres, também dá conselhos (de graça) sobre relacionamentos para transeuntes nos parques de Nova York, no projeto #FreeSexAdvice.

Na ONU, Francisco veste terno e gravata. Na MTV, óculos quadrados e um figurino mais hipster. Na Columbia, vestia blazer e camisa carmim. Além de ajustar o armário, o sexólogo calibra o estilo para cada uma de suas palestras. O segredo, como se pode notar, é o tom.

Californiano, gay, moreno, mignon e solteiro, Francisco é discreto sobre a própria vida. Prefere ouvir os outros e instigá-los a compreender que a sexualidade não é um tabu – e decidiu se tornar um educador sexual por acreditar que precisamos pensar e principalmente conversar sobre sexo. “Todos temos um tipo de relacionamento com o sexo e a sexualidade. Entretanto, a sexualidade também é um tópico que somos ensinados a evitar. Pais, pares e instituições frequentemente nos dizem que discutir nossos desejos, interesses e questões sexuais é um motivo de vergonha.” Pelo estilo didático, direto, e divertido, ele se tornou um tipo de papa do sexo nos Estados Unidos. E seu primeiro mandamento é: poder conversar sobre sexo sem sentir vergonha.

Em 2012, por exemplo, o sexólogo estrelou um vídeo polêmico para adolescentes na MTV. “Muita gente define ‘vadia’ como alguém que faz muito sexo ou tem muitos parceiros, mas... De acordo com quem?! A fada das vadias?”, diz Francisco no vídeo, diante de um quadro negro como em uma sala de aula do colegial.

O buchicho virou barulho porque o educador defendeu parar de demonizar a palavra “vadia”. “Sabia que há gente que diz ‘vadia’ num sentido positivo? É pra definir uma mulher confiante de sua sexualidade. Eu particularmente penso que há um pouco de vadia em todos nós.” Depois disso, Francisco também ficou conhecido como slut fairy, ou “fada das vadias”.

De volta a 2016, a Columbia e ao Buell Hall, uma garota de olhos e madeixas azuis deslizava os dedos no smartphone enquanto Francisco elucubrava sobre o impacto da informação e das novas ferramentas (Tinder, Happn, Snapchat, Grindr etc.) na vida sexual dos estudantes. Nos 90 minutos seguintes, deu diversas dicas sobre os “podes” e “não podes” na etiqueta sexual em tempos de Facebook.

“Questão para a classe: é apropriado mandar esta mensagem para alguém que você conheceu há pouco tempo?”, perguntou o professor, mostrando no datashow um emoji de um camelo e um ponto de interrogação (código para um convite sexual, digamos). Veredicto: é, para dizer o mínimo, deselegante.

Nas orientações de Francisco, mandar “nudes” pode; compartilhar, não. Mas não culpe o mensageiro: “Gente, cá estou no Instagram assistindo a vida dos outros passar e decido postar uma foto...”, suspirou o sexólogo, deslizando o dedo no iPhone. “Olha, o que faço com meu corpo é minha escolha – e a minha onda é usar botas de cowboy e sexy boxes, uuui!”, atiçou. “Mas penso mil vezes antes de compartilhar uma foto minha no Insta ou até mandar só para um alguém, que pode virar muitos alguéns. O destinatário também tem escolha. Uns podem dizer ‘Francisco, você tá tão gostoso’, mas outros podem revirar os olhos, ‘pfff, quem é esse cara, vou compartilhar com a galera’. Quer dizer, não tem contrato social na rede social.”

Francisco mostrou posts reais no Facebook e no Twitter para ilustrar as situações. E, num tom professoral, perguntou: “Querida classe, este tuíte é apropriado? ‘Meu roomie está comendo um pêssego a noite toda sem me avisar antes #lol #sexloud’” – pêssego, rosquinha, espiga de milho, berinjela e banana, dá para imaginar, simbolizam genitálias e afins.

“Não, não é legal”, enrijeceu Francisco. “Tudo é questão de consentimento. Quer tuitar? É urgente? Pois bata na porta do quarto e peça permissão: ‘oi, amigo, tudo bem se eu tuitar isso sobre você agora?’”, brincou o sexólogo, arrancando risos dos estudantes. “Vocês podem rir, mas é sério. É preciso consentimento. É respeito.”

Seu último mantra é tão simples que é interessante ver universitários surpresos como se fosse o tratado sociológico do século: clareza e consentimento. “Seja claro sobre o que você quer. E pergunte o que o outro quer. Palavra, gente, lembra? ‘Oh, pra ser sincero não gosto de X, mas talvez Y, topa?’ É simples.” E consentimento, vale lembrar, é o xis da questão para diferenciar sexo e estupro.

Francisco mostrou o diálogo real de Alex e Sarah como exemplo. Alex pergunta: e aí, quer ficar na horizontal? Sarah responde: você quer dizer tipo Netflix e relaxar? “Não dá pra ler ironia ou segundas intenções no SMS. E não dá pra saber o que o outro realmente quer dizer se não perguntar. Sarah pode querer relaxar mesmo e Alex pode estar pensando em sexo com fantasia de palhaço, vai saber. Aliás, vocês deviam dar um Google em clown sex, é interessante”, disse, arqueando a sobrancelha superdelineada.

Francisco Ramírez é um profissional do sexo. O conhecimento científico, o carisma e o bom humor lhe rendem diversos convites profissionais. Fora da sala de aula, seu lado ativista se pauta pela simples convicção de que as mais diferentes experiências e identidades de gênero merecem o mesmo nível de respeito – e a falta de igualdade é o maior desafio na saúde sexual do mundo todo. No fim do seminário, foram-se os estudantes e ficaram Francisco e sua primeira lição do dia: respeite a Bey. Ou, como diz o novo bordão, liberté, egalité, Beyoncé.

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