Simpatia pelo inimigo: em 2017, um presidente americano vai celebrar o comunismo

A julgar pelos agrados de Trump a Putin, veremos um líder americano brindar o comunismo no centenário da Revolução Soviética, grande efeméride do ano

Sérgio Augusto, Impresso

31 Dezembro 2016 | 16h00

Ao que tudo indica, teremos em 2017 uma nova montagem da Guerra Fria, com a China no papel do vilão e o tradicional vilão, a Rússia, como parceiro do, por assim dizer, mocinho. Isso da perspectiva americana. Da perspectiva russa, Trump não é Batman, e sim Robin. Batman, para os russos, é Vladimir Putin. Da perspectiva chinesa, Trump mais parece e age como o Coringa.

A simples presença de Trump nessa encenação confirma o truísmo de que a história sempre se repete pela segunda vez como farsa.

No especial natalino do humorístico da NBC Saturday Night Live, exibido na semana passada, o fanfarrão eleito para a Casa Branca (interpretado por Alec Baldwin) recebeu a visita de Papai Noel, que outro não era se não Putin (Beck Bennet), descendo sem camisa pela chaminé da Trump Tower, e do futuro secretário de Estado Rex Tillerson (John Goodman). Cupinchas de longa data, os dois visitantes se confraternizavam e combinavam novos negócios na Rússia sem dar a menor bola ao aparvalhado anfitrião. Hilário.

O indulgente, para não dizer submisso, comportamento de Trump diante de Putin (“ele é forte e corajoso”) já virou chacota na América. Não que os americanos sintam saudade das intermitentes trocas de insultos e ameaças entre o Kremlin e a Casa Branca, mas os arrulhos em curso superam em muito até os afagos que Roosevelt e Stalin, unidos contra Hitler, trocaram no auge da Segunda Guerra. Trump nunca se recusou a carimbar o governo cesarista de Putin e até já ameaçou adotar-lhe os métodos de perseguição a jornalistas. Não deu um pio ao ficar em segundo lugar na lista dos homens mais poderosos do planeta elaborada pela revista Forbes e liderada por Putin. Isso é que é amor.

A menos que a CIA e o FBI consigam provas irrefutáveis de que hackers a serviço do governo russo interferiram na recente eleição presidencial americana e Trump as leve em consideração, o sucessor de Obama deverá ser presença certa nos festejos do centenário da Revolução Soviética daqui a 10 meses.

Será no mínimo paradoxal, para não dizer cômico, ver o bilionário presidente brindando à tomada do poder pelos comunistas em outubro de 1917. Se alguém então comentar que Trump é o primeiro empresário capitalista americano a compor-se fraternalmente com o inimigo, não acredite. Antes dele houve Armand Hammer. Magnata do petróleo, Hammer praticou negócios e caridade com os bolcheviques, intermediado por Lenin, mas nunca sequer pleiteou a presidência dos Estados Unidos. Já compararam Trump ao íncubo fantoche de Sob o Domínio do Mal (trocando a Manchúria pela Sibéria: “Trump, o candidato siberiano”), mas a Hammer ainda não. Fica a sugestão.

O centenário da Revolução Soviética (ou Bolchevique) será a efeméride de maior destaque em 2017. Não foi o primeiro grande levante popular do século passado (os mexicanos fizeram o seu sete anos antes), mas impôs o regime político mais impactante, duradouro e sangrento da história moderna. Durou 74 anos, afrontou as economias capitalistas e as democracias liberais, virou o mundo de pernas para o ar. Ao destacar sua importância, a última edição do semanário britânico The Economist descreveu a vitória de Lenin como um preâmbulo de sucessivas tragédias: Stalin, os 20 milhões de russos vitimados pela coletivização da agricultura e industrialização forçadas, e os tiranos (Mussolini, Hitler e Franco etc) surgidos como uma reação ao “credo vermelho”. É uma visão reducionista, mas não mentirosa.

Agora, 25 anos depois do fim oficial do regime comunista, ressalta a revista, assistimos a uma nova espécie de “bolshiness” (radicalização extrema) em ação, a uma ameaça à ordem liberal, desta feita desferida pela direita. Trump, Putin, Erdogan e Marina Le Pen são os “bolshiniks” (origem da expressão “bolshiness”) mais em evidência. Eles representam um entrave não apenas à livre circulação das ideias, mas também ao livre comércio, às alianças globais contra regimes desonestos e autoritários.

Os comunistas podem lavar as mãos. O Brexit não foi uma invenção dos socialistas nem dos trabalhistas britânicos; quem mais facilitou o triunfo de Trump foram os democratas; a economia global fracassou. A miséria diminuiu, sem dúvida, mas a produtividade mundial declinou, a concentração econômica produziu lucros inimagináveis para os mais ricos e os atuais níveis de desigualdade põem em risco a estabilidade de todas as nações, democráticas ou não.

Que novos “bolshiniks” nos aguardam no ano que hoje se inicia? E no ano que vem, quando outra efeméride de monta – o centenário da Guerra Fria – nos aguarda?

Não errei as contas. A Guerra Fria pode ter se iniciado oficialmente em 1947, com a Doutrina Truman, mas a primeira desavença entre americanos e soviéticos ocorreu já em 1918. Os soviéticos se lembram mais do episódio que os americanos. Quando, 30 anos atrás, a TV americana pôs no ar a minissérie Amerika, fantasia especulativa sobre uma imaginária invasão dos Estados Unidos pela União Soviética, também exibida aqui, o presidente russo Andrei Gromiko protestou por carta à ABC TV, usando um argumento irrespondível: “Nós não invadimos seu país, mas vocês já invadiram o nosso”. Os produtores da minissérie desconheciam por completo a invasão da Sibéria por 8.500 tropas de uma força expedicionária americana, nove meses depois da tomada do poder pelos bolcheviques – uma das primeiras campanhas de contrainsurgência dos Estados Unidos fora do hemisfério ocidental.

Operação militar ordenada pelo presidente Woodrow Wilson e prioritariamente antigermânica, contra as Potências Centrais combatidas pelos Aliados britânicos e franceses, visando evitar que a Sibéria caísse em mãos inimigas e fosse parcialmente abocanhada pelo Japão, contou de início com o apoio de Trotski, comandante do Exército Vermelho e segundo na hierarquia soviética, mas cedo mudou de objetivo: conter e, se possível, destruir o poder bolchevique. Fracassaram pateticamente.

Em 19 meses de confronto, marcados por falta de combustível, munição e comida, 189 soldados americanos morreram de variadas doenças, a maioria causada pelo frio gélido da região, que também castigou os cavalos e congelou as metralhadoras.

Sobretudo em nome da simpatia que os une, nem Trump nem Putin deverão remoer publicamente esse e outros episódios que, ao longo dos últimos 100 anos, azedaram as relações entre o Kremlin e a Casa Branca; muito menos a suposta interferência russa na eleição presidencial americana, embaraçosa para Putin e Trump. Mas com outro precedente histórico desfavorável aos americanos: em 1996, o governo Bill Clinton interferiu na eleição que reelegeu o pinguço Boris Yeltsin presidente da Rússia, num pleito tão notoriamente fraudulento que até virou capa da revista Time.

SÉRGIO AUGUSTO, JORNALISTA E AUTOR DE NOVE LIVROS, ENTRE OS QUAIS E FORAM TODOS PARA PARIS (CASA DA PALAVRA)

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